{"id":22045,"date":"2026-01-05T11:00:00","date_gmt":"2026-01-05T14:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/?p=22045"},"modified":"2025-11-28T11:53:06","modified_gmt":"2025-11-28T14:53:06","slug":"a-verdadeira-cuca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/?p=22045","title":{"rendered":"A Verdadeira Cuca"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-medium-font-size\">Era meados da d\u00e9cada de 1940 em Barra Mansa, quando a cidade oscilava entre dois mundos: o das ro\u00e7as cansadas e o das chamin\u00e9s que come\u00e7avam a cuspir fuma\u00e7a no horizonte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A Vila Nova, ainda um bairro afastado, mais ligado \u00e0s fazendas do que ao centro urbano, surgia como um corpo estranho a meio caminho entre o rural e o industrial. Ali as ruas viviam cheias de meninos descal\u00e7os e meninas de la\u00e7os tortos; poeira vermelha para todo lado; cheiro de lenha, de carv\u00e3o, de roupa secando em varal improvisado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A nova Sider\u00fargica Barra Mansa, rec\u00e9m-inaugurada, despejava gente de todo canto. Mas nada apagava o fato de que, desde o s\u00e9culo XIX, aquele peda\u00e7o de mundo era um ponto de passagem: fora ali que a estrada aberta pelo Visconde de Barra Mansa para escoar o caf\u00e9 da Fazenda Santana do Turvo encontrara o Rio Para\u00edba do Sul. No entorno daquela estrada, a mata, domesticada \u00e0 for\u00e7a, deixava escapar uma casa isolada aqui, outra acol\u00e1 \u2014 taperas ocupadas por sobreviventes do frio, do tempo e da fome.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Mesmo assim, o bairro vibrava: havia igreja com sinos que teimavam em acordar o domingo, havia festas de santo, grupo escolar, encontros na porta de venda, crian\u00e7as derrapando nas valetas como se fossem rios imagin\u00e1rios. A gente da Vila Nova era pobre, mas erguia o dia com a for\u00e7a dos bra\u00e7os e a f\u00e9 nos bolsos vazios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">E foi justamente nessa \u00e9poca de vida mi\u00fada e barulhenta que come\u00e7ou o sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Primeiro foi um menino. Depois dois. Depois cinco. Em dois anos, oito meninos desapareceram sem deixar vest\u00edgio. As hist\u00f3rias eram sempre as mesmas: entravam na mata atr\u00e1s de passarinhos, procuravam ninhos entre os galhos ou simplesmente se perdiam nas brincadeiras e n\u00e3o voltavam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Quando a noite ca\u00eda e o medo subia montanha acima, as m\u00e3es sa\u00edam com lamparinas tremendo nas m\u00e3os pelas trilhas que levavam ao c\u00f3rrego da \u00c1gua Comprida, vasculhavam pedras, barrancos, ocos de \u00e1rvore. Nunca encontravam nada. Nem uma pe\u00e7a de roupa. Nem um fio de cabelo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">As autoridades vinham, anotavam, prometiam, ajudavam nas buscas \u2014 e nada. Depois de alguns dias, os meninos perdidos viravam nomes riscados num caderno. E quando s\u00e3o filhos de pobre, at\u00e9 o caderno esquece.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Mas o povo n\u00e3o esquecia. E quando o medo aperta o peito por tempo demais, qualquer sussurro vira certeza. Logo, todos voltaram seus olhos para Dona Tereza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Era uma velha que morava num casebre perto de onde hoje chamam Morro do Sab\u00e3o. Vivia sozinha, tinha g\u00eanio ruim, apar\u00eancia que assustava at\u00e9 os adultos, e um sil\u00eancio que n\u00e3o convidava ningu\u00e9m a prosa alguma. As crian\u00e7as menores a temiam; os meninos maiores a provocavam para ouvir os palavr\u00f5es que ela devolvia com f\u00faria. Ningu\u00e9m podia jurar ter visto algo errado, mas ningu\u00e9m queria viver perto dela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Quando come\u00e7aram a cham\u00e1-la de Cuca, ela passou a andar pelas ruas como se carregasse a pr\u00f3pria peste nos ombros. As m\u00e3es gritavam pelos filhos para virem para dentro. As janelas se fechavam. A poeira assentava mais r\u00e1pido \u00e0 sua passagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">E, curiosamente, depois de tanta histeria, os desaparecimentos cessaram. Seis meses inteiros sem sumir crian\u00e7a alguma. As m\u00e3es respiraram um pouco. Os meninos voltaram a brincar perto da mata, mas n\u00e3o muito dentro dela. Como se o medo tivesse se acomodado \u2014 apenas dormindo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">At\u00e9 aquela manh\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Era s\u00e1bado, dia de roupa lavada e cheiro de caf\u00e9 forte quando o bairro acordou em sobressalto. Uma menina tinha sumido. E n\u00e3o uma menina qualquer: era Lu\u00edza, tr\u00eas anos, doce como fruta madura, cabelos louros que brilhavam quando ela corria no quintal. Tinha desaparecido do pr\u00f3prio quarto, no meio da noite.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Quando Bento e Maria Aparecida surgiram na porta de casa, estavam irreconhec\u00edveis. Os olhos do casal pareciam duas brasas acesas pela beira do desespero. O quarto da menina ficara em sil\u00eancio, como se tudo ali dentro tivesse sido interrompido no ar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A janela estava entreaberta. No ch\u00e3o, pequenas pegadas de terra \u2014 e nada mais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A not\u00edcia correu em minutos. O bairro inteiro, do grupo escolar ao armaz\u00e9m, das lavadeiras aos trabalhadores da sider\u00fargica, correu para a rua. Alguns homens tentavam organizar buscas. Mulheres choravam como se cada l\u00e1grima pudesse chamar de volta a menina perdida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">E o nome que ningu\u00e9m ousava dizer voltou a circular, desta vez com for\u00e7a de martelo:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Foi a Cuca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Dona Tereza, ao saber da acusa\u00e7\u00e3o, fechou-se em seu casebre. Mas a hist\u00f3ria caminhava sozinha, como fogo em mata seca. Quem quisesse ou n\u00e3o, j\u00e1 havia um culpado. E a n\u00e9voa daquela manh\u00e3 parecia mais pesada que o comum, como se o mato respirasse junto com o medo do povo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A mata da \u00c1gua Comprida, t\u00e3o antiga quanto as primeiras casas, ficava ali, impass\u00edvel, olhando tudo. Um mundo que n\u00e3o respondia a perguntas humanas. Um mundo que podia engolir meninos \u2014 e agora, talvez, uma menina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A partir deste ponto, a hist\u00f3ria da Vila Nova deixaria de ser apenas lenda de m\u00e3e protetora. Algo estava vindo da mata. Algo que ningu\u00e9m queria ver. Algo que j\u00e1 tinha nome \u2014 mesmo que ningu\u00e9m soubesse de verdade o que esse nome queria dizer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">E, naquela manh\u00e3, como nunca antes, o bairro inteiro passou a acreditar que a Cuca n\u00e3o era apenas uma velha. Era uma presen\u00e7a. Uma sombra. Ou algo que a pr\u00f3pria mata escondera por tempo demais. Era o \u00f3dio das pessoas contra as pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O bairro demorou dias para voltar a respirar depois daquela manh\u00e3 de f\u00faria. O cheiro de fuma\u00e7a do casebre que foi queimado com Dona Tereza l\u00e1 dentro impregnou o bairro inteiro, como um remorso que se recusava a dispersar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Durante semanas ningu\u00e9m passava perto do Morro do Sab\u00e3o; crian\u00e7as eram puxadas para dentro de casa ao menor sinal de p\u00f4r do sol. Mas o al\u00edvio que deveria vir com a morte da velha n\u00e3o veio. Pelo contr\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">As noites ficaram mais pesadas. Os galos passaram a cantar fora de hora. C\u00e3es latiam para o mato sem motivo aparente. As mulheres evitavam comentar, mas havia algo no ar \u2014 um sentimento de que a viol\u00eancia cometida n\u00e3o dera fim \u00e0 sombra, e sim a despertara.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">E o mais terr\u00edvel: Lu\u00edza continuava desaparecida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Bento e Cida se transformaram em espectros vagando pela casa. Ele mal trabalhava; ela mal comia. Os vizinhos tentavam consolar, sem muito sucesso. Ao final de dois meses, derrotados pelo luto e pelo vazio, decidiram voltar a Minas, para a cidade natal de Bento. Talvez l\u00e1, entre parentes, pudessem aprender a sobreviver \u00e0 aus\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Partiram sem festa, sem despedidas. Nem os sinos da igreja tocaram.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Na cidade mineira, a vida era mais lenta, os dias mais silenciosos. Havia um conforto cruel em estar perto da fam\u00edlia, ainda que fosse imposs\u00edvel esquecer. Jo\u00e3o \u2014 primo de Bento, ferrovi\u00e1rio, solteir\u00e3o \u2014 visitava-os com frequ\u00eancia, tentando aliviar as dores do casal. Era um homem cordial, ajudava no que podia, e, desde antes da trag\u00e9dia, nutria carinho pela pequena Lu\u00edza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Foi ele quem arranjou um servi\u00e7o leve para Bento na esta\u00e7\u00e3o. Foi ele quem levava mantimentos. Foi ele quem insistiu para que Cida continuasse lavando suas roupas enquanto vivia sozinho, viajando de cidade em cidade pela rede ferrovi\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Um dia, Jo\u00e3o pediu \u00e0 prima emprestada um favor simples:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 <em>Cida, quando for l\u00e1 em casa, pega umas roupas que eu separei pra doa\u00e7\u00e3o. T\u00e3o no quarto de costura da mam\u00e3e.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Mas Jo\u00e3o esqueceu de separar as pe\u00e7as. E esqueceu de avisar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Cida, que sempre tratou a casa dele com o respeito de quem pisa num altar alheio, procurou sem querer procurar. Abriu portas devagar, como se temesse acordar uma mem\u00f3ria antiga. Passou pela sala, pelo quarto, pela cozinha estreita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">E ent\u00e3o entrou no quarto de costura da falecida m\u00e3e de Jo\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Era um espa\u00e7o parado no tempo. As linhas ainda estavam dispostas na estante, as agulhas espetadas numa almofadinha pu\u00edda. O cheiro de naftalina misturava-se a algo mais frio, mais denso, dif\u00edcil de nomear.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Foi nesse quarto que ela viu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Num canto, quase escondido, um pequeno feixe de pano rosado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Cida se aproximou com passos que n\u00e3o eram seus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Pegou a pe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O mundo parou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Era um pijaminha cor-de-rosa. O pijaminha cor-de-rosa. A estampa de cerejinhas. A barra gasta no tornozelo. E, mais terr\u00edvel que tudo, a manchinha escura de feij\u00e3o, que Lu\u00edza derramara na noite do desaparecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A garganta de Cida fechou. As pernas fraquejaram. Ela n\u00e3o gritou \u2014 n\u00e3o conseguia. Apenas saiu da casa como se fugisse de uma assombra\u00e7\u00e3o real.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Bento reconheceu a roupa antes mesmo que a esposa terminasse a frase.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A pol\u00edcia veio r\u00e1pido desta vez.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Cercaram a casa de Jo\u00e3o. Esperaram ele voltar da viagem. O ferrovi\u00e1rio fingiu surpresa, indignou-se, chorou \u2014 depois, silenciou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A escava\u00e7\u00e3o do quintal foi lenta, meticulosa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O cheiro foi sentido antes que a primeira p\u00e1 revelasse a terra remexida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">E ent\u00e3o vieram as descobertas, uma por uma, como facas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Nove pequenas ossadas.<br>Oito meninos.<br>Uma menina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O terror que assolara a Vila Nova n\u00e3o tinha vindo da mata.<br>Nem da bruxa.<br>Nem de nenhuma entidade sobrenatural.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Tinha vindo de um homem comum.<br>Polido.<br>Silencioso.<br>Prestativo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Um monstro sem dentes pontudos, sem garras, sem feiti\u00e7aria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Um monstro que passava despercebido na rua.<br>Que sorria sem levantar suspeita.<br>Que carregava a sombra por dentro e deixava a culpa espalhar-se sobre uma velha solit\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A verdadeira Cuca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Quando a not\u00edcia correu, a Vila Nova \u2014 distante dali \u2014 viveu uma como\u00e7\u00e3o tardia. Pessoas choraram por Dona Tereza. Pessoas pediram perd\u00e3o a um t\u00famulo sem nome. O padre rezou uma missa pela alma da velha. Os homens que haviam participado da vingan\u00e7a carregaram a culpa como corrente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A mata, calada, continuou apenas sendo mata.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">E, em Barra Mansa, nas d\u00e9cadas seguintes, sempre que uma m\u00e3e gritava para um filho:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 N\u00e3o vai sozinho! A Cuca te pega!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">alguns velhos estremeciam por dentro, sabendo que, naquele bairro, Cuca nenhuma precisava de asas, garras ou feiti\u00e7os. Bastava ter um rosto comum.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era meados da d\u00e9cada de 1940 em Barra Mansa, quando a cidade oscilava entre dois mundos: o das ro\u00e7as cansadas e o das chamin\u00e9s que come\u00e7avam a cuspir fuma\u00e7a no&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":22046,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[230],"tags":[248,341,317],"class_list":["post-22045","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-conto","tag-conto","tag-folclore","tag-lenda"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.6 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>A Verdadeira Cuca - Uma Alma em Palavras<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Quando crian\u00e7as desaparecem na Barra Mansa dos anos 1940, a vila culpa a Cuca. 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