{"id":23110,"date":"2026-05-12T11:00:00","date_gmt":"2026-05-12T14:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/?p=23110"},"modified":"2026-05-06T12:08:06","modified_gmt":"2026-05-06T15:08:06","slug":"a-saudade-do-que-nunca-tivemos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/?p=23110","title":{"rendered":"A Saudade do que Nunca Tivemos"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-medium-font-size\">Perdi as contas de quantas vezes parei em Congonhas. Sempre foi assim: ponto de passagem, descanso de estrada, pausa entre o que ficou e o que ainda est\u00e1 por vir. Desta \u00faltima vez, ia em dire\u00e7\u00e3o a Diamantina. O carro cheio, o cansa\u00e7o, e os doze profetas de Aleijadinho no alto do adro (como sempre estiveram, como sempre estar\u00e3o) olhando para um horizonte que nenhum de n\u00f3s consegue alcan\u00e7ar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Parei mais tempo do que o necess\u00e1rio. N\u00e3o por devo\u00e7\u00e3o, exatamente. Por uma sensa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o sei nomear direito. A mesma que tive na Piazza San Pietro, em Roma, diante da fachada da Bas\u00edlica. Aquela arquitetura que parece n\u00e3o ter sido feita para impressionar ningu\u00e9m, mas para responder a algo. Como se os homens que ergueram aquelas pedras soubessem de uma ang\u00fastia que eu tamb\u00e9m conhe\u00e7o, e estivessem tentando, em m\u00e1rmore e pedra sab\u00e3o, dizer alguma coisa sobre ela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Talvez desde que alcan\u00e7amos a autoconsci\u00eancia (desde que soubemos que sabemos que vamos morrer), vivemos divididos. O corpo \u00e9 finito. O tempo neste mundo \u00e9 finito. A vida \u00e9 finita. Mas os desejos n\u00e3o obedecem a essa l\u00f3gica. As aspira\u00e7\u00f5es n\u00e3o. O amor n\u00e3o. Ningu\u00e9m deseja amar por alguns anos. Ningu\u00e9m constr\u00f3i uma catedral para durar uma gera\u00e7\u00e3o. H\u00e1 uma assimetria radical entre o que somos e o que queremos, e essa assimetria d\u00f3i.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Vivo pensando em quanto minha vida \u00e9 curta para fazer tudo que desejo. Ver todas as coisas que espero ver. Imagino muito, talvez para suprir a falta de coisas que ainda nem se aproximaram. \u00c9 uma esp\u00e9cie de fome que se alimenta de si mesma. Quanto mais se satisfaz, mais se alarga.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Santo Agostinho nomeou isso no s\u00e9culo IV com uma precis\u00e3o que vinte s\u00e9culos de psicologia n\u00e3o conseguiram superar: nos fizeste para Ti, e inquieto est\u00e1 o nosso cora\u00e7\u00e3o enquanto n\u00e3o repousa em Ti.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O que Agostinho percebeu (e que a modernidade preferiu ignorar) \u00e9 que o desejo humano n\u00e3o \u00e9 grande demais por acidente ou por patologia. Ele \u00e9 estruturalmente aberto ao infinito. N\u00e3o falha quando n\u00e3o encontra satisfa\u00e7\u00e3o neste mundo. Est\u00e1 funcionando exatamente como foi feito. A inquieta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o problema. \u00c9 o diagn\u00f3stico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Esse desejo se revela em tudo que o humano toca. No amor, que por defini\u00e7\u00e3o quer ser eterno. Na arte, que quer durar mais do que o artista. Na filosofia, que persegue verdades que n\u00e3o se desgastem. Na pol\u00edtica, quando \u00e9 nobre, que tenta construir institui\u00e7\u00f5es que sobrevivam a quem as funda. O homem n\u00e3o faz s\u00f3 para si. Faz para que permane\u00e7a. E isso tem sido, ao longo dos s\u00e9culos, a forma mais tang\u00edvel de nos inscrevermos no tempo. Nosso legado \u00e9 a sombra que projetamos no futuro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A modernidade, ao deparar-se com essa saudade do eterno, n\u00e3o a reconheceu como sinal. Diagnosticou-a como car\u00eancia. Repress\u00e3o cultural. Imaturidade psicol\u00f3gica. Falta de satisfa\u00e7\u00e3o material. E apresentou sua receita: consumo, prazer, acumula\u00e7\u00e3o, conforto. A tal busca pela felicidade foi reduzida \u00e0 busca por esses itens.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O resultado est\u00e1 \u00e0 vista. Quanto mais temos desses itens, mais inquietos parecemos. A sa\u00fade mental do s\u00e9culo que se proclamou mais livre, mais esclarecido e mais bem abastecido da hist\u00f3ria \u00e9 catastr\u00f3fica. Porque enquanto buscamos o que permanece, s\u00f3 encontramos o que passa. E viver nessa tens\u00e3o (desejar o eterno num mundo de coisas que caducam) nos adoece de uma forma que nenhum antidepressivo consegue tocar no fundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A tecnologia, mais recentemente, tentou responder \u00e0 mesma quest\u00e3o por outra via. Na medicina, o esfor\u00e7o de prolongar a vida (em tempo e em qualidade) n\u00e3o \u00e9 um erro em si. H\u00e1 dignidade em n\u00e3o aceitar a dor desnecess\u00e1ria, em envelhecer com inteireza. O problema surge quando a tecnologia deixa de prolongar a vida e come\u00e7a a prometer escapar da morte. Quando o projeto n\u00e3o \u00e9 mais viver melhor, mas n\u00e3o morrer. Quando a imortalidade deixa de ser esperan\u00e7a e vira engenharia. Nesse ponto, algo fundamentalmente humano se perde. Porque a finitude n\u00e3o \u00e9 apenas o limite da vida. \u00c9 tamb\u00e9m o que lhe d\u00e1 forma, urg\u00eancia e sentido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Mas muito antes de qualquer laborat\u00f3rio discutir o upload de consci\u00eancia ou a edi\u00e7\u00e3o do genoma, um homem demonstrou que esse desejo pelo infinito n\u00e3o \u00e9 uma doen\u00e7a a ser tratada nem um problema a ser resolvido pela t\u00e9cnica. \u00c9 um sinal. \u00c9, na interpreta\u00e7\u00e3o mais ousada, um destino.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A l\u00f3gica \u00e9 simples, quase desconcertante na sua simplicidade: nenhum ser vivo desenvolveu um apetite que n\u00e3o tem objeto real. O peixe tem fome porque existe \u00e1gua. O pulm\u00e3o sufoca porque existe ar. Se h\u00e1 em n\u00f3s um desejo que nenhuma coisa deste mundo consegue saciar (esse sofrimento metaf\u00edsico que n\u00e3o consigo nomear quando estou diante dos profetas de pedra-sab\u00e3o no alto de Congonhas), a hip\u00f3tese mais honesta \u00e9 que o objeto desse desejo existe. E que n\u00e3o pertence a este mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Aleijadinho esculpiu os doze profetas com as m\u00e3os destru\u00eddas pela doen\u00e7a. Instrumentos presos aos pulsos porque os dedos j\u00e1 n\u00e3o obedeciam. N\u00e3o h\u00e1 registro de que ele tenha parado. H\u00e1 algo perturbador nisso: um homem cujo corpo se desfazia enquanto sua obra ganhava forma. Como se a finitude do artista e a perman\u00eancia da arte estivessem em di\u00e1logo for\u00e7ado, e a \u00fanica resposta poss\u00edvel fosse continuar esculpindo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">N\u00e3o sei se Aleijadinho tinha clareza teol\u00f3gica sobre o que fazia. Sei que aquelas figuras, s\u00e9culos depois, ainda produzem em quem as v\u00ea uma sensa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 est\u00e9tica. \u00c9 reconhecimento. Como se o pedra-sab\u00e3o tivesse guardado uma pergunta que o artista n\u00e3o sabia responder, mas que n\u00f3s tamb\u00e9m carregamos e que, de tempos em tempos, quando paramos na beira de uma estrada ou ficamos de p\u00e9 numa pra\u00e7a em Roma, nos alcan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O humano \u00e9 o \u00fanico ser na natureza que parece ser maior do que o mundo que o cont\u00e9m. Nenhuma outra esp\u00e9cie parece sofrer por ser finita. Nenhuma outra constr\u00f3i catedrais. Nenhuma outra escreve testamentos, planta \u00e1rvores sob cuja sombra nunca descansar\u00e1, ou chora diante de uma est\u00e1tua que n\u00e3o conhece o nome de quem chora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Talvez esse seja o argumento mais silencioso e mais persistente de todos: que existe em n\u00f3s uma abertura que nenhuma coisa criada preenche. E que essa abertura n\u00e3o \u00e9 um defeito de fabrica\u00e7\u00e3o. \u00c9 o contorno exato de algo que ainda n\u00e3o chegou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O desejo que n\u00e3o cabe no mundo n\u00e3o \u00e9 grande demais; \u00e9 endere\u00e7ado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Perdi as contas de quantas vezes parei em Congonhas. 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