{"id":23289,"date":"2026-06-17T11:00:00","date_gmt":"2026-06-17T14:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/?p=23289"},"modified":"2026-06-01T15:22:09","modified_gmt":"2026-06-01T18:22:09","slug":"a-caixa-203","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/?p=23289","title":{"rendered":"A Caixa 203"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Fernanda desceu ao arquivo da 2\u00aa Vara C\u00edvel \u00e0s oito e quarenta e tr\u00eas da manh\u00e3, fones de ouvido no lugar, chicletes na boca, com a express\u00e3o de quem tem trabalho suficiente para encher o dia e nenhuma ilus\u00e3o de que o dia ser\u00e1 interessante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Dezenove anos, terceiro per\u00edodo de Ci\u00eancia da Computa\u00e7\u00e3o, emprego de estagi\u00e1ria numa empresa que havia ganhado uma licita\u00e7\u00e3o do Tribunal de Justi\u00e7a do Estado do Rio de Janeiro para digitalizar o acervo f\u00edsico das varas c\u00edveis. Era um trabalho que existia porque a tecnologia havia criado a solu\u00e7\u00e3o antes de qualquer um ter urg\u00eancia no problema, e que precisava de algu\u00e9m jovem e paciente o suficiente para sentar diante de uma pilha de processos amarelados e aliment\u00e1-los num esc\u00e2ner durante oito horas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Fernanda era essa pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">N\u00e3o porque fosse especialmente paciente, Seu pai dizia que ela era das pessoas mais impacientes que havia conhecido, e dizia isso com o orgulho torcido de quem reconhece o pr\u00f3prio gene. Mas porque tinha a capacidade, rara e valiosa, de entrar num estado de funcionamento autom\u00e1tico em que o t\u00e9dio deixava de ser t\u00e9dio e se tornava simples dura\u00e7\u00e3o. Os fones ajudavam. Os chicletes tamb\u00e9m. Era um h\u00e1bito que o pai detestava e que por isso mesmo a relaxava de forma que ela nunca tentou explicar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">O arquivo subterr\u00e2neo cheirava a papel velho, a umidade contida, a d\u00e9cadas de processos empilhados com a l\u00f3gica dos arquivos que crescem sem plano. Fernanda havia chegado aos processos da d\u00e9cada de 1980 depois de dias nos anos quarenta, cinquenta, sessenta e setenta, e havia aprendido algumas coisas sobre como o tempo trata o papel e sobre como as caixas de papel\u00e3o cedem nas arestas quando carregam peso por tempo suficiente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Havia aprendido tamb\u00e9m, porque os colegas n\u00e3o perdiam oportunidade, sobre o Dr. Valeriano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>\u2014 Tem uma alma penada l\u00e1 embaixo \u2014<\/em> disse o t\u00e9cnico de TI na primeira semana, com o tom de quem espera rea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>\u2014 Que \u00f3timo \u2014 <\/em>disse Fernanda.<em> \u2014 Pelo menos vai ter companhia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Dr. Valeriano de Mascarenhas havia morrido em 1984, aos setenta anos, de um infarto que o pegou sentado na poltrona do escrit\u00f3rio dom\u00e9stico num s\u00e1bado de manh\u00e3, com o copo de caf\u00e9 ainda na m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">O com\u00e9rcio da cidade fechou. O f\u00f3rum ganhou seu nome. A pra\u00e7a central recebeu um busto em bronze com a testa larga e a express\u00e3o severa que seus colegas reconheceram como fiel. O jornal local publicou um especial de quatro p\u00e1ginas sobre trinta e cinco anos de magistratura sem uma \u00fanica suspeita, sobre as senten\u00e7as estudadas nas faculdades da capital, sobre a postura que os advogados mais jovens descreviam como quase eclesi\u00e1stica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Valeriano havia lido o especial com aten\u00e7\u00e3o, do outro lado, e havia sentido algo que em vida chamaria de satisfa\u00e7\u00e3o e que ali, sem o corpo para ancor\u00e1-la, era mais parecida com o desconforto de uma roupa justa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">O al\u00e9m n\u00e3o havia sido o que esperava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">N\u00e3o havia tribunal divino, nem senten\u00e7a, nem a presen\u00e7a de nenhuma entidade que se apresentasse com autoridade sobre os vivos e os mortos. Havia apenas uma esp\u00e9cie de espa\u00e7o aberto, uma continuidade, e a percep\u00e7\u00e3o de que podia seguir em frente ou n\u00e3o seguir, e que n\u00e3o seguir significava ficar, e que ficar significava aquele arquivo subterr\u00e2neo com cheiro de mofo, porque era ali que estava o \u00fanico ponto de gravidade que ainda o puxava para o mundo dos vivos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A caixa n\u00famero 203.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">O processo 842 de 1986.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Tecnicamente, o processo era de dois anos depois de sua morte. Havia sido aberto pelo invent\u00e1rio de sua carreira num levantamento p\u00f3stumo que nunca chegou a lugar algum, encerrado sem decis\u00e3o, arquivado sem leitura. Mas o caso que estava dentro do processo era de 1971, e Valeriano havia assinado a senten\u00e7a em mar\u00e7o daquele ano, numa semana de chuva, depois de uma visita noturna do compadre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A fam\u00edlia dos posseiros havia sido expulsa da beira do rio onde vivia h\u00e1 tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es. O pai havia bebido at\u00e9 morrer meses depois. A sider\u00fargica havia expandido o descarte de esc\u00f3ria. O compadre havia sido reeleito. A vaga de desembargador nunca havia aparecido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Valeriano havia esperado a vaga por tr\u00eas anos. Depois havia parado de esperar. Depois havia morrido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Ningu\u00e9m havia questionado a decis\u00e3o, porque Dr. Valeriano n\u00e3o errava, e se havia assinado era porque a lei mandava, e se a lei mandava era porque estava certo, e se estava certo era porque Dr. Valeriano havia assinado. Um c\u00edrculo de reputa\u00e7\u00e3o t\u00e3o fechado que engoliu a injusti\u00e7a sem deixar marca vis\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Mas Valeriano lembrava. E como lembrava, ficou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Por quarenta anos a estrat\u00e9gia havia funcionado com precis\u00e3o quase elegante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">O arquivo subterr\u00e2neo n\u00e3o era um lugar de visitas frequentes. Ningu\u00e9m vai a um arquivo de vara c\u00edvel por prazer, e as obriga\u00e7\u00f5es funcionais que levavam algu\u00e9m at\u00e9 l\u00e1 eram espor\u00e1dicas, previs\u00edveis, e suficientemente inc\u00f4modas para que qualquer desvantagem adicional as tornasse insuport\u00e1veis. Valeriano havia desenvolvido um repert\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Para o arquivista da manh\u00e3, que tinha artrite nos joelhos, Valeriano baixava a temperatura do corredor pr\u00f3ximo \u00e0 caixa 203 at\u00e9 que o desconforto se tornasse raz\u00e3o suficiente para adiar. O arquivista adiantava consistentemente at\u00e9 os anos noventa e ent\u00e3o abandonava. Sempre com uma desculpa razo\u00e1vel, sempre sem entender bem por qu\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Para o historiador que havia vindo em 2003 pesquisar decis\u00f5es de reintegra\u00e7\u00e3o de posse nos anos setenta e que havia chegado \u00e0 caixa 203 com entusiasmo de pesquisador, Valeriano havia derrubado uma prateleira inteira no momento em que o homem abria a caixa. O historiador havia voltado dois dias depois com um colega. Valeriano havia produzido murm\u00farios suficientes para que os dois sa\u00edssem em trinta minutos e n\u00e3o voltassem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Havia o repert\u00f3rio do gelo na espinha, que funcionava para a maioria. O repert\u00f3rio das luzes que piscavam, que funcionava para os mais sens\u00edveis. O repert\u00f3rio do cheiro de enxofre, que era dram\u00e1tico, mas eficaz em casos de urg\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">E havia o resultado: a caixa 203 havia ficado intocada por quatro d\u00e9cadas. Valeriano havia desenvolvido, com o tempo dispon\u00edvel que s\u00f3 os mortos t\u00eam, uma compet\u00eancia que era tamb\u00e9m uma pris\u00e3o. Era muito bom em manter as pessoas longe do \u00fanico lugar que precisava guardar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Depois veio a licita\u00e7\u00e3o. Depois veio a empresa. Depois veio Fernanda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Na primeira semana, Valeriano havia tentado o gelo na espinha quando Fernanda passava pelo corredor pr\u00f3ximo \u00e0 caixa 203.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Fernanda havia puxado a jaqueta que trazia dobrada na bolsa e continuado andando.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Havia tentado os murm\u00farios numa tarde em que ela estava sem fones, esperando o equipamento reiniciar depois de uma atualiza\u00e7\u00e3o for\u00e7ada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Fernanda havia olhado para o teto, dito baixinho *que calor, pelo amor de Deus*, e colocado os fones de volta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Havia tentado derrubar uma caixa no corredor lateral, numa das pouqu\u00edssimas vezes em que ela estava suficientemente perto para que o barulho fosse relevante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Fernanda havia desviado sem tirar os olhos da tela do celular, empurrado a caixa de volta com o p\u00e9 e seguido em frente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Valeriano havia ficado im\u00f3vel no ar parado do arquivo (im\u00f3vel da maneira que s\u00f3 os incorp\u00f3reos ficam, que \u00e9 uma imobilidade total porque n\u00e3o h\u00e1 peso nem cansa\u00e7o para justificar movimento) tentando entender o que havia mudado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">N\u00e3o era coragem. Havia testado a coragem antes. Arquivistas corajosos, t\u00e9cnicos c\u00e9ticos, uma pesquisadora que havia declarado explicitamente n\u00e3o acreditar em assombra\u00e7\u00e3o e que havia sa\u00eddo do arquivo antes de meia hora porque \u201calguma coisa estava muito estranha l\u00e1 embaixo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Era outra coisa. Era a indiferen\u00e7a total de quem n\u00e3o chegou a considerar a possibilidade de que houvesse algo a temer. O repert\u00f3rio de Valeriano funcionava porque criava desconforto, e o desconforto funciona sobre quem est\u00e1 prestando aten\u00e7\u00e3o no ambiente. Fernanda estava com fones de ouvido, mascando chiclete, alimentando processos num esc\u00e2ner, e o ambiente era um dado fixo que ela havia registrado uma vez e arquivado como \u201ccheirando mal e sem janelas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Para assombrar algu\u00e9m eficientemente, Valeriano estava percebendo tardiamente, \u00e9 necess\u00e1rio que a pessoa esteja aberta ao assombramento. Fernanda estava fechada com dois clipes e um cadeado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Valeriano viu Fernanda chegar \u00e0 caixa 203 numa ter\u00e7a-feira de outubro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Ela estava na sequ\u00eancia normal. Havia terminado as caixas 198 a 202 na semana anterior e a 203 era a pr\u00f3xima da pilha, sem distin\u00e7\u00e3o, sem sinal de que havia qualquer diferen\u00e7a entre ela e as que haviam vindo antes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Ele concentrou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Era uma habilidade que havia desenvolvido nos quarenta anos de arquivo: a capacidade de canalizar o que restava de sua presen\u00e7a para um objetivo f\u00edsico espec\u00edfico. N\u00e3o era for\u00e7a, era precis\u00e3o. Como uma corrente de ar direcionada, como a diferen\u00e7a de temperatura que faz o vidro emba\u00e7ar exatamente onde voc\u00ea sopra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Direcionou tudo para os cabos do equipamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">O esc\u00e2ner travou. A tela congelou. O computador reiniciou com aquele barulho de sistema que for\u00e7a a parada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Fernanda olhou para a tela por tr\u00eas segundos. Suspirou. Guardou o processo numa gaveta que havia etiquetado de pr\u00f3prio punho como \u201cPEND\u00caNCIAS T\u00c9CNICAS\u201d (uma etiqueta que Valeriano havia lido com um misto de apre\u00e7o pela organiza\u00e7\u00e3o e terror pelo que implicava) e foi embora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Valeriano havia passado as horas seguintes naquele estado que aprendera a reconhecer como esperan\u00e7a. Talvez o prazo acabasse. Talvez a empresa perdesse o contrato. Talvez o equipamento estragasse de verdade e a digitaliza\u00e7\u00e3o daquele setor fosse adiada indefinidamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Dois dias depois Fernanda voltou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Com outro esc\u00e2ner.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Maior. Com rodas. Com uma placa na lateral que dizia \u201cAlta Resolu\u00e7\u00e3o \u2014 Documentos Fr\u00e1geis\u201d com um logotipo que Valeriano n\u00e3o reconheceu mas que claramente pertencia a uma gera\u00e7\u00e3o de equipamento que n\u00e3o existia quando ele havia morrido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Ele tentou os cabos novamente. O equipamento n\u00e3o piscou. Tentou o gelo na espinha. Fernanda estava de jaqueta. Tentou os murm\u00farios. Os fones estavam no lugar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">E ent\u00e3o, com a clareza desolada de quem percebe que perdeu n\u00e3o por falta de esfor\u00e7o, mas por obsolesc\u00eancia, Valeriano ficou parado e assistiu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Fernanda abriu o processo 842\/1986 com o mesmo gesto com que havia aberto os outros quarenta e sete processos daquela manh\u00e3: polegar e indicador na aba, movimento leve para n\u00e3o rasgar o papel fr\u00e1gil, posicionamento sobre o vidro do esc\u00e2ner.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">As p\u00e1ginas eram amareladas e as mais antigas tinham as bordas arredondadas pelo tempo. A caligrafia dos despachos mais velhos era a caligrafia cuidadosa dos escriv\u00e3es de forma\u00e7\u00e3o anterior \u00e0 m\u00e1quina de escrever. A senten\u00e7a, nas p\u00e1ginas do meio, estava em papel timbrado com as armas do estado e a assinatura no final. Uma assinatura com a densidade de quem escreve sabendo que o nome importa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Fernanda n\u00e3o leu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">N\u00e3o era o trabalho dela ler. Era digitalizar. P\u00e1gina por p\u00e1gina, posicionamento correto, qualidade de imagem verificada, pr\u00f3xima p\u00e1gina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Valeriano, que havia passado quarenta anos temendo o momento em que algu\u00e9m lesse aquela senten\u00e7a, percebeu com uma ironia que chegou tarde demais para ter gra\u00e7a que o momento que havia temido nem sequer havia sido esse. Ningu\u00e9m havia lido. O processo havia sido apenas alimentado numa m\u00e1quina, convertido em pixels, enviado para um servidor em algum lugar que Valeriano n\u00e3o conseguia imaginar com clareza porque servidores n\u00e3o haviam existido quando ele era vivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Mas havia sido digitalizado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Estava ali agora. N\u00e3o mais preso ao papel amarelado de uma caixa num arquivo subterr\u00e2neo, mas replicado, indexado, pesquis\u00e1vel, dispon\u00edvel para qualquer estagi\u00e1rio curioso ou historiador diligente ou jornalista com tempo e acesso ao sistema do tribunal. A senten\u00e7a de mar\u00e7o de 1971, a fam\u00edlia expulsa da beira do rio, o pai que havia bebido at\u00e9 morrer. Tudo aquilo estava agora no mesmo lugar onde ficam todas as coisas que entram na mem\u00f3ria digital, que \u00e9 um lugar sem cheiro de mofo e sem temperatura e sem a possibilidade de derrubar prateleiras sobre ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Fernanda fechou o processo. Colocou-o de volta na caixa. Pegou o pr\u00f3ximo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Valeriano ficou olhando para ela por um tempo que n\u00e3o sabia medir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Havia algo no ato de n\u00e3o ser visto (mesmo por algu\u00e9m que claramente n\u00e3o o via) que tinha uma qualidade espec\u00edfica depois de quarenta anos tentando ser sentido. Era uma invisibilidade diferente da invisibilidade dos primeiros meses, quando havia sido apenas um morto recente tentando entender as regras do lugar novo. Era a invisibilidade de quem entende que o esfor\u00e7o acabou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Pensou na fam\u00edlia dos posseiros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Tinha pensado neles muitas vezes nos quarenta anos de arquivo. N\u00e3o com remorso declarado, porque Valeriano havia constru\u00eddo uma vida inteira com a habilidade de n\u00e3o deixar que os arrependimentos tomassem forma clara, mas com aquela esp\u00e9cie de presen\u00e7a lateral que as coisas n\u00e3o resolvidas t\u00eam, o peso que fica na periferia da consci\u00eancia porque o centro est\u00e1 ocupado com outras arquiteturas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Pensou no compadre. No \u201cprogresso\u201d e nos \u201cempregos\u201d e nos \u201csacrif\u00edcios necess\u00e1rios para o bem maior\u201d. As palavras de uma ter\u00e7a-feira chuvosa que haviam soado razo\u00e1veis naquele momento, porque as palavras erradas quase sempre soam razo\u00e1veis no momento em que s\u00e3o ditas para quem quer ouvi-las.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Pensou na vaga de desembargador que n\u00e3o veio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Havia uma ironia estrutural nisso: havia vendido sua \u00fanica senten\u00e7a injusta por uma promo\u00e7\u00e3o que n\u00e3o havia acontecido, o que significava que n\u00e3o havia nem sequer o conforto utilit\u00e1rio de ter ao menos obtido o que queria. Havia apenas o custo, inteiro, sem desconto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Fernanda estava no processo seguinte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Valeriano olhou para ela com a aten\u00e7\u00e3o que nunca havia dado a ela enquanto tentava assombr\u00e1-la: a jaqueta azul escuro, os fones brancos, a express\u00e3o concentrada de quem est\u00e1 fazendo c\u00e1lculo interno sobre quando \u00e9 hora do almo\u00e7o. Uma pessoa completamente comum fazendo um trabalho completamente comum, sem nenhuma consci\u00eancia de que havia feito, em duas tardes de digitaliza\u00e7\u00e3o de rotina, o que quarenta anos de presen\u00e7a sobrenatural n\u00e3o haviam conseguido evitar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Havia nisso uma li\u00e7\u00e3o que Valeriano n\u00e3o estava certo de querer aprender, mas que chegou assim mesmo: que a maior parte das injusti\u00e7as n\u00e3o \u00e9 desfeita por hero\u00edsmo nem por revela\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica, mas por burocracia paciente e equipamento robusto e estagi\u00e1rias com fones de ouvido que n\u00e3o t\u00eam interesse nenhum no que est\u00e3o digitalizando, mas digitalizam assim mesmo porque \u00e9 o trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>\u2014 Seja tudo o que Deus quiser \u2014 <\/em>disse Valeriano, em voz que ningu\u00e9m ouvia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">N\u00e3o era resigna\u00e7\u00e3o. Era, talvez, a primeira coisa honesta que havia dito em muitos anos: a aceita\u00e7\u00e3o de que havia ficado por raz\u00f5es que n\u00e3o eram prote\u00e7\u00e3o do nome, mas medo de que o nome fosse o \u00fanico que restava, e que sem ele n\u00e3o sobrasse nada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Mas havia sobrado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Havia o processo. Havia a fam\u00edlia dos posseiros, cujos descendentes existiam em algum lugar que Valeriano n\u00e3o conhecia. Havia, no servidor para onde os arquivos tinham ido, a possibilidade de que algu\u00e9m um dia pesquisasse, e lesse, e soubesse.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">O nome de granito poderia rachar. E isso estava bem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Fernanda virou a \u00faltima p\u00e1gina do processo seguinte sem levantar os olhos. Valeriano n\u00e3o estava mais l\u00e1 para v\u00ea-la.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Tr\u00eas semanas depois, um mestrando em direito processual do Rio de Janeiro estava pesquisando no sistema digitalizado do tribunal para sua disserta\u00e7\u00e3o sobre lit\u00edgios agr\u00e1rios na regi\u00e3o sudeste entre 1965 e 1980.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Era uma pesquisa de f\u00f4lego. Havia inserido os termos de busca certos numa tarde, esperado que o sistema indexado retornasse os resultados e encontrado, entre os processos relevantes, o n\u00famero 842 da 2\u00aa Vara C\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Abriu. Leu. Leu de novo. Pesquisou o nome do juiz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Olhou para a tela por um momento com a express\u00e3o de quem encontra alguma coisa que n\u00e3o esperava encontrar e est\u00e1 calculando o que isso significa para o trabalho que pensava que ia escrever.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Depois abriu um documento novo e come\u00e7ou a digitar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fernanda desceu ao arquivo da 2\u00aa Vara C\u00edvel \u00e0s oito e quarenta e tr\u00eas da manh\u00e3, fones de ouvido no lugar, chicletes na boca, com a express\u00e3o de quem tem&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":23290,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[230],"tags":[817,368,752,578,524,1056,1055],"class_list":["post-23289","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-conto","tag-conto-brasileiro","tag-justica","tag-literatura-contemporanea","tag-literatura-reflexiva","tag-memoria-historica","tag-responsabilidade-moral","tag-verdade-historica"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.0 - 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