{"id":23448,"date":"2026-07-08T11:00:00","date_gmt":"2026-07-08T14:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/?p=23448"},"modified":"2026-06-24T11:55:39","modified_gmt":"2026-06-24T14:55:39","slug":"a-senhora-da-margem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/?p=23448","title":{"rendered":"A Senhora da Margem"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Carlinho Fagundes aprendeu a nadar antes de aprender a andar de bicicleta, e aprendeu as duas coisas com o av\u00f4.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A casa da fam\u00edlia na Rua Eduardo Junqueira tinha o trem na frente e o Rio Para\u00edba nos fundos. Duas presen\u00e7as constantes, dois barulhos distintos que Carlinho aprendeu a separar no escuro antes de abrir os olhos, o apito da locomotiva de um lado e o ru\u00eddo da correnteza do outro, e que juntos formavam o som de fundo de toda a inf\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">O av\u00f4 se chamava Ernesto e era um homem de poucas palavras e muitas paci\u00eancias, o tipo de pessoa que ensina fazendo ao lado em vez de explicar de frente. Levava Carlinho para a margem de manh\u00e3 cedo, quando a n\u00e9voa ainda estava sobre o rio, e entrava na \u00e1gua devagar, acenando para que o menino viesse, e ficava ali at\u00e9 que Carlinho entendesse o que seus bra\u00e7os e pernas precisavam fazer para que o rio se tornasse aliado em vez de advers\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">No meio do rio havia uma ilha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A ilha pequena, coberta de vegeta\u00e7\u00e3o densa, que ficava ali no meio do rio com a indiferen\u00e7a das coisas que existem h\u00e1 tempo demais para se importar com os que passam ao redor. Atravessar o rio at\u00e9 a ilha era o desafio maior: a \u00e1gua era &nbsp;funda e turva no meio, a correnteza mais forte, e havia que conhecer o \u00e2ngulo certo de entrada para que a travessia sa\u00edsse em diagonal e n\u00e3o em batalha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">O av\u00f4 conhecia o \u00e2ngulo. Havia ensinado ao pai de Carlinho, e havia ensinado a Carlinho, e havia prometido que um dia ensinaria aos filhos de Carlinho, que naquela \u00e9poca de 1962 ainda n\u00e3o existiam, mas que o av\u00f4 tratava como dado certo, como quem faz planos sobre a continuidade das coisas com a serenidade de quem n\u00e3o acha que vai morrer antes que elas aconte\u00e7am.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">O av\u00f4 morreu em junho de 1962.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Carlinho tinha nove anos e n\u00e3o sabia bem o que fazer com uma perda t\u00e3o grande dentro de um peito t\u00e3o pequeno.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Foi uma semana depois do enterro que Carlinho desceu at\u00e9 a margem sozinho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">N\u00e3o havia planejado nada. Havia sa\u00eddo de casa com a raiva sorda de quem perdeu alguma coisa e n\u00e3o tem para quem gritar, atravessado o quintal, sentado nas areias brancas e finas da margem que o av\u00f4 gostava de chamar de areia de praia de interior, como se o Para\u00edba tivesse pretens\u00f5es que o mar n\u00e3o sabia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">O rio estava mais agitado do que o normal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Carlinho viu isso e entrou assim mesmo, porque havia no agitar da \u00e1gua algo que correspondia ao que estava dentro dele, um espelho turvo de uma emo\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tinha nome ainda. Queria a ilha. Queria o \u00fanico lugar que ainda pertencia s\u00f3 aos dois, onde o av\u00f4 havia estado com ele e onde ele poderia estar com o av\u00f4, de alguma forma, de alguma maneira que um menino de nove anos n\u00e3o saberia explicar, mas que sentia como necessidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A correnteza o pegou no meio do rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">N\u00e3o foi gradual. Foi uma m\u00e3o subindo por baixo da \u00e1gua que o deslocou do caminho que conhecia e o levou para um caminho que n\u00e3o conhecia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Carlinho nadou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Nadou como o av\u00f4 havia ensinado e como o medo ensinava ao mesmo tempo. Bra\u00e7os e pernas num ritmo que era parte t\u00e9cnica e parte puro desespero, tentando se afastar da barra onde as correntes brigavam. Achou que ia morrer. Pensou no av\u00f4. Pediu \u00e0 Nossa Senhora Aparecida com a sinceridade total de quem s\u00f3 pede quando n\u00e3o tem mais recurso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">E ent\u00e3o, aos poucos, como uma m\u00e3o que solta em vez de uma que solta de repente, a correnteza cedeu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Carlinho chegou \u00e0 margem com os bra\u00e7os tremendo e o cora\u00e7\u00e3o batendo na garganta. Ficou um tempo de joelhos na areia, apenas respirando.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Quando levantou os olhos, ela estava l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Uma senhora parada na margem, a uns vinte metros, olhando para ele. N\u00e3o jovem, n\u00e3o velha. Uma idade que Carlinho n\u00e3o conseguia calcular, uma idade que parecia ter ficado parada enquanto o resto do mundo envelhecia. Ela estava de p\u00e9, quieta, com aquela imobilidade espec\u00edfica de quem n\u00e3o chegou agora, mas estava h\u00e1 mais tempo do que voc\u00ea percebeu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Carlinho olhou para ela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Ela percebeu que ele olhava, e no rosto dela passou uma coisa que Carlinho, anos mais tarde, aprenderia a identificar como surpresa. A surpresa de quem n\u00e3o est\u00e1 acostumado a ser visto. N\u00e3o disse nada. Ficou olhando para ele com uma express\u00e3o que n\u00e3o era amea\u00e7a nem bondade, apenas presen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">O gelo que subiu pela espinha de Carlinho n\u00e3o era de frio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Ele correu para casa. Trancou-se no quarto. Chorou a falta do av\u00f4 pelos dias seguintes e n\u00e3o contou o que havia acontecido na margem para absolutamente ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">O fim daquele ano chegou com sarampo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">O filho dos vizinhos, um menininho de pouco mais de cinco anos chamado Gon\u00e7alo, adoeceu numa semana fria de agosto e ficou na cama com a febre que os pais tentavam baixar com panos \u00famidos e ch\u00e1 e as rezas que a av\u00f3 materna vinha fazer toda manh\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Carlinho sabia de Gon\u00e7alo o que se sabe dos filhos dos vizinhos em bairros assim. O nome, o rosto, que gostava de empinar pipa na beira do rio e que \u00e0s vezes aparecia no quintal dos Fagundes sem avisar, com a familiaridade das crian\u00e7as que ainda n\u00e3o aprenderam que os quintais t\u00eam dono.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Numa tarde ele viu a senhora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Estava espiando pela janela da casa dos vizinhos. Parada do lado de fora, o rosto pr\u00f3ximo ao vidro, olhando para dentro do quarto onde Gon\u00e7alo estava deitado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Carlinho correu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>\u2014 O que a senhora t\u00e1 olhando! \u2014 <\/em>gritou, atravessando o quintal, os p\u00e9s descal\u00e7os na grama \u00famida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A senhora virou para ele. Aqueles olhos que n\u00e3o eram velhos nem jovens. Aquela express\u00e3o que n\u00e3o era crueldade, mas que tamb\u00e9m n\u00e3o era conforto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Carlinho chegou perto e ela n\u00e3o estava mais. N\u00e3o havia corrido, n\u00e3o havia se escondido. Simplesmente n\u00e3o estava mais, como se o espa\u00e7o onde ela havia estado decidisse que era suficiente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Carlinho ficou parado no quintal dos vizinhos por um momento, desorientado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Horas depois, sua m\u00e3e o chamou para casa com uma voz que tinha o peso das not\u00edcias ruins. O menininho Gon\u00e7alo havia morrido no fim da tarde.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Carlinho tinha dez anos, onze, doze, e aprendeu a reconhecer o padr\u00e3o. Havia uma diferen\u00e7a entre o barulho normal do trem (o apito de hor\u00e1rio, o arranhar das rodas, o tremor que chegava pela parede da frente da casa) e o barulho diferente das tardes em que havia movimenta\u00e7\u00e3o estranha na rua. Pessoas correndo. Vozes em tom errado. Um sil\u00eancio depois que era mais barulhento que o barulho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Quando havia atropelamento na linha, havia esse padr\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Carlinho aprendera a ficar de olho pela janela antes de sair para investigar, e havia aprendido tamb\u00e9m que havia uma forma de saber, antes de saber, o que encontraria se sa\u00edsse: era s\u00f3 verificar se a senhora estava l\u00e1, parada na beira da rua, olhando na dire\u00e7\u00e3o do trem com aquela express\u00e3o de testemunha que foi sem querer e que permanecia sem op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Quando ela estava, Carlinho n\u00e3o sa\u00eda. Corria para o quarto, escorregava debaixo da cama, ficava ali com o cora\u00e7\u00e3o na garganta esperando o tempo passar, esperando que o mundo l\u00e1 fora resolvesse o que tinha para resolver sem que ele precisasse ver.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Era medo. Mas era tamb\u00e9m alguma outra coisa mais complicada que o medo: era o peso de saber antes de saber, o fardo de uma informa\u00e7\u00e3o que ele havia recebido sem pedir e que ningu\u00e9m mais parecia capaz de receber junto com ele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Nunca disse a ningu\u00e9m. As crian\u00e7as aprendem cedo que h\u00e1 experi\u00eancias que n\u00e3o t\u00eam tradu\u00e7\u00e3o para o idioma dos adultos, e que tentar essa tradu\u00e7\u00e3o produz consequ\u00eancias piores do que o sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Carlinho tinha quatorze anos quando come\u00e7ou a namorar Alice. Ela estudava com ele no Col\u00e9gio Estadual Bar\u00e3o de Aiuruoca, que todo mundo chamava s\u00f3 de Bar\u00e3o, com o orgulho local de quem nomeia as coisas pelo diminutivo de afei\u00e7\u00e3o. Alice tinha cabelo escuro e uma maneira de rir que Carlinho n\u00e3o conseguia descrever direito, mas que pensava quando estava tentando dormir e que torcia para que aparecesse no dia seguinte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Numa tarde de quinta-feira voltavam juntos do col\u00e9gio quando viram a movimenta\u00e7\u00e3o perto da C\u00e2mara.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Uma aglomera\u00e7\u00e3o. Vozes, pessoas paradas em c\u00edrculo, aquele magnetismo que as coisas ruins t\u00eam de juntar quem passa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>\u2014 Vamos ver? \u2014 <\/em>disse Alice.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Carlinho foi junto, curioso, com os olhos ainda longe da multid\u00e3o, vasculhando a cena \u00e0 dist\u00e2ncia com o h\u00e1bito de quem aprendeu a verificar antes de se aproximar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Foi quando a mulher saiu do meio da rua e ele esbarrou nela. O contato foi breve. Ombro com ombro, ele virando para pedir desculpas com o reflexo autom\u00e1tico dos bem-educados. Viu o rosto dela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">O reconhecimento foi imediato, f\u00edsico, um calafrio que desceu dos ombros at\u00e9 a sola dos p\u00e9s em menos de um segundo. Segurou o bra\u00e7o de Alice.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>\u2014 Vamos embora.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>\u2014 Mas a gente nem chegou ainda.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>\u2014 Alice. Vamos embora.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">O tom de Carlinho era de uma urg\u00eancia que Alice havia aprendido a reconhecer, ao longo dos meses de namoro, como a urg\u00eancia que n\u00e3o se questiona. Foram embora. Souberam depois, em casa, que havia um homem morto perto da C\u00e2mara. Acidente de tr\u00e2nsito, um b\u00eabado que havia atravessado na hora errada, uma daquelas mortes banais e definitivas que acontecem em tardes de quinta-feira sem aviso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Alice perguntou como ele havia sabido. Carlinho disse que n\u00e3o havia sabido nada, que havia tido uma sensa\u00e7\u00e3o ruim, que \u00e0s vezes essas coisas acontecem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Alice acreditou parcialmente, que \u00e9 o que as pessoas que amam algu\u00e9m fazem com as respostas que sabem ser incompletas, mas que n\u00e3o querem for\u00e7ar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Em 1971 o Brasil tinha sete anos de ditadura e Carlinho tinha dezoito, e as duas coisas aconteceram ao mesmo tempo sem que ele tivesse escolhido nenhuma delas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">O Batalh\u00e3o de Infantaria Motorizada ficava no mesmo lugar onde ainda hoje funciona do Tiro de Guerra de Barra Mansa, e Carlinho havia chegado l\u00e1 pelo mesmo caminho de todos: o recrutamento obrigat\u00f3rio, o uniforme, a ordem que vinha de cima sem explica\u00e7\u00e3o e que n\u00e3o pedia concord\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Havia uma ala dos fundos no quartel. Carlinho soube da ala dos fundos pela primeira vez numa tarde de julho, quando um soldado mais velho, com os olhos baixos, disse a ele que n\u00e3o perguntasse sobre os sons que vinha de l\u00e1 de vez em quando \u00e0 noite. Que fizesse o servi\u00e7o, ficasse no seu, e n\u00e3o perguntasse.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Traziam homens para l\u00e1. \u00c0s vezes eram jovens que haviam dito a coisa errada para a pessoa errada. \u00c0s vezes eram homens que tinham nome em alguma lista que Carlinho nunca viu. \u00c0s vezes eram pessoas que Carlinho n\u00e3o sabia por que estavam ali, e essa ignor\u00e2ncia era o que o sistema precisava que ele tivesse. N\u00e3o a cumplicidade ativa, mas a ignor\u00e2ncia passiva, que \u00e9 a forma de cumplicidade que n\u00e3o deixa culpa com endere\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A senhora aparecia nos fundos do quartel. N\u00e3o sempre. Mas quando aparecia, Carlinho sabia, com a certeza que havia aprendido desde os nove anos a reconhecer como infalivelmente real, que algu\u00e9m naquela ala dos fundos n\u00e3o sobreviveria \u00e0 noite. N\u00e3o pelos ferimentos que havia sofrido ao entrar. Pelos que recebia depois.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Soldado Fagundes n\u00e3o participava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">N\u00e3o era covardia. Era o \u00fanico ato de recusa dispon\u00edvel, que era fazer exatamente o que lhe mandavam e nada al\u00e9m, nunca se oferecer para a ala dos fundos, nunca fazer uma pergunta que pudesse ser interpretada como curiosidade ou como sede. Ser t\u00e3o invis\u00edvel quanto poss\u00edvel dentro do uniforme que o tornava vis\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A senhora olhava para ele \u00e0s vezes quando se cruzavam no p\u00e1tio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">N\u00e3o havia no olhar dela julgamento. Havia o mesmo que havia desde o in\u00edcio: a presen\u00e7a de testemunha, o registro de quem est\u00e1 ali porque algu\u00e9m precisa estar. Carlinho nunca soube se ela estava ali pelos que morriam ou tamb\u00e9m por ele. Pelo que ele estava aprendendo sobre o mundo naquela ala dos fundos, sobre o que os homens fazem a outros homens quando o Estado diz que podem, sobre o sil\u00eancio que se instala nos que sabem e ficam quietos porque o sil\u00eancio \u00e9 a \u00fanica sobreviv\u00eancia dispon\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Carregou aquilo sozinho por d\u00e9cadas. Nunca contou a ningu\u00e9m o que havia visto e n\u00e3o visto naquele quartel. Era o tipo de coisa que n\u00e3o tem destinat\u00e1rio. N\u00e3o porque n\u00e3o haja quem ou\u00e7a, mas porque colocar em palavras tornaria real de uma forma diferente do que era enquanto ficasse guardado, e Carlinho havia decidido, sem decidir conscientemente, que havia um limite para o que ele conseguia tornar real.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Era uma sexta-feira de maio quando Carlinho voltou para casa ainda fardado. O fim da tarde tinha aquela luz dourada que as tardes de outono em Barra Mansa tinham, a luz que chegava de lado e que tornava a Rua Eduardo Junqueira mais bonita do que era, com as sombras das casas se alongando sobre o cal\u00e7amento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A senhora sa\u00eda da porta da sua casa. Carlinho parou no meio da rua.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">O cora\u00e7\u00e3o fez aquela coisa que havia aprendido a fazer desde os nove anos: &nbsp;n\u00e3o acelerar, n\u00e3o desacelerar, apenas apertar, como uma m\u00e3o fechando devagar em volta de um objeto que n\u00e3o se quer deixar cair.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>\u2014 M\u00e3e! \u2014 <\/em>gritou, antes mesmo de entrar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Encontrou ela na cozinha, aprontando o jantar com o ritmo de sempre, a frigideira no fogo, o cheiro de cebola que havia atravessado toda a inf\u00e2ncia dele. Dona Irene levantou os olhos com a express\u00e3o de quem n\u00e3o entende a urg\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>\u2014 Meu Deus, Carlinho, que \u00e9 isso?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>\u2014 Cad\u00ea o pai?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>\u2014 Nos fundos. Disse que ia ver o rio antes de jantar.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Carlinho atravessou a casa de uma ponta \u00e0 outra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">O quintal. A rua que a prefeitura havia aberto entre as casas e o rio. Uma rua nova, que ainda cheirava a obra da prefeitura e que havia encurtado o caminho para a margem e ao mesmo tempo tornado o quintal um lugar diferente do que havia sido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">O pai estava na areia. Ca\u00eddo de lado, com aquela imobilidade que n\u00e3o \u00e9 de quem dorme. Carlinho foi at\u00e9 ele e sabia antes de chegar, porque o corpo sabe essas coisas antes que a mente aceite, e porque havia visto essa imobilidade antes, havia aprendido a reconhec\u00ea-la ao longo de anos de encontros que n\u00e3o havia pedido e que n\u00e3o havia evitado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Quando levantou os olhos, a senhora estava na beira do rio. Olhava para ele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>\u2014 Voc\u00ea veio me buscar tamb\u00e9m? \u2014 <\/em>disse Carlinho. A voz saiu mais firme do que esperava, com a firmeza de quem est\u00e1 muito al\u00e9m do ponto em que as perguntas saem tr\u00eamulas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A senhora demorou um momento para responder. Quando falou, a voz dela era de algu\u00e9m que n\u00e3o usa a voz com frequ\u00eancia suficiente para que ela venha f\u00e1cil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>\u2014 N\u00e3o. Essa n\u00e3o \u00e9 sua hora. Foi a hora do seu pai.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>\u2014 Ent\u00e3o por que voc\u00ea sa\u00eda da minha casa?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>\u2014 Para que voc\u00ea chegasse a tempo de cham\u00e1-lo e ele ouvir sua voz.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Carlinho ficou olhando para ela. Havia ali uma l\u00f3gica que era tamb\u00e9m uma crueldade, ou que parecia crueldade e era outra coisa: a crueldade de ser avisado quando o aviso n\u00e3o muda o que vai acontecer mas muda o que voc\u00ea consegue dizer antes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>\u2014 Por que voc\u00ea faz isso com as pessoas? \u2014 <\/em>disse ele.<em> \u2014 Com crian\u00e7as inocentes como o Gon\u00e7alo. Com gente boa como meu av\u00f4.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A senhora ficou quieta por um momento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>\u2014 Eu n\u00e3o fa\u00e7o nada \u2014 <\/em>disse ela.<em> \u2014 Eu s\u00f3 estou aqui para testemunhar. E para ajudar, quando posso ajudar. \u2014 <\/em>Pausa.<em> \u2014 \u00c9 minha maldi\u00e7\u00e3o. E minha miss\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Carlinho olhou para o pai estendido na areia. Depois de volta para ela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>\u2014 S\u00e3o a mesma coisa? \u2014 <\/em>disse ele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A senhora n\u00e3o respondeu. Mas havia no sil\u00eancio dela algo que parecia concord\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Quando Carlinho come\u00e7ou a trabalhar na Companhia Sider\u00fargica Nacional, levou um tempo para entender o ritmo do p\u00e1tio. N\u00e3o o ritmo formal, dos turnos e das ordens de produ\u00e7\u00e3o, mas o outro ritmo, o que corria por baixo, o que determinava os dias dif\u00edceis dos dias normais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Aprendeu a reconhecer a senhora no p\u00e1tio da usina com a mesma naturalidade com que havia aprendido a reconhec\u00ea-la na margem do rio e na rua de casa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A l\u00f3gica era a mesma. A escala era maior. Quando ela estava, a linha seria parada. Quando a linha era parada por esse tipo de raz\u00e3o, havia um colega, ou havia a possibilidade de que fosse ele mesmo, que n\u00e3o voltaria para o vesti\u00e1rio de cabe\u00e7a erguida, ou que n\u00e3o voltaria de nenhuma forma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Carlinho havia desenvolvido ao longo dos anos uma reputa\u00e7\u00e3o no ch\u00e3o da usina que ele nunca havia buscado e que n\u00e3o sabia bem como manter sem explicar o que n\u00e3o podia explicar: a reputa\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m que sente quando o dia vai ser daqueles, que muda rotas e hor\u00e1rios \u00e0s vezes sem raz\u00e3o aparente, que convence um colega a trocar de posto numa manh\u00e3 espec\u00edfica e que no final do turno h\u00e1 algo que confirma que a troca foi a certa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Alguns colegas achavam que era supersti\u00e7\u00e3o. Alguns achavam que era experi\u00eancia. Carlinho deixava acharem o que quisessem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">H\u00e1 avisos que chegam cedo demais para serem misericordiosamente tardios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A primeira gravidez de Alice foi assim. Carlinho soube antes de Alice saber que havia algo errado, porque a senhora havia aparecido numa tarde sem motivo vis\u00edvel, sem acidente na rua nem problema no bairro, olhando para dentro da pr\u00f3pria casa com aquela express\u00e3o de testemunha. O beb\u00ea n\u00e3o vingou antes de nascer. Carlinho chorou no banheiro de porta fechada por quanto tempo foi necess\u00e1rio, e depois saiu e ficou ao lado de Alice enquanto o mundo tamb\u00e9m chorava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A m\u00e3e foi embora no ver\u00e3o de 1979.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Dona Irene havia adoecido devagar, da maneira em que as doen\u00e7as t\u00eam paci\u00eancia, e havia um dia em que Carlinho chegou para visit\u00e1-la no quarto e viu a senhora sentada na cadeira do canto, n\u00e3o fazendo nada, apenas presente, como uma pessoa que veio antes do necess\u00e1rio, mas que sabe que o tempo vai chegar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Disse \u00e0 irm\u00e3 que chamasse o padre. A irm\u00e3 olhou para ele sem entender a urg\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>\u2014 A m\u00e3e t\u00e1 dormindo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>\u2014 Chama o padre.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">O padre veio. Dona Irene acordou, conversou, recebeu a un\u00e7\u00e3o com a serenidade de quem havia se preparado para ela ao longo da vida inteira. Morreu tr\u00eas horas depois, com os filhos ao redor, sem a agonia de quem \u00e9 pego de surpresa. Carlinho nunca explicou como havia sabido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Em 2005 Alice foi para a cirurgia de cora\u00e7\u00e3o. Era uma cirurgia necess\u00e1ria. Os m\u00e9dicos haviam explicado o risco e havia risco, como h\u00e1 em todas as coisas que abrem o peito de uma pessoa e mexem no que est\u00e1 dentro. Carlinho havia sentado na sala de espera com a resigna\u00e7\u00e3o de quem j\u00e1 aprendeu que h\u00e1 situa\u00e7\u00f5es em que o conhecimento antecipado n\u00e3o protege de nada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Quando a senhora entrou pela porta da sala de espera, Carlinho come\u00e7ou a chorar. Chorou com a viol\u00eancia de quem guarda h\u00e1 d\u00e9cadas e de repente n\u00e3o consegue mais guardar. Chorou de um jeito que assustou os outros que estavam na sala de espera, familiares de outros pacientes que n\u00e3o entendiam o que havia acontecido para um homem de mais de sessenta anos chorar assim de repente, antes de qualquer not\u00edcia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>\u2014 Por favor \u2014 <\/em>disse ele, para a senhora que apenas ele via.<em> \u2014 Por favor. N\u00e3o ela.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A senhora ficou parada perto da porta. Com aquela express\u00e3o que Carlinho havia aprendido ao longo de cinquenta anos a interpretar. N\u00e3o fria, n\u00e3o indiferente, mas de algu\u00e9m que carrega uma responsabilidade que n\u00e3o escolheu e que n\u00e3o pode depor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>\u2014 N\u00e3o \u00e9 comigo \u2014 <\/em>disse ela. Como havia dito na margem do rio em 1971. Como havia dito outras vezes, em outros momentos, quando Carlinho precisava ouvir.<em> \u2014 Eu s\u00f3 estou aqui.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Mas desta vez diferente. Desta vez a senhora estava ali e Alice n\u00e3o saiu da cirurgia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Carlinho ficou sentado na sala de espera muito depois que todos os outros haviam ido embora. A senhora foi embora antes deles todos. Quando o m\u00e9dico veio falar com ele, ela j\u00e1 n\u00e3o estava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">H\u00e1 coisas para as quais o aviso antecipado n\u00e3o prepara de jeito nenhum.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Zeca havia sido amigo desde os tempos de menino. Um daqueles amigos que existem desde antes de voc\u00ea ter mem\u00f3ria de n\u00e3o t\u00ea-los, que est\u00e3o presentes em todas as camadas da inf\u00e2ncia e que a dist\u00e2ncia geogr\u00e1fica, quando a vida os leva para outros lugares, nunca dissolve de verdade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Zeca havia ido para o Rio de Janeiro em 1975, arrumado vida l\u00e1, casado com Tereza, constru\u00eddo uma exist\u00eancia paralela \u00e0 de Carlinho que eles acompanhavam em cartas, em visitas de fim de ano, nas conversas de hora em hora quando um dos dois ligava para o outro sem motivo especial al\u00e9m de que fazia tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Numa quarta-feira de setembro, Carlinho estava em casa quando sentiu a presen\u00e7a da senhora na sala.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Ela n\u00e3o estava olhando para dentro da casa. Estava de frente para ele, com uma express\u00e3o levemente diferente da express\u00e3o habitual, uma diferen\u00e7a sutil que Carlinho havia aprendido a ler ao longo dos anos como a diferen\u00e7a entre quando a coisa \u00e9 aqui e quando a coisa \u00e9 longe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Pegou o telefone e ligou para o Rio de Janeiro. Tereza atendeu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A voz dela era a voz de dois minutos depois de receber a pior not\u00edcia. Ainda desorganizada, ainda n\u00e3o encontrou o lugar certo dentro de si para colocar o que acabou de acontecer. Carlinho ouviu e soube, e ficou na linha sem dizer as coisas vazias que as pessoas dizem porque n\u00e3o h\u00e1 nada verdadeiro para dizer, ficou apenas na linha, presente, enquanto Tereza falava e chorava e falava de novo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>\u2014 Como voc\u00ea sabia? \u2014 <\/em>disse ela, muito mais tarde, quando as coisas j\u00e1 tinham assentado o suficiente para que a pergunta coubesse.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>\u2014 Zeca era meu amigo h\u00e1 cinquenta anos \u2014 <\/em>disse Carlinho.<em> \u2014 A gente sabe.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">O trem ainda passava pela Rua Eduardo Junqueira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">O rio n\u00e3o estava mais nos fundos. A rua que a prefeitura havia aberto na d\u00e9cada de 1970 havia ficado entre o quintal e o Para\u00edba, e depois da partilha dos bens da fam\u00edlia os irm\u00e3os haviam vendido os fundos do terreno para um dos filhos do vizinho que queria construir, e agora havia uma parede no lugar onde havia sido areia branca e fina e a voz do av\u00f4 ensinando o \u00e2ngulo certo para atravessar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Os filhos haviam crescido. Os netos chegado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Carlinho tinha setenta e tr\u00eas anos em 2026 e morava sozinho na casa da Eduardo Junqueira, que havia ficado grande com a aus\u00eancia das pessoas que a haviam preenchido e que agora estava cheia de m\u00f3veis e de mem\u00f3rias e de sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Os filhos ligavam todo dia. Os netos apareciam nos fins de semana com a energia espec\u00edfica dos que ainda t\u00eam mais futuro do que passado. Carlinho os recebia e os deixava ir com a equanimidade de quem aprendeu que a presen\u00e7a e a aus\u00eancia s\u00e3o dois estados poss\u00edveis das mesmas pessoas, e que o amor sobrevive \u00e0 altern\u00e2ncia entre eles.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A senhora aparecia \u00e0s vezes. Mas nos \u00faltimos anos havia mudado algo na natureza das apari\u00e7\u00f5es. Vinha n\u00e3o s\u00f3 nos momentos de antes, nos momentos em que havia algo a anunciar. Vinha em outros momentos tamb\u00e9m, em tardes de s\u00e1bado sem urg\u00eancia particular, sentando, se \u00e9 que ela se sentava, havia algo nela que o verbo n\u00e3o capturava completamente, no lugar da varanda onde Carlinho tomava caf\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Eram os anos que haviam feito isso, Carlinho supunha. Os anos e a aceita\u00e7\u00e3o gradual de que certas companhias n\u00e3o pedem permiss\u00e3o e n\u00e3o precisam de explica\u00e7\u00e3o para durar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Numa tarde de 2026, a senhora estava sentada \u00e0 mesa da cozinha quando Carlinho desceu para esquentar o caf\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Era uma tarde de junho, com aquele frio seco que o vale do Para\u00edba tem no inverno, e a cozinha cheirava ao caf\u00e9 que havia esquentado e ao p\u00e3o de queijo que Carlinho havia tirado do forno mais cedo, porque os netos haviam visitado de manh\u00e3 e ele havia feito mais do que o necess\u00e1rio, como sempre fazia quando eles vinham.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Colocou duas x\u00edcaras na mesa. Sentou. Serviu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A senhora ficou olhando para a x\u00edcara por um momento. Havia sempre nela aquela estranheza diante dos gestos simples da vida cotidiana, como algu\u00e9m que conhece os objetos de longe mas n\u00e3o de dentro, que sabe o que \u00e9 uma x\u00edcara de caf\u00e9 mas n\u00e3o sabe bem o que \u00e9 ter uma x\u00edcara de caf\u00e9 em frente e a tarde toda pela frente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>\u2014 Quando vai ser? \u2014 <\/em>disse Carlinho, com a naturalidade de quem retoma uma conversa que acontece h\u00e1 d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A senhora levantou os olhos. Havia no rosto dela algo que Carlinho havia aprendido a identificar como humor, ao longo dos anos. Uma coisa muito sutil, quase impercept\u00edvel, que ficava no canto dos olhos mais do que na boca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>\u2014 Do jeito que o senhor se cuida \u2014 <\/em>disse ela<em> \u2014 ainda vai demorar muito.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>\u2014 Isso \u00e9 reclama\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>\u2014 \u00c9 observa\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Carlinho bebeu o caf\u00e9. Do lado de fora, na rua, o apito do trem chegou com a pontualidade de sempre. O mesmo trem, a mesma hora, o mesmo apito que havia marcado a tarde de todos os dias da vida inteira dele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">N\u00e3o havia mais o som do rio nos fundos. Mas o apito estava l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>\u2014 Meu av\u00f4 teria gostado de voc\u00ea \u2014 <\/em>disse Carlinho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A senhora n\u00e3o respondeu imediatamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>\u2014 Eu sei quem foi seu av\u00f4 \u2014 <\/em>disse ela, por fim, com uma precis\u00e3o que continha dentro dela muitas coisas que Carlinho n\u00e3o perguntou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Ficaram em sil\u00eancio por um tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A tarde de junho foi escurecendo sobre a Rua Eduardo Junqueira com a lentid\u00e3o das tardes de inverno que n\u00e3o t\u00eam pressa de acabar. O caf\u00e9 esfriou. Carlinho n\u00e3o esquentou mais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Havia coisas que n\u00e3o precisavam de mais do que isso: uma mesa, duas x\u00edcaras, uma janela com o barulho do trem chegando do lado de fora, e a companhia de algu\u00e9m que havia estado l\u00e1 desde o come\u00e7o e que, com alguma sorte, ainda estaria por um tempo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlinho Fagundes aprendeu a nadar antes de aprender a andar de bicicleta, e aprendeu as duas coisas com o av\u00f4. A casa da fam\u00edlia na Rua Eduardo Junqueira tinha o&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":23449,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[230],"tags":[1348,241,589,817,1350,454,532,752,578,670,353,766,1349,671,1347,1344,1345,1346,522,535],"class_list":["post-23448","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-conto","tag-amizade-improvavel","tag-barra-mansa","tag-condicao-humana","tag-conto-brasileiro","tag-contos-filosoficos","tag-espiritualidade","tag-finitude","tag-literatura-contemporanea","tag-literatura-reflexiva","tag-luto","tag-memoria","tag-metafisica","tag-mortalidade","tag-morte","tag-narrativa-brasileira","tag-realismo-fantastico","tag-rio-paraiba-do-sul","tag-sobrenatural","tag-vale-do-paraiba","tag-vida-e-morte"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.0 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>A Senhora da Margem - Uma Alma em Palavras<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Desde a inf\u00e2ncia, Carlinho v\u00ea uma misteriosa senhora surgir antes das mortes. Durante d\u00e9cadas, ela acompanha silenciosamente sua vida.\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/almaempalavras.com.br\/?p=23448\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"A Senhora da Margem - Uma Alma em Palavras\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Desde a inf\u00e2ncia, Carlinho v\u00ea uma misteriosa senhora surgir antes das mortes. Durante d\u00e9cadas, ela acompanha silenciosamente sua vida.\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/almaempalavras.com.br\/?p=23448\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Uma Alma em Palavras\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/wallison.moura\/\" \/>\n<meta property=\"article:author\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/wallison.moura\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2026-07-08T14:00:00+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/almaempalavras.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/a-senhora-da-margem.jpg\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"1672\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"941\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/jpeg\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Wallison Moura\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Wallison Moura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"25 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/almaempalavras.com.br\\\/?p=23448#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/almaempalavras.com.br\\\/?p=23448\"},\"author\":{\"name\":\"Wallison Moura\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/almaempalavras.com.br\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/8ac5d86257a23c047f97973400e199ff\"},\"headline\":\"A Senhora da Margem\",\"datePublished\":\"2026-07-08T14:00:00+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/almaempalavras.com.br\\\/?p=23448\"},\"wordCount\":4692,\"commentCount\":0,\"publisher\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/almaempalavras.com.br\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/8ac5d86257a23c047f97973400e199ff\"},\"image\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/almaempalavras.com.br\\\/?p=23448#primaryimage\"},\"thumbnailUrl\":\"https:\\\/\\\/almaempalavras.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2026\\\/06\\\/a-senhora-da-margem.jpg\",\"keywords\":[\"amizade improv\u00e1vel\",\"Barra Mansa\",\"condi\u00e7\u00e3o humana\",\"conto brasileiro\",\"contos filos\u00f3ficos\",\"Espiritualidade\",\"finitude\",\"literatura contempor\u00e2nea\",\"literatura reflexiva\",\"luto\",\"Mem\u00f3ria\",\"metaf\u00edsica\",\"mortalidade\",\"morte\",\"narrativa brasileira\",\"realismo fant\u00e1stico\",\"Rio Para\u00edba do Sul\",\"sobrenatural\",\"Vale do Para\u00edba\",\"vida e morte\"],\"articleSection\":[\"Contos\"],\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"CommentAction\",\"name\":\"Comment\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/almaempalavras.com.br\\\/?p=23448#respond\"]}]},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/almaempalavras.com.br\\\/?p=23448\",\"url\":\"https:\\\/\\\/almaempalavras.com.br\\\/?p=23448\",\"name\":\"A Senhora da Margem - Uma Alma em Palavras\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/almaempalavras.com.br\\\/#website\"},\"primaryImageOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/almaempalavras.com.br\\\/?p=23448#primaryimage\"},\"image\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/almaempalavras.com.br\\\/?p=23448#primaryimage\"},\"thumbnailUrl\":\"https:\\\/\\\/almaempalavras.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2026\\\/06\\\/a-senhora-da-margem.jpg\",\"datePublished\":\"2026-07-08T14:00:00+00:00\",\"description\":\"Desde a inf\u00e2ncia, Carlinho v\u00ea uma misteriosa senhora surgir antes das mortes. Durante d\u00e9cadas, ela acompanha silenciosamente sua vida.\",\"breadcrumb\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/almaempalavras.com.br\\\/?p=23448#breadcrumb\"},\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/almaempalavras.com.br\\\/?p=23448\"]}]},{\"@type\":\"ImageObject\",\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/almaempalavras.com.br\\\/?p=23448#primaryimage\",\"url\":\"https:\\\/\\\/almaempalavras.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2026\\\/06\\\/a-senhora-da-margem.jpg\",\"contentUrl\":\"https:\\\/\\\/almaempalavras.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2026\\\/06\\\/a-senhora-da-margem.jpg\",\"width\":1672,\"height\":941,\"caption\":\"Mulher misteriosa observando silenciosamente a margem de um rio ao entardecer enquanto a n\u00e9voa cobre a \u00e1gua e uma antiga cidade do interior aparece ao fundo.\"},{\"@type\":\"BreadcrumbList\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/almaempalavras.com.br\\\/?p=23448#breadcrumb\",\"itemListElement\":[{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":1,\"name\":\"In\u00edcio\",\"item\":\"https:\\\/\\\/almaempalavras.com.br\\\/\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":2,\"name\":\"A Senhora da Margem\"}]},{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/almaempalavras.com.br\\\/#website\",\"url\":\"https:\\\/\\\/almaempalavras.com.br\\\/\",\"name\":\"Uma Alma em Palavras\",\"description\":\"Um espa\u00e7o simples e \u00edntimo, onde compartilho minhas reflex\u00f5es sobre a vida, o trabalho, a educa\u00e7\u00e3o, a fam\u00edlia e tudo o que toca o cora\u00e7\u00e3o. Escritos sem pretens\u00e3o, apenas a tentativa de traduzir em palavras aquilo que a alma sente..\",\"publisher\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/almaempalavras.com.br\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/8ac5d86257a23c047f97973400e199ff\"},\"potentialAction\":[{\"@type\":\"SearchAction\",\"target\":{\"@type\":\"EntryPoint\",\"urlTemplate\":\"https:\\\/\\\/almaempalavras.com.br\\\/?s={search_term_string}\"},\"query-input\":{\"@type\":\"PropertyValueSpecification\",\"valueRequired\":true,\"valueName\":\"search_term_string\"}}],\"inLanguage\":\"pt-BR\"},{\"@type\":[\"Person\",\"Organization\"],\"@id\":\"https:\\\/\\\/almaempalavras.com.br\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/8ac5d86257a23c047f97973400e199ff\",\"name\":\"Wallison Moura\",\"image\":{\"@type\":\"ImageObject\",\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/almaempalavras.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2025\\\/10\\\/uma_alma_em_palavras_logo_nova_horizontal-1.png\",\"url\":\"https:\\\/\\\/almaempalavras.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2025\\\/10\\\/uma_alma_em_palavras_logo_nova_horizontal-1.png\",\"contentUrl\":\"https:\\\/\\\/almaempalavras.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2025\\\/10\\\/uma_alma_em_palavras_logo_nova_horizontal-1.png\",\"width\":1412,\"height\":706,\"caption\":\"Wallison Moura\"},\"logo\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/almaempalavras.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2025\\\/10\\\/uma_alma_em_palavras_logo_nova_horizontal-1.png\"},\"sameAs\":[\"http:\\\/\\\/almaempalavras.com.br\",\"https:\\\/\\\/www.facebook.com\\\/wallison.moura\\\/\",\"https:\\\/\\\/www.instagram.com\\\/w.allisonmoura\\\/\",\"https:\\\/\\\/www.linkedin.com\\\/in\\\/wallisonmoura\\\/\"],\"url\":\"https:\\\/\\\/almaempalavras.com.br\\\/?author=1\"}]}<\/script>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","yoast_head_json":{"title":"A Senhora da Margem - Uma Alma em Palavras","description":"Desde a inf\u00e2ncia, Carlinho v\u00ea uma misteriosa senhora surgir antes das mortes. Durante d\u00e9cadas, ela acompanha silenciosamente sua vida.","robots":{"index":"index","follow":"follow","max-snippet":"max-snippet:-1","max-image-preview":"max-image-preview:large","max-video-preview":"max-video-preview:-1"},"canonical":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/?p=23448","og_locale":"pt_BR","og_type":"article","og_title":"A Senhora da Margem - Uma Alma em Palavras","og_description":"Desde a inf\u00e2ncia, Carlinho v\u00ea uma misteriosa senhora surgir antes das mortes. Durante d\u00e9cadas, ela acompanha silenciosamente sua vida.","og_url":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/?p=23448","og_site_name":"Uma Alma em Palavras","article_publisher":"https:\/\/www.facebook.com\/wallison.moura\/","article_author":"https:\/\/www.facebook.com\/wallison.moura\/","article_published_time":"2026-07-08T14:00:00+00:00","og_image":[{"width":1672,"height":941,"url":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/a-senhora-da-margem.jpg","type":"image\/jpeg"}],"author":"Wallison Moura","twitter_card":"summary_large_image","twitter_misc":{"Escrito por":"Wallison Moura","Est. tempo de leitura":"25 minutos"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/?p=23448#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/?p=23448"},"author":{"name":"Wallison Moura","@id":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/#\/schema\/person\/8ac5d86257a23c047f97973400e199ff"},"headline":"A Senhora da Margem","datePublished":"2026-07-08T14:00:00+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/?p=23448"},"wordCount":4692,"commentCount":0,"publisher":{"@id":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/#\/schema\/person\/8ac5d86257a23c047f97973400e199ff"},"image":{"@id":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/?p=23448#primaryimage"},"thumbnailUrl":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/a-senhora-da-margem.jpg","keywords":["amizade improv\u00e1vel","Barra Mansa","condi\u00e7\u00e3o humana","conto brasileiro","contos filos\u00f3ficos","Espiritualidade","finitude","literatura contempor\u00e2nea","literatura reflexiva","luto","Mem\u00f3ria","metaf\u00edsica","mortalidade","morte","narrativa brasileira","realismo fant\u00e1stico","Rio Para\u00edba do Sul","sobrenatural","Vale do Para\u00edba","vida e morte"],"articleSection":["Contos"],"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/almaempalavras.com.br\/?p=23448#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/?p=23448","url":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/?p=23448","name":"A Senhora da Margem - Uma Alma em Palavras","isPartOf":{"@id":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/#website"},"primaryImageOfPage":{"@id":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/?p=23448#primaryimage"},"image":{"@id":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/?p=23448#primaryimage"},"thumbnailUrl":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/a-senhora-da-margem.jpg","datePublished":"2026-07-08T14:00:00+00:00","description":"Desde a inf\u00e2ncia, Carlinho v\u00ea uma misteriosa senhora surgir antes das mortes. Durante d\u00e9cadas, ela acompanha silenciosamente sua vida.","breadcrumb":{"@id":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/?p=23448#breadcrumb"},"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"ReadAction","target":["https:\/\/almaempalavras.com.br\/?p=23448"]}]},{"@type":"ImageObject","inLanguage":"pt-BR","@id":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/?p=23448#primaryimage","url":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/a-senhora-da-margem.jpg","contentUrl":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/a-senhora-da-margem.jpg","width":1672,"height":941,"caption":"Mulher misteriosa observando silenciosamente a margem de um rio ao entardecer enquanto a n\u00e9voa cobre a \u00e1gua e uma antiga cidade do interior aparece ao fundo."},{"@type":"BreadcrumbList","@id":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/?p=23448#breadcrumb","itemListElement":[{"@type":"ListItem","position":1,"name":"In\u00edcio","item":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/"},{"@type":"ListItem","position":2,"name":"A Senhora da Margem"}]},{"@type":"WebSite","@id":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/#website","url":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/","name":"Uma Alma em Palavras","description":"Um espa\u00e7o simples e \u00edntimo, onde compartilho minhas reflex\u00f5es sobre a vida, o trabalho, a educa\u00e7\u00e3o, a fam\u00edlia e tudo o que toca o cora\u00e7\u00e3o. Escritos sem pretens\u00e3o, apenas a tentativa de traduzir em palavras aquilo que a alma sente..","publisher":{"@id":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/#\/schema\/person\/8ac5d86257a23c047f97973400e199ff"},"potentialAction":[{"@type":"SearchAction","target":{"@type":"EntryPoint","urlTemplate":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/?s={search_term_string}"},"query-input":{"@type":"PropertyValueSpecification","valueRequired":true,"valueName":"search_term_string"}}],"inLanguage":"pt-BR"},{"@type":["Person","Organization"],"@id":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/#\/schema\/person\/8ac5d86257a23c047f97973400e199ff","name":"Wallison Moura","image":{"@type":"ImageObject","inLanguage":"pt-BR","@id":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/uma_alma_em_palavras_logo_nova_horizontal-1.png","url":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/uma_alma_em_palavras_logo_nova_horizontal-1.png","contentUrl":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/uma_alma_em_palavras_logo_nova_horizontal-1.png","width":1412,"height":706,"caption":"Wallison Moura"},"logo":{"@id":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/uma_alma_em_palavras_logo_nova_horizontal-1.png"},"sameAs":["http:\/\/almaempalavras.com.br","https:\/\/www.facebook.com\/wallison.moura\/","https:\/\/www.instagram.com\/w.allisonmoura\/","https:\/\/www.linkedin.com\/in\/wallisonmoura\/"],"url":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/?author=1"}]}},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/a-senhora-da-margem.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23448","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=23448"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23448\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":23450,"href":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23448\/revisions\/23450"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/23449"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=23448"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=23448"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=23448"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}