{"id":23454,"date":"2026-07-06T11:00:00","date_gmt":"2026-07-06T14:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/?p=23454"},"modified":"2026-06-25T11:39:04","modified_gmt":"2026-06-25T14:39:04","slug":"a-insubordinacao-do-talvez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/almaempalavras.com.br\/?p=23454","title":{"rendered":"A Insubordina\u00e7\u00e3o do Talvez"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Assisti ao jogo contra a Esc\u00f3cia com uma sensa\u00e7\u00e3o que andava esquecida. N\u00e3o foi a vit\u00f3ria em si; foi a maneira. A sele\u00e7\u00e3o jogou, por alguns instantes, como eu esperava que ela jogasse. Uma sombra do que j\u00e1 foi, talvez, mas uma sombra reconhec\u00edvel. E algo se moveu em mim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Na manh\u00e3 seguinte percebi que n\u00e3o tinha sido s\u00f3 comigo. Havia nos coment\u00e1rios, nas conversas, no ar uma palavra que andava ausente: esperan\u00e7a. Olhei a tabela. O caminho at\u00e9 a final \u00e9 uma sucess\u00e3o de barreiras que parecem grandes demais. Quem quer ser campe\u00e3o n\u00e3o escolhe advers\u00e1rio. A l\u00f3gica fria diz que \u00e9 improv\u00e1vel. E ainda assim, contra a pr\u00f3pria l\u00f3gica, a final voltou a parecer poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Este n\u00e3o \u00e9 um texto sobre futebol. \u00c9 sobre o que aconteceu dentro de mim diante de um placar. Essa coisa estranha que nasce em n\u00f3s quase junto com o verde e amarelo, e que talvez seja uma das mais humanas que existem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Porque a esperan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 espera passiva. \u00c9 exatamente o contr\u00e1rio disso. \u00c9 uma forma de insubordina\u00e7\u00e3o contra aquilo que se apresenta como inevit\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Antes de seguir, \u00e9 preciso desfazer uma confus\u00e3o comum. Otimismo e esperan\u00e7a n\u00e3o s\u00e3o a mesma coisa e trat\u00e1-los como sin\u00f4nimos enfraquece os dois. O otimista acredita que tudo vai dar certo. \u00c9 uma aposta na probabilidade, uma leitura favor\u00e1vel das chances. O esperan\u00e7oso n\u00e3o precisa acreditar nisso. Ele pode enxergar com total clareza o fracasso, a dor, a injusti\u00e7a, a possibilidade real da derrota e ainda assim agir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Essa diferen\u00e7a \u00e9 tudo. O otimista aposta na probabilidade. O esperan\u00e7oso aposta no valor. Por isso a esperan\u00e7a \u00e9 mais corajosa que o otimismo: ela n\u00e3o depende de que as chances sejam boas. Depende apenas de que algo valha a pena ser tentado, mesmo quando as chances s\u00e3o ruins.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A esperan\u00e7a come\u00e7ou quando, olhando para a tabela imposs\u00edvel, eu disse &#8220;talvez&#8221;. Um talvez pequeno. Quase nada. Mas revolucion\u00e1rio porque ele reabre o futuro que o diagn\u00f3stico j\u00e1 tinha fechado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Sei que o pr\u00f3ximo jogo pode ser o \u00faltimo. Sei que, quando este texto for publicado, a sele\u00e7\u00e3o talvez j\u00e1 tenha sido eliminada. Pelo Jap\u00e3o, pela Su\u00e9cia, pela Holanda, ou mais adiante pela Fran\u00e7a ou pela Noruega. Pode ser. E \u00e9 justamente esse risco que torna o &#8220;talvez&#8221; o que ele \u00e9. Se houvesse garantia, n\u00e3o seria esperan\u00e7a. Seria c\u00e1lculo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Existe uma tend\u00eancia profunda no esp\u00edrito humano de tratar o presente como destino e o passado como prova. Quando algo dura tempo suficiente, passamos a acreditar que sempre foi assim e sempre ser\u00e1. Foi assim com imp\u00e9rios que pareciam eternos, com a escravid\u00e3o que parecia natural, com ditaduras que pareciam permanentes, com estruturas de opress\u00e3o que pareciam parte da paisagem. E \u00e9 assim, em escala menor, com nossos fracassos pessoais que aprendemos a ler como senten\u00e7a, n\u00e3o como epis\u00f3dio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A esperan\u00e7a interrompe essa l\u00f3gica. Ela faz uma afirma\u00e7\u00e3o que, examinada de perto, \u00e9 quase escandalosa: o presente n\u00e3o tem o direito de definir sozinho o futuro. Tudo que existe pretende ser definitivo, e a esperan\u00e7a \u00e9 a recusa teimosa de aceitar essa pretens\u00e3o. \u00c9, no sentido mais exato da palavra, um ato de rebeldia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">O fil\u00f3sofo alem\u00e3o Ernst Bloch dedicou uma obra inteira a isso. Para Bloch, a esperan\u00e7a nasce do &#8220;ainda-n\u00e3o&#8221;, o Noch-Nicht. A realidade, dizia ele, n\u00e3o \u00e9 apenas aquilo que j\u00e1 existe; ela carrega dentro de si aquilo que pode vir a existir. O ser humano n\u00e3o habita apenas o presente. Habita possibilidades. Vive permanentemente projetado para a frente, puxado n\u00e3o s\u00f3 pelo que \u00e9, mas pelo que ainda n\u00e3o \u00e9 e poderia ser. Somos, nesse sentido, criaturas do futuro tanto quanto do presente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">\u00c9 por isso que o oposto da esperan\u00e7a costuma ser mal diagnosticado. Dizem que \u00e9 o desespero. N\u00e3o \u00e9. O desesperado ainda sofre. E sofre precisamente porque ainda deseja. Seu sofrimento \u00e9 prova de que algo ainda importa para ele. O verdadeiro oposto da esperan\u00e7a \u00e9 o cinismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">O c\u00ednico desistiu de desejar e chama isso de lucidez. Mas n\u00e3o alcan\u00e7ou clareza nenhuma, apenas trocou a dor pela resigna\u00e7\u00e3o, e a resigna\u00e7\u00e3o pela coura\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">O c\u00ednico se protege da decep\u00e7\u00e3o, e nisso ele \u00e9 eficiente. Ningu\u00e9m o engana, ningu\u00e9m o ilude, ningu\u00e9m arranca dele uma esperan\u00e7a para depois frustr\u00e1-la. Mas o pre\u00e7o dessa prote\u00e7\u00e3o \u00e9 alto: ele perde a capacidade de acreditar em qualquer coisa, inclusive nas que mereceriam cren\u00e7a. \u00c9 o brasileiro que torce pela sele\u00e7\u00e3o advers\u00e1ria s\u00f3 para poder dizer, depois, que sempre soube que a nossa n\u00e3o prestava. Ele transforma o pr\u00f3prio pessimismo em profecia e a profecia em prova de intelig\u00eancia. Mas o que parece sofistica\u00e7\u00e3o \u00e9, no fundo, medo. O medo de querer algo e n\u00e3o conseguir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Aqui est\u00e1 a verdade mais dif\u00edcil sobre a esperan\u00e7a, e a raz\u00e3o pela qual ela \u00e9 t\u00e3o rara: ela exige vulnerabilidade. Esperar \u00e9 correr o risco de se frustrar. Quem n\u00e3o espera nada n\u00e3o se decepciona, n\u00e3o sofre perdas, n\u00e3o se exp\u00f5e. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o constr\u00f3i, n\u00e3o ama plenamente, n\u00e3o aposta em nada que possa falhar. Toda esperan\u00e7a \u00e9 uma exposi\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria \u00e0 possibilidade da dor. \u00c9 baixar a guarda diante de um futuro que pode ferir. E \u00e9 por isso que ela \u00e9, ao mesmo tempo, t\u00e3o dif\u00edcil e t\u00e3o necess\u00e1ria, porque tudo que vale a pena na vida humana exige essa mesma exposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">\u00c9 tamb\u00e9m por isso que a esperan\u00e7a \u00e9 o pilar da f\u00e9, e n\u00e3o o contr\u00e1rio. A esperan\u00e7a crist\u00e3 n\u00e3o nasce da observa\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel da realidade; nasce apesar dela. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que o s\u00edmbolo central do cristianismo n\u00e3o \u00e9 uma coroa\u00e7\u00e3o, mas uma cruz. O instrumento da derrota mais completa transformado em sinal da esperan\u00e7a mais radical. A afirma\u00e7\u00e3o, levada ao limite, de que a esperan\u00e7a pode sobreviver precisamente ali onde toda expectativa racional j\u00e1 foi declarada morta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A sele\u00e7\u00e3o pode perder na pr\u00f3xima segunda. Pode cair no jogo seguinte. Quando voc\u00ea ler estas linhas, talvez o sonho j\u00e1 tenha acabado e o meu &#8220;talvez&#8221; tenha se revelado ing\u00eanuo. Eu sei disso. Sempre soube.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Mas o valor daquele &#8220;talvez&#8221; n\u00e3o dependia do resultado. Ele j\u00e1 tinha feito seu trabalho no instante em que reabriu o futuro que a tabela tinha fechado. Por algumas horas, na manh\u00e3 depois do jogo, milh\u00f5es de pessoas voltaram a habitar uma possibilidade. E isso n\u00e3o \u00e9 pouco. Isso \u00e9, talvez, uma das coisas mais profundas que somos capazes de fazer: recusar que o prov\u00e1vel tenha a \u00faltima palavra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A esperan\u00e7a n\u00e3o existe onde h\u00e1 garantias. Se h\u00e1 garantia, n\u00e3o \u00e9 esperan\u00e7a; \u00e9 certeza, e a certeza n\u00e3o precisa de coragem. A esperan\u00e7a s\u00f3 existe onde existe risco. Onde o fracasso \u00e9 poss\u00edvel, onde a dor \u00e9 poss\u00edvel, onde a derrota est\u00e1 sobre a mesa e mesmo assim algu\u00e9m escolhe acreditar que vale a pena tentar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">\u00c9 a coisa mais arriscada que fazemos. E, por isso mesmo, talvez a mais humana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A esperan\u00e7a n\u00e3o aposta no prov\u00e1vel. Aposta no que vale a pena, mesmo quando \u00e9 improv\u00e1vel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Assisti ao jogo contra a Esc\u00f3cia com uma sensa\u00e7\u00e3o que andava esquecida. N\u00e3o foi a vit\u00f3ria em si; foi a maneira. 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