Diferente de tantos trabalhadores, meu ofício não tem um apito que rasga o ar anunciando o fim do expediente. Nunca soube se invejo ou temo esse som. Imagino que, se houvesse, seria como um tiro de misericórdia: um alívio, sim, mas também uma lembrança brutal de que passei o dia inteiro enclausurado em deveres. No meu caso, nem preciso do alarme do celular para saber quando chega a hora de voltar. O corpo tem memória própria: sente o peso das horas e pede, quase instintivamente, o aconchego do lar.
Mas há um dia na semana em que tudo se embaralha. É quando acordo cedo, ainda com o céu sem cor, e sigo para o trabalho com a estranha sensação de estar indo embora. Mesmo que o expediente se arraste até a noite, é como se cada minuto fosse já um prelúdio de regresso. Esse dia tem nome: sexta-feira.
A sexta é um umbral — uma fronteira sutil entre a servidão e a promessa. Passo o dia inteiro como quem atravessa uma ponte de corda sobre um abismo: cansado, mas cheio da expectativa de chegar ao outro lado. O mais curioso é que, ao atravessar, não encontro necessariamente descanso. O fim de semana, tantas vezes idealizado como paraíso, costuma ser tomado por tarefas domésticas, listas de compras, compromissos familiares, reparos na casa, contas em atraso. Um tipo diferente de trabalho, mais íntimo, mais nosso — mas trabalho, ainda assim.
E, no entanto, há uma diferença fundamental: essas horas gastas não pertencem a um chefe, nem a um freguês, nem ao relógio de ponto. Pertencem a quem amamos e, por consequência, a nós mesmos. É nesse cuidado — ainda que exaustivo — que reencontro o sentido da palavra “vida”.
Não se trata de desprezo pelo labor. Ao contrário: trabalhar é também um modo de permanecer vivo. Mas há sempre a impressão de que, ao longo da semana, cuidamos mais dos interesses alheios do que dos nossos. Mesmo o patrão, que se julga dono do próprio tempo, não escapa: está sempre de joelhos diante do cliente, que dita sua rotina sem pedir licença.
É por isso que me soa injusto chamar de “dias úteis” apenas aqueles que vão de segunda a sexta. Quer utilidade maior que um sábado dedicado a colocar a casa em ordem, ou a um jogo de bola com os amigos? Quer coisa mais útil que o domingo, com seu descanso preguiçoso e suas conversas lentas, onde o mundo parece suspender a pressa?
No fundo, talvez o mais útil de todos seja justamente o dia em que não somos úteis a ninguém — aquele em que nos é permitido simplesmente existir, sem cobrança, sem meta, sem produtividade. A sexta-feira anuncia esse direito. Não é o descanso em si, mas a miragem dele. Uma promessa breve, repetida a cada semana, de que a vida não se resume a bater ponto.
E é essa promessa, mais do que o descanso real, que nos mantém de pé.

0 Comentários
Ana Claudia Veiga
Nossa! Maravilhosa reflexão. Parabéns! Sou fã das suas crônicas, meu amigo.