Lembro-me da adolescência, quando estudava em uma escola particular da cidade. À época, eu não sabia nomear aquelas reuniões quinzenais com a Orientadora Educacional como o que hoje chamaríamos de sessões coletivas. Para nós, eram apenas encontros obrigatórios, em que se falava de disciplina, dedicação aos estudos, convivência entre colegas e, vez ou outra, das escolhas profissionais que ainda nos pareciam distantes demais para merecer preocupação real.
Quase nada dessas conversas ficou gravado na memória. Como acontece com tantas palavras ditas na juventude, a maioria se dissolveu no tempo. No entanto, um texto apresentado em uma dessas reuniões atravessou os anos e permaneceu comigo, ainda que adormecido, à espera do momento certo para reaparecer. Porque é assim que a memória age: guarda o essencial em silêncio, até que a vida o convoque novamente.
O texto falava sobre o valor de ouvir e, portanto, sobre o valor do silêncio. Não me recordo de todos os detalhes; mais de trinta anos se passaram desde então. Mas a imagem central nunca me abandonou. Um pai leva o filho ao alto de uma colina e pede que observem, em silêncio, os sons da natureza. O vento entre as árvores, os pássaros, a distância viva do mundo. Em meio a essa harmonia, surge um ruído áspero e desordenado. O pai, então, pergunta ao menino que som era aquele. Sem hesitar, o filho responde: uma carroça vazia. Intrigado, o pai quer saber como ele poderia ter certeza. E o menino responde com simplicidade desarmante: pelo barulho que ela faz.
Durante muitos anos, essa história permaneceu apenas como uma lembrança curiosa. Hoje, porém, ela ecoa com uma força quase incômoda. Porque vivemos cercados de carroças vazias. Elas fazem barulho não por excesso, mas por carência; não por abundância, mas por ausência. O ruído é tudo o que têm a oferecer.
Dos sons estridentes que invadem as casas, as ruas e as praias, às vozes que, na política, confundem grito com argumento, o mundo parece ter se transformado em um grande hospício sonoro. Cada um tenta fazer mais barulho que o outro; talvez não para ser ouvido, mas para não precisar escutar o silêncio que carrega dentro de si. Grita-se para não pensar, para não refletir, para não encarar o próprio vazio. O barulho funciona como anestesia.
Tenho observado, com certa inquietação, um movimento nas redes sociais que tenta dar conta desse fenômeno por meio de uma associação simplista: barulho como sinônimo de pobreza, silêncio contemplativo como privilégio da riqueza. Nada poderia ser mais falso. O silêncio verdadeiro não se compra, nem o barulho é exclusividade de quem nada possui. Essa leitura não passa de um disfarce elegante para um preconceito antigo.
A questão não é quanto dinheiro alguém tem, mas quanto universo interior conseguiu construir. É evidente que melhores condições materiais ampliam o acesso a livros, tempo, espaços e experiências que favorecem esse cultivo. Mas isso está longe de ser uma regra. Há pobres de espírito em mansões silenciosas e almas vastas em casas barulhentas.
Lembro-me, aliás, de um tempo em que, mesmo sem dinheiro, orgulhávamo-nos de algo que parecia mais importante: a educação. Não apenas a escolar, mas aquela educação que ensinava a ouvir, a respeitar o espaço do outro, a reconhecer o valor do silêncio e da palavra bem colocada. Talvez essa fosse a verdadeira riqueza que possuíamos e que, aos poucos, fomos deixando escapar.
Hoje, quando o mundo parece cada vez mais ruidoso, penso que não nos falta som. Falta densidade. Falta interioridade. Falta gente cheia o bastante para não precisar fazer tanto barulho. E talvez seja hora de reaprender aquilo que um menino, no alto de uma colina, já sabia: quanto mais vazia a carroça, mais alto é o ruído que ela produz.
