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O Silêncio de Leão

Na última sexta-feira, o Vaticano amanheceu como de costume: sinos soando, peregrinos se acotovelando na Praça de São Pedro e jornalistas atentos a qualquer sinal de fumaça branca ou preta — mesmo que a eleição papal já tenha acontecido há três meses. Foi nesse compasso de normalidade que se completou o trimestre do pontificado de Leão XIV. Três meses de um silêncio quase litúrgico.

E, veja bem, digo “silêncio” como elogio. Não é a ausência de palavras, mas a presença da medida certa. É a escolha de não transformar cada frase em combustível para fogueiras que já ardem por conta própria. É a recusa em disputar a manchete mais quente do dia e preferir, talvez, a oração mais silenciosa da noite.

Como católico, confesso que respiro aliviado. Não que o Papa Francisco não tivesse seus méritos — e como tinha —, mas seu estilo, por vezes, parecia jogar o mundo num eterno concílio digital, onde cada declaração virava guerra santa no Twitter. Era como se vivêssemos sempre a dois parágrafos do Apocalipse, mesmo quando o tema era apenas… reciclagem.

Leão XIV, ao contrário, vem demonstrando que o poder de um líder global não se mede apenas pelo eco de suas palavras, mas pelo alcance de suas ações. Poucas entrevistas, menos improvisos, mais gestos concretos: visitas discretas a hospitais, encontros silenciosos com refugiados, pequenas reformas internas que não precisam de holofote.

Nesse mundo onde o ruído se confunde com relevância, seu estilo parece uma heresia bem-vinda: governar sem gritar. Não que o Papa ignore as dores do mundo, mas talvez ele compreenda que a caridade também pode ser feita na sombra — e que a fé, assim como a boa música, precisa de pausas para soar mais bonita.

Três meses não fazem um pontificado, mas já são suficientes para mostrar um norte. No caso de Leão XIV, esse norte parece apontar para a ideia de que a Igreja, antes de ser trending topic, precisa ser abrigo. E, se for para seguir assim, que venham muitos outros meses de silêncio fértil.

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