Era uma sexta-feira preguiçosa, dessas em que o relógio parece conspirar contra a saída. No trabalho, entre relatórios e e-mails, um som escapava das mesas vizinhas: Fábio Jr. cantava amores eternos, promessas e despedidas. Algumas colegas, animadas com o show do dia seguinte, entoavam juntas o refrão. A cena tinha algo de adolescente, de confissões ao pé do ouvido e diários cheios de corações desenhados.
Até que uma terceira voz cortou o ar:
— Que coisa mais cafona!
Não pensei. Reagi de supetão, talvez mais para mim mesmo do que para os outros:
— Todas as cartas de amor são ridículas.
O silêncio foi imediato, quebrado apenas por olhares curiosos. Expliquei:
— Fernando Pessoa escreveu isso. Mas também disse: “Só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas.”
Pode ser que tenha soado como um fora. Mas, para mim, era uma lembrança literária — e um lembrete: o amor é mesmo exagerado, melodramático e, sim, um pouco tolo. E isso é lindo. O verdadeiro ridículo é atravessar a vida sem se permitir esse descompasso, essa entrega que rasga a lógica.
Mas o que fazemos, então, com essa verdade simples? A maturidade, ou talvez a ânsia de parecer inteligente, nos leva a lapidar demais o que sentimos. Escondemos o entusiasmo, polimos o riso, disfarçamos o afeto para não parecermos ingênuos. Tornamo-nos versões sóbrias e “aceitáveis” de nós mesmos, mas cada vez menos espontâneas.
Claro, ninguém propõe viver sob tirania das emoções — seria caos. Mas quando a razão domina a ponto de silenciar o coração, o que sobra é uma vida com a cor saturada demais de cinza.
Afinal, é o equilíbrio que nos salva: razão para nos guiar, emoção para nos mover. Sem um, viramos náufragos no mar do impulso. Sem o outro, somos desertos, seguros e secos.
Entre o ridículo e o cafona, fico com a melodia desafinada, com o gesto exagerado, com a carta escrita de madrugada. Porque é ali, naquilo que envergonha os céticos, que a vida acontece de verdade.
