Perdi as contas de quantas vezes parei em Congonhas. Sempre foi assim: ponto de passagem, descanso de estrada, pausa entre o que ficou e o que ainda está por vir. Desta última vez, ia em direção a Diamantina. O carro cheio, o cansaço, e os doze profetas de Aleijadinho no alto do adro (como sempre estiveram, como sempre estarão) olhando para um horizonte que nenhum de nós consegue alcançar.
Parei mais tempo do que o necessário. Não por devoção, exatamente. Por uma sensação que não sei nomear direito. A mesma que tive na Piazza San Pietro, em Roma, diante da fachada da Basílica. Aquela arquitetura que parece não ter sido feita para impressionar ninguém, mas para responder a algo. Como se os homens que ergueram aquelas pedras soubessem de uma angústia que eu também conheço, e estivessem tentando, em mármore e pedra sabão, dizer alguma coisa sobre ela.
Talvez desde que alcançamos a autoconsciência (desde que soubemos que sabemos que vamos morrer), vivemos divididos. O corpo é finito. O tempo neste mundo é finito. A vida é finita. Mas os desejos não obedecem a essa lógica. As aspirações não. O amor não. Ninguém deseja amar por alguns anos. Ninguém constrói uma catedral para durar uma geração. Há uma assimetria radical entre o que somos e o que queremos, e essa assimetria dói.
Vivo pensando em quanto minha vida é curta para fazer tudo que desejo. Ver todas as coisas que espero ver. Imagino muito, talvez para suprir a falta de coisas que ainda nem se aproximaram. É uma espécie de fome que se alimenta de si mesma. Quanto mais se satisfaz, mais se alarga.
Santo Agostinho nomeou isso no século IV com uma precisão que vinte séculos de psicologia não conseguiram superar: nos fizeste para Ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti.
O que Agostinho percebeu (e que a modernidade preferiu ignorar) é que o desejo humano não é grande demais por acidente ou por patologia. Ele é estruturalmente aberto ao infinito. Não falha quando não encontra satisfação neste mundo. Está funcionando exatamente como foi feito. A inquietação não é o problema. É o diagnóstico.
Esse desejo se revela em tudo que o humano toca. No amor, que por definição quer ser eterno. Na arte, que quer durar mais do que o artista. Na filosofia, que persegue verdades que não se desgastem. Na política, quando é nobre, que tenta construir instituições que sobrevivam a quem as funda. O homem não faz só para si. Faz para que permaneça. E isso tem sido, ao longo dos séculos, a forma mais tangível de nos inscrevermos no tempo. Nosso legado é a sombra que projetamos no futuro.
A modernidade, ao deparar-se com essa saudade do eterno, não a reconheceu como sinal. Diagnosticou-a como carência. Repressão cultural. Imaturidade psicológica. Falta de satisfação material. E apresentou sua receita: consumo, prazer, acumulação, conforto. A tal busca pela felicidade foi reduzida à busca por esses itens.
O resultado está à vista. Quanto mais temos desses itens, mais inquietos parecemos. A saúde mental do século que se proclamou mais livre, mais esclarecido e mais bem abastecido da história é catastrófica. Porque enquanto buscamos o que permanece, só encontramos o que passa. E viver nessa tensão (desejar o eterno num mundo de coisas que caducam) nos adoece de uma forma que nenhum antidepressivo consegue tocar no fundo.
A tecnologia, mais recentemente, tentou responder à mesma questão por outra via. Na medicina, o esforço de prolongar a vida (em tempo e em qualidade) não é um erro em si. Há dignidade em não aceitar a dor desnecessária, em envelhecer com inteireza. O problema surge quando a tecnologia deixa de prolongar a vida e começa a prometer escapar da morte. Quando o projeto não é mais viver melhor, mas não morrer. Quando a imortalidade deixa de ser esperança e vira engenharia. Nesse ponto, algo fundamentalmente humano se perde. Porque a finitude não é apenas o limite da vida. É também o que lhe dá forma, urgência e sentido.
Mas muito antes de qualquer laboratório discutir o upload de consciência ou a edição do genoma, um homem demonstrou que esse desejo pelo infinito não é uma doença a ser tratada nem um problema a ser resolvido pela técnica. É um sinal. É, na interpretação mais ousada, um destino.
A lógica é simples, quase desconcertante na sua simplicidade: nenhum ser vivo desenvolveu um apetite que não tem objeto real. O peixe tem fome porque existe água. O pulmão sufoca porque existe ar. Se há em nós um desejo que nenhuma coisa deste mundo consegue saciar (esse sofrimento metafísico que não consigo nomear quando estou diante dos profetas de pedra-sabão no alto de Congonhas), a hipótese mais honesta é que o objeto desse desejo existe. E que não pertence a este mundo.
Aleijadinho esculpiu os doze profetas com as mãos destruídas pela doença. Instrumentos presos aos pulsos porque os dedos já não obedeciam. Não há registro de que ele tenha parado. Há algo perturbador nisso: um homem cujo corpo se desfazia enquanto sua obra ganhava forma. Como se a finitude do artista e a permanência da arte estivessem em diálogo forçado, e a única resposta possível fosse continuar esculpindo.
Não sei se Aleijadinho tinha clareza teológica sobre o que fazia. Sei que aquelas figuras, séculos depois, ainda produzem em quem as vê uma sensação que não é estética. É reconhecimento. Como se o pedra-sabão tivesse guardado uma pergunta que o artista não sabia responder, mas que nós também carregamos e que, de tempos em tempos, quando paramos na beira de uma estrada ou ficamos de pé numa praça em Roma, nos alcança.
O humano é o único ser na natureza que parece ser maior do que o mundo que o contém. Nenhuma outra espécie parece sofrer por ser finita. Nenhuma outra constrói catedrais. Nenhuma outra escreve testamentos, planta árvores sob cuja sombra nunca descansará, ou chora diante de uma estátua que não conhece o nome de quem chora.
Talvez esse seja o argumento mais silencioso e mais persistente de todos: que existe em nós uma abertura que nenhuma coisa criada preenche. E que essa abertura não é um defeito de fabricação. É o contorno exato de algo que ainda não chegou.
O desejo que não cabe no mundo não é grande demais; é endereçado.
