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A Era da Vulgaridade

Há um barulho novo no ar. Ele não vem dos motores, nem das multidões nas ruas — vem das telas. É o som da exposição, da pressa em existir. Vivemos uma época em que tudo precisa ser mostrado, e de preferência com algum exagero. Não basta estar; é preciso aparecer. E, na ânsia de aparecer, muitos acabam se despindo do que os tornava humanos: o pudor, a reserva, a medida.

Parece que o vulgar tomou conta. Não apenas na fala, mas no gesto, no modo de pensar, nas relações. A vulgaridade, que antes era o deslize de poucos, agora virou estética — e pior: virou regra de sobrevivência nas redes. Quem grita mais é ouvido. Quem provoca mais é seguido. Quem se mostra mais é celebrado. O algoritmo ama o escândalo, e o silêncio, esse nobre sinal de inteligência, perdeu seu lugar.

Mas talvez o problema não seja o corpo exposto — é a alma esquecida. Perdemos o mistério, a arte do entrever. Tudo precisa ser imediato, explícito, consumível. O que não cabe numa tela de quinze segundos parece não merecer atenção. A delicadeza se tornou um artigo de luxo. A elegância, um anacronismo. O decoro, um fardo moral.

No entanto, há algo de triste nesse espetáculo. Porque a vulgaridade é, no fundo, um grito de carência. Quem se exibe demais está sempre pedindo para ser visto — não o corpo, mas a falta. O vulgar não é o obsceno; é o vazio disfarçado de liberdade. É o barulho que tenta abafar o silêncio da própria solidão.

Talvez seja hora de reaprender a beleza do que não se mostra. De cultivar o segredo, a modéstia, a pausa. Não por moralismo, mas por saúde da alma.
Porque o mundo não precisa de mais corpos nus — precisa de espíritos vestidos de sentido.

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