Todo ano é assim. Janeiro chega e, com ele, a certeza das férias à beira-mar. São pelo menos vinte dias de sol, sal na pele e tempo suspenso. Neste ano, o destino foi o Ceará — terra generosa de ventos, falésias e praias que parecem não ter fim.
Mal havíamos chegado a Canoa Quebrada quando…
Às vezes, relendo meus próprios diários, percebo uma estranheza silenciosa na forma como escrevo. Digo que “meu cérebro cria” com a mesma naturalidade com que diria que “meu coração bombeia sangue” ou que “meus rins filtram impurezas”. Como se o cérebro fosse apenas mais um órgão cumprindo sua função, importante, sem dúvida, mas ainda assim…
Há cenas tão banais que passariam despercebidas não fosse o fato de carregarem dentro delas pequenas máquinas de pensar. Tomemos, por exemplo, a mesa de doces. Não uma mesa gloriosa de casamento, mas aquela da tarde comum, no aniversário improvisado, quando alguém abre a caixa de brigadeiros e, subitamente, toda a sala silencia. No centro…
Há uma tensão silenciosa que acompanha todo casamento, uma espécie de fio invisível que vibra entre dois mundos particulares. Não se fala muito sobre isso, talvez por pudor, talvez por receio de admitir o óbvio: convivemos entre aquilo que esperamos do outro e aquilo que o outro, sendo quem é, pode nos oferecer.
Vivemos construindo…
Há um barulho novo no ar. Ele não vem dos motores, nem das multidões nas ruas — vem das telas. É o som da exposição, da pressa em existir. Vivemos uma época em que tudo precisa ser mostrado, e de preferência com algum exagero. Não basta estar; é preciso aparecer. E, na ânsia de aparecer,…
Há certos cargos que concentram, como prisma, as contradições mais profundas de um país. O diretor escolar é um desses lugares. Não um mero profissional da educação, mas um ponto de tensão ética, um nó histórico onde forças divergentes se encontram e se atritam.
Sua função é menos administrativa do que ontológica: carregar o peso…
Todos os dias desperto com o mesmo temor: o de não ter nada a oferecer ao mundo. O de não encontrar, nas pequenas raspas do cotidiano, a matéria frágil de que são feitas as minhas palavras.
Minhas reflexões nascem das conversas silenciosas que travo comigo mesmo — diálogos tortos, inacabados, que às vezes levo dias…
Talvez seja porque o calendário virou de novo ou porque o corpo finalmente pediu trégua, mas hoje acordei com uma pergunta incômoda na cabeça: afinal, por que viajar?
A resposta fácil já conhecemos; porque se gosta, porque se descansa, porque se vê o novo. Mas isso explica pouco. É como tentar entender o mar olhando…
Outro dia, enquanto eu vagueava pelas minhas próprias nuvens — esse território nebuloso que alguns apelidam de “meu maravilhoso mundo de Bob” — minhas colegas de trabalho conversavam animadamente sobre a mais recente polêmica envolvendo um jogador de futebol e sua namorada, uma influencer de holofotes sempre acesos. Diziam que ele havia feito uma declaração…
Se há algo que me enche de um orgulho quase infantil é quando alguém lê um dos meus contos, franze o cenho e pergunta, meio desconfiado, de quem estou falando. É como se buscassem, por trás das palavras, o rosto real que teria dado origem à personagem. Para mim, essa suspeita é o melhor elogio:…
Teve uma amiga que, meio em brincadeira e meio em advertência, disse que estou com “dedos nervosos” de tanto escrever. Não deixa de ser verdade. O que meus dedos transbordam no teclado é apenas a espuma visível do que me atravessa por dentro. O volume do que escrevo é a sombra tímida do volume do…
Eu me lembro perfeitamente daquele dia. A professora Terezinha me chamou com urgência: a turma do quinto ano havia ultrapassado os limites. Havia entre os alunos um menino de saúde frágil, já bastante debilitado por uma doença cruel. Sofria em silêncio as zombarias dos colegas, que viam em sua diferença motivo de riso. Ele partiria…
