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Quando o Sonho Puxa a Cadeira e Manda Escrever

Nesta segunda-feira publiquei o conto da semana. É a rotina: começo as segundas com ficção, como quem acende uma vela para inaugurar o ritual da escrita. Mas, desta vez, o espanto foi maior do que o habitual. Tenho dito com frequência que meu ímpeto criativo parece disposto a me conduzir à beira da loucura, porém este conto ultrapassou qualquer previsão. Ele nasceu de um sonho, literal e inteiramente.

Quando contei isso em casa, minha esposa ergueu as sobrancelhas, desconfiada, e lançou a pergunta que ainda ecoa: “Mas você vivenciou o que o protagonista sofreu?”
A pergunta trouxe, por um instante, aquele silêncio que antecede decisões importantes. Respirei fundo antes de responder.

Não, não era assim. O sonho não era idêntico ao conto, mas o estopim era o mesmo: um acidente de carro. Eu estava no volante, sozinho na estrada, quando tudo se dissolveu no impacto. Acordei num sobressalto, o coração disparado, e ainda meio tonto percebi a estranha habilidade do meu cérebro: em vez de simplesmente arquivar o pesadelo, ele o remodelou. As imagens voltaram como lembranças que não eram minhas, cenas desalinhadas tentando ocupar lugar na fila da consciência.

Nos minutos seguintes, que acabaram se tornando uma hora e meia, vivi aquela pressa que só reconheço no estado febril da criação. Levantei da cama ainda anestesiado e comecei a organizar mentalmente cada fragmento: o clarão da batida, a sensação viscosa do medo, a distorção do mundo que se desfaz antes de acordar. Tudo se encaixava com uma naturalidade inquietante, como se um narrador invisível ditasse o enredo enquanto eu apenas anotava.

O curioso é que muitos veriam nisso um mau agouro, um aviso sombrio, talvez até uma mensagem cifrada do destino. Para o meu cérebro, porém, é apenas matéria-prima. Mais uma chance, involuntária, imprevisível, de criar. A verdade é que às vezes isso me exaure. A mente não conhece horário comercial; funciona em expediente interminável, tomando as rédeas até quando estou dormindo.

Ainda assim, ao terminar o conto na manhã seguinte, fui dominado por uma admiração quase infantil. Era como descobrir que, enquanto eu repousava, uma oficina secreta trabalhava sem descanso dentro de mim, produzindo mundos e personagens que eu só encontraria ao amanhecer.

Talvez isso explique por que o resultado da minha polissonografia apontou que acordo quinze vezes durante a noite. Criatividade excessiva, sono precário, sonhos que se revoltam para virar histórias.
Deus me ajude e, já que é inevitável, que pelo menos me ajude a continuar escrevendo.

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