Um dos primeiros santos cuja hagiografia me aventurei a pesquisar e escrever — talvez o primeiro — foi São Nicolau de Mira. Dispensa dizer que a figura histórica de Nicolau, ao longo dos séculos, acabou moldando o nosso Papai Noel (ou Santa Claus, para quem prefere americanizar o afeto). Ele sempre me despertou curiosidade desde a infância, quando eu ainda acreditava no bom velhinho sem qualquer questionamento.
Foi justamente em um livro infantil que descobri que aquele personagem aconchegante escondia por trás um homem real: um bispo que viveu no que hoje é a Turquia. Para a criança que eu era, isso soou como uma revelação. Uma sensação quase arqueológica — havia um rosto verdadeiro escondido sob camadas de mito.
Naquele tempo, não havia Google, quanto menos um ChatGPT. Eu dependia dos poucos livros que tinha à mão, e tudo era muito superficial. Mas, já no fim da adolescência, encontrei um livro que mudaria minha forma de olhar os santos: Na Luz Perpétua, uma coletânea de pequenas biografias que apresentava homens e mulheres extraordinários com simplicidade e poesia.
Foi ali que encontrei, pela primeira vez, a palavra taumaturgo — “fazedor de milagres” — que até então eu só associava ao nome de um ator da televisão. O livro também trazia, além da famosa história das três bolsas de ouro que teriam caído pela chaminé, dimensões humanas do santo: sua escolha como bispo por causa de suas virtudes, o zelo de sua fé, e até o milagre que o consagrou protetor dos navegantes.
Essas narrativas, mais do que piedosas, revelavam um homem caridoso, generoso e corajoso. E, embora eu já tivesse grande admiração por Nicolau, foi apenas muitos anos depois — em plena era das redes sociais — que essa admiração sofreu uma reviravolta inesperada.
Descobri então um vídeo no YouTube narrando a suposta cena de São Nicolau no Concílio de Niceia. Em meio a debates teológicos inflamados com Ário, o herege fundador do arianismo, Nicolau teria perdido a paciência e lhe aplicado uma sonora bofetada quando este negou a divindade de Cristo e a maternidade divina de Maria.
A princípio, fiquei estupefato. Depois, ri sozinho. Imaginei o bom velhinho “tampando na mão” o pai do arianismo — algo tão improvável que parecia uma cena saída de um esquete humorístico. Mas, por trás da comicidade da cena, algo mais profundo me tocou.
A história apresentava um santo não como estátua ou ícone idealizado, mas como um homem de carne e osso, capaz de indignar-se diante do que julgava ultraje. Um santo com pulsos, convicções e humanidade.
E essa imagem, tão diferente das versões polidas que crescemos ouvindo, acabou sendo justamente a que mais me encantou.
