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A Mais Longa das Repúblicas

Outro dia estava pensando nessas coisas que ninguém pergunta, mas que dizem muito sobre nós: há quanto tempo vivemos sob a mesma república?

Peguei o calendário, umas contas e uma dose de paciência. Descobri que a República Velha, aquela dos coronéis e das fraudes eleitorais, durou 40 anos, 11 meses e 9 dias — de 15 de novembro de 1889, quando Deodoro da Fonseca depôs o imperador, até 24 de outubro de 1930, quando Getúlio Vargas subiu ao poder na ponta de uma revolução. Quarenta anos de uma “normalidade” que excluía quase todo mundo, mas que, por alguma razão, ainda chamamos de democracia.

Curioso é que, se contarmos nossa atual república — essa que começou em 15 de março de 1985, com José Sarney tomando posse após a morte de Tancredo Neves — chegaremos a um número quase idêntico.
Fiz as contas: em 24 de fevereiro de 2026, completaremos exatamente 14.967 dias, o mesmo tempo vivido pela República Velha. No dia seguinte, 25 de fevereiro, o Brasil entrará oficialmente na república mais longa da sua história.

Parece motivo para comemorar. Quarenta anos sem tanques nas ruas, sem atos institucionais, com eleições regulares e presidentes civis. Mas, quando penso melhor, sinto que esse número é mais um espelho do que um troféu.

A República Velha também se acreditava estável. Tinha Constituição, Congresso, tribunais e uma elite que jurava defender a ordem. E, no entanto, bastou um golpe de vento — ou de Vargas — para tudo ruir.

A nossa, mais moderna e constitucional, também tropeça em dúvidas e desconfianças. Vive cansada, entre crises e salvadores improvisados. Parece sempre à beira de alguma coisa — nunca sabemos se de um avanço ou de um abismo.

Então, quando chegar o dia 24 de fevereiro de 2026, talvez haja quem brinde o feito histórico: superamos a República Velha! Mas eu, cá comigo, ficarei em silêncio.
Porque números não bastam. E longevidade, sozinha, nunca fez uma democracia.

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