Quando o Céu Sorri Antes da Quaresma
Dizem que o carnaval é tempo de excessos. E é mesmo — mas talvez o excesso não esteja onde imaginamos. Há quem exagere na carne, há quem exagere no julgamento. E, entre uns e outros, esquecemos o essencial: o cristianismo é a religião da alegria — e é justamente aí que nasce a alegria cristã no carnaval.
São Gregório Magno, lá no longínquo século VI, foi quem deu ao carnaval um lugar no calendário da Igreja. Não como um aval para a loucura, mas como um tempo de expansão antes da sobriedade quaresmal. Como quem respira fundo antes do mergulho. O Concílio de Trento, mil anos depois, reafirmou o mesmo: o povo precisava de festa, e o clero, de paciência.
O problema é que, com o tempo, trocamos o sentido da festa pelo vazio do barulho. A alegria virou euforia, e a liberdade, desculpa. Mas talvez o que mais entristeça o Céu não sejam os foliões de rua — e sim os cristãos de semblante fechado, que confundem santidade com sisudez.
A Igreja nunca foi contra a festa. Pelo contrário, ela é o lugar da grande celebração — o banquete do Cordeiro, o vinho melhor guardado para o fim. Se nós, católicos, não sabemos celebrar sem cair em depravação, é porque ainda não aprendemos a festejar com o coração convertido. Continuamos pagãos por dentro, mesmo de terno e véu.
Enquanto isso, o mundo olha e pensa: “Os pagãos têm alegria; os cristãos, tristeza.” E o diabo, rindo na arquibancada, aplaude o marketing gratuito.
A alegria cristã no carnaval não é fuga, é plenitude. É dançar sabendo que o corpo é templo, rir sem zombar, brindar sem cair. É deixar o Céu sorrir antes da Quaresma.
Então, se for pra pular, que seja de contentamento. Se for pra cantar, que seja de gratidão. E se for pra festejar, que seja com o coração limpo, porque, no fim das contas, o cristão que não sabe celebrar é um pobre homem que esqueceu que o Evangelho começou numa festa de casamento.
E quem foi mesmo que transformou a água em vinho?
