Skip to content Skip to footer

Quando a Liturgia Transborda para a Casa

Neste final de semana começa o Advento — quatro semanas em que o tempo parece recolher-se para acender uma vela dentro de nós. Desde cedo, aprendi que este não é apenas o período que antecede um fato distante, como quem celebra um feriado antigo. O Advento é o convite para que Cristo nasça, de novo e sempre, nos recantos silenciosos do coração. Muito mais tarde, escrevendo para os adolescentes da Perseverança, descobri que a Igreja guarda ainda outro segredo: ao celebrar o Natal, espera também Aquele que virá, como quem vigia o horizonte à procura da primeira luz.

Essas lembranças religiosas moldam minha forma de ver o mundo e, sobretudo, este tempo. Seus símbolos, suas cores e sua liturgia ultrapassam os altares, atravessam as portas das casas, derramam-se pelas ruas iluminadas — ainda que nelas, quase sempre, brilhe mais o desejo de compra do que o desejo de fé. Mas o Natal, entre todas as festas, é o que mais consegue entrelaçar o sagrado ao cotidiano, como se tocasse, suavemente, tudo o que vive.

Minhas memórias mais doces nascem daqui. São memórias de infância, mas também de paternidade: o calendário litúrgico confundindo-se com o calendário civil, até que se tornem uma única tapeçaria de dias marcados por luzes, aromas e esperança. Cresci numa família estruturada, e tento oferecer ao meu filho o mesmo abrigo. Talvez por isso este tempo me inspire tanto — porque nele encontro o eco de tudo o que já fui e de tudo o que ainda desejo ser.

Lembro-me de mim e de meus irmãos montando a árvore de Natal ao lado de meus pais, como quem ergue um pequeno templo doméstico. Hoje, repito o rito com meu filho e minha esposa, e é como se o passado retornasse para abençoar nossas mãos. Lembro-me também das vitrines enfeitadas, dos passeios sob guirlandas de luz, das ruas transformadas em corredores de festa. E, da cozinha, o cheiro de carne assada no vinho percorrendo a casa inteira, impregnando o dia de promessa.

Na ceia, tentamos reunir toda a família em torno da mesa — nem sempre conseguimos, mas o desejo, este sim, nunca falta. E talvez seja isso que o Advento e o Natal significam para mim: o instante do ano em que a liturgia se derrama no cotidiano e o cotidiano se abre ao mistério. Um tempo em que o sagrado encontra espaço nas pequenas coisas, e as pequenas coisas devolvem ao sagrado sua alegria mais simples.

Quem dera todos pudessem sentir essa mesma alegria. Eu ainda acredito que um dia sentirão.

Deixe um comentário