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Quando Escrever se Torna um Espelho da Alma

Teve uma amiga que, meio em brincadeira e meio em advertência, disse que estou com “dedos nervosos” de tanto escrever. Não deixa de ser verdade. O que meus dedos transbordam no teclado é apenas a espuma visível do que me atravessa por dentro. O volume do que escrevo é a sombra tímida do volume do que penso. Anoto retalhos no celular como quem salva brasas para reacender o fogo mais tarde.

Dentro de mim há um coro inquieto — vozes que se atropelam, que disputam espaço, que cochicham ideias ou gritam revelações. Escrever é escolher quais vozes merecem ser escutadas. É sentar-me diante delas como um monge diante do claustro, separando murmúrios, iluminando arestas, concedendo forma ao que antes era apenas vento.

Os insights são criaturas delicadas. Às vezes nascem de conversas distraídas no trabalho; às vezes brotam do silêncio da casa, quando minha esposa fala e, sem saber, acende em mim uma conexão improvável; às vezes surgem das redes sociais, esse imenso mercado de vozes, onde um comentário banal pode, ironicamente, gerar uma reflexão profunda.

Escrever nesse blog é meu modo de afastar o ruído folhetinesco das redes, esses labirintos onde convicções viram ídolos e opiniões ecoam sobre si mesmas até perderem o sentido. Nesse blog, a palavra recupera sua dignidade: aqui ela não precisa gritar para existir.

Muito do que publico nasce de cadernos antigos, de arquivos esquecidos, de fósseis escritos em outras épocas. Releio e me encontro com versões antigas de mim mesmo — algumas que reconheço com ternura, outras que me estranham como se pertencessem a um desconhecido. Há textos que continuam precisos como lâminas; há outros que hoje me parecem miragens.

E então percebo: eu não escrevo apenas para afirmar o que acredito. Escrevo para construir o que ainda não sou. A escrita, para mim, é menos um espelho e mais um oráculo — mostra meu rosto, mas também lança uma profecia: “Eis quem você pode ser.”

Escrever é o meu modo de existir no intervalo entre o que fui e o que desejo me tornar.

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