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Capítulo 18 – O Engenheiro de Volta Redonda

Rio de Janeiro, sede do DOPS, 16 de abril de 1941 – 10h00

Hans – agora Henrique Weissmann permanentemente – apresentou-se na sede do DOPS para solicitar Atestado de Antecedentes Políticos e Sociais. Documento obrigatório para candidatos a emprego na CSN.

O contato de Adler dentro do DOPS era funcionário de segundo escalão. Carlos Moreira, quarenta anos, corrupto, endividado. Adler o comprara por cinco mil cruzeiros. Carlos recebeu Hans em sala pequena, arquivo metálico atrás dele.

– Documentos – disse, estendendo mão.

Hans entregou: certidão de nascimento (falsa), carta de recomendação da Metalúrgica Nestor de Goes (verdadeira, mas para um homem morto).

Carlos conferiu rapidamente.

– Henrique Weissmann de Almeida. Catarinense. Engenheiro Metalúrgico. Trabalhou em Santo André. Quer vaga na CSN.

– Correto.

Carlos abriu o arquivo. Procurou ficha de Henrique Weissmann. Não existia. Obviamente. Henrique real estava no fundo de represa.

– Limpo – disse Carlos. – Atestado será expedido em dois dias. Volte quinta-feira.

Mas antes de fechar arquivo, Carlos procurou outra ficha. Oswaldo Richter. Encontrou. Leu rapidamente. Depois, discretamente, rasgou. Jogou no lixo. Oswaldo Richter deixara de existir. Oficialmente. Quando Hans saiu, já era Henrique Weissmann. Completamente. Sem volta.

No dia 18 de abril, recebeu Atestado Ideológico:

 

“DEPARTAMENTO DE ORDEM POLÍTICA E SOCIAL Atesta que HENRIQUE WEISSMANN DE ALMEIDA, brasileiro, engenheiro metalúrgico, nascido em Florianópolis-SC em 15/03/1906, não possui antecedentes políticos ou sociais que o desabonem. Apto para exercer qualquer função pública ou privada. Rio de Janeiro, 18 de abril de 1941.”

 

Hans guardou documento como tesouro. Era passaporte para CSN. Para Volta Redonda. Para missão final.

Volta Redonda, escritório central da CSN, 22 de abril de 1941 – 14h00

Hans – Henrique Weissmann – apresentou-se para entrevista de emprego. Escritório improvisado. Filas de candidatos. Engenheiros, operários, técnicos. Todos querendo lugar na maior obra industrial do Brasil.

O recrutador era homem de cinquenta anos, barriga proeminente, olhos cansados. João Rodrigues. Subornado por Adler com três mil cruzeiros. Trabalho simples: aprovar Henrique Weissmann sem muitas perguntas. Evitar que o currículo passasse por Macedo Soares, diretor técnico, que entrevistava pessoalmente engenheiros seniores.

– Senhor Weissmann – disse João, folheando documentos. – Formação?

– Engenharia Metalúrgica. Carnegie Institute of Technology. Especialização em Metalurgia na École des Mines de Nancy.

– Experiência?

– Três anos na Metalúrgica Nestor de Goes, Santo André. Projetos de estruturas metálicas.

João carimbou documentos sem ler detalhadamente.

– Aprovado. Apresente-se segunda-feira, 28 de abril. Canteiro de obras. Sete da manhã.

Hans – Henrique – agradeceu, saiu.

Lá fora, olhou ao redor. Volta Redonda. Fazendas que se tornariam usina. Futuro nascendo de barro e aço. E Hans Albrecht Krueger – engenheiro de Munique, espião da Abwehr, homem sem passado, fantasma com três nomes – fazia parte daquele futuro. Infiltrado. Profundamente.

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