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Capítulo 14 – O Discurso que Mudou Tudo

Rio de Janeiro, Palácio do Catete, 4 de junho de 1940 – 21h00

Getúlio Vargas havia preparado seu discurso uma semana antes. Estava sentado em seu gabinete, cercado por folhas datilografadas, rascunhos manuscritos, palavras riscadas e reescritas. Osvaldo Aranha estava ao seu lado, fumando nervosamente.

– É arriscado demais – disse Aranha, lendo pela terceira vez o texto. – “Passou a época dos liberalismos imprevidentes”… “À democracia política substitui a democracia econômica”… Getúlio, isso soa como fascismo. Os americanos vão entrar em pânico.

– Exatamente – respondeu Getúlio, calmamente.

Aranha parou, cigarro a meio caminho da boca.

– Exatamente?

Getúlio levantou-se, caminhou até a janela. Lá fora, o Rio de Janeiro dormia sob o céu de inverno. Mas a Europa ardia. Hitler havia ocupado a Áustria. A França estava caindo. A Alemanha dominava o continente.

– Os americanos hesitam há meses – disse Getúlio. – A United States Steel recusou participar da siderúrgica. Em janeiro, o comitê financeiro informou que não desejam estender suas atividades fora dos Estados Unidos. Eles querem que façamos tudo sozinhos. Sem dinheiro. Sem tecnologia. Apenas… esperando.

– Então o senhor vai assustá-los?

– Vou lembrá-los – corrigiu Getúlio – de que temos alternativas. A Alemanha ofereceu financiamento integral. A Krupp está disposta a construir tudo. E se os americanos continuarem hesitando…

Ele não terminou a frase. Não precisava.

Aranha apagou o cigarro, acendeu outro.

– É perigoso, Getúlio. Muito perigoso. Se errarmos o tom, se formos longe demais, os americanos podem nos ver como inimigos. E se nos virem como inimigos…

– Não verão – disse Getúlio, com aquela confiança inabalável que caracterizava suas jogadas mais ousadas. – Porque três dias depois do discurso, você publicará nota oficial esclarecendo que foi mal interpretado. Que foi sobre política interna. Que nossa neutralidade continua. E os americanos, aliviados, fingirão acreditar.

– E se não fingirem?

Getúlio sorriu.

– Então a Alemanha vence. E nosso problema se resolve de outra forma.

Rio de Janeiro, Baía de Guanabara, 11 de junho de 1940 – 11h00

O presidente Getúlio Vargas foi convidado para o almoço comemorativo ao Dia da Marinha do Brasil a bordo do encouraçado Minas Gerais, capitânia da Esquadra Nacional.

O encouraçado balançava suavemente sobre as águas calmas da baía. Deck polido, canhões apontando para o céu, bandeira tremulando ao vento. Duzentos oficiais da Marinha, em uniforme de gala, alinhados em formação. Ministros civis em ternos escuros. Jornalistas, convidados, diplomatas – todos aguardando.

Getúlio subiu a bordo às 11h30, cumprimentou o almirante Aristides Guilhem, ministro da Marinha, e caminhou calmamente até o palanque montado no convés principal.

O almoço foi servido. Sopa, peixe, carne, sobremesa. Conversas educadas. Brinde ao Dia da Marinha. E então, às 13h00, o momento.

Getúlio levantou-se. O silêncio desceu sobre o convés como ordem de comando.

Ele abriu a pasta de couro, retirou o discurso datilografado, ajeitou os óculos, e começou:

“Marchamos para um futuro diverso de quanto conhecíamos em matéria de organização econômica, social ou política e sentimos que os velhos sistemas e fórmulas antiquadas entram em declínio. Não é, porém, como pretendem os pessimistas e os conservadores empedernidos, o fim da civilização, mas o início, tumultuoso e fecundo, de uma nova era.”

Os oficiais aplaudiram. Os ministros permaneceram impassíveis. Os diplomatas estrangeiros trocaram olhares.

“Passou a época dos liberalismos imprevidentes, das demagogias estéreis, dos personalismos inúteis e semeadores de desordem. À democracia política substitui a democracia econômica, em que o poder, emanado diretamente do povo, e instituído para a defesa do seu interesse, organiza o trabalho, fonte de engrandecimento nacional e não meio caminho de fortunas privadas.”

O embaixador americano, Jefferson Caffery, sentado na segunda fileira, ficou pálido. Ao seu lado, o adido militar tomou notas frenéticas.

Vargas falou que o Estado Novo havia superado os “radicalismos externos” e que o Brasil tinha criado um sistema político próprio. Falou de organização, disciplina, trabalho. Falou do futuro que nascia das cinzas do passado.

E quando terminou, por coincidência, descobriu-se que o presidente americano Roosevelt havia efetuado um discurso um dia antes (10 de junho) em uma festa de formatura da Universidade de Virginia, mandando mensagem de esperança aos aliados que lutavam do outro lado do Atlântico. Mas Getúlio desconhecia as palavras de Roosevelt devido à falta de meios de comunicação rápidos.

O timing não poderia ser pior – ou melhor, dependendo da perspectiva.

Rio de Janeiro, Embaixada Americana, 11 de junho de 1940 – 15h00

Jefferson Caffery estava ao telefone com Washington há vinte minutos, voz tensa, relatando cada palavra do discurso de Vargas.

– …sim, senhor secretário, ele disse textualmente “passou a época dos liberalismos imprevidentes”… não, senhor, não foi mal-entendido, foi deliberado… a reação aqui foi… bem, os militares aplaudiram… sim, entendo… telegrafarei imediatamente…

Quando desligou, Caffery sentou-se pesadamente em sua cadeira. Seu assistente aguardava.

– Washington está em alerta – disse ele. – O Congresso quer explicações. A imprensa está chamando Vargas de fascista. Roosevelt está furioso.

– E agora?

– Agora – disse Caffery, acendendo um cigarro com mãos trêmulas – esperamos. E rezamos para que Vargas esteja blefando.

Washington D.C., Estados Unidos, 12 de junho de 1940 – 09h00.

A reação por parte do Congresso, da imprensa escrita e do rádio foi violenta, não se medindo críticas e criando-se mesmo uma atmosfera de desconfiança e alerta contra o Brasil.

“BRASIL FLERTA COM FASCISMO”, gritavam as manchetes.

“VARGAS TRAIDOR DA DEMOCRACIA”, denunciavam os editoriais.

“PERIGO NAZISTA NA AMÉRICA DO SUL”, alertavam os políticos.

Franklin Roosevelt convocou reunião emergencial com o secretário de Estado, Cordell Hull, e o diretor do Export-Import Bank, Warren Pierson.

– Não podemos perder o Brasil – disse Roosevelt, categórico. – Se Vargas se aliar ao Eixo, toda a América do Sul cai como dominó. Precisamos agir. Agora.

– A siderúrgica – disse Hull. – É o que ele quer. Sempre foi.

– Então dê a ele – ordenou Roosevelt. – Vinte milhões de dólares. Financiamento imediato. O Export-Import Bank liberará o empréstimo. Mas em troca…

– Em troca?

– Em troca, ele se alinha conosco. Oficialmente. Publicamente. Sem ambiguidades.

Roma, Itália, 12 de junho de 1940 – 10h00 (horário local)

A embaixada da Itália no Rio de Janeiro fez chegar às mãos do presidente a nota de Mussolini, cumprimentando-o pelas palavras pronunciadas. O Duce estava impressionado. Vargas, em sua visão, finalmente assumira o lado certo da história.

Getúlio respondeu dias depois, felicitando Mussolini e falando em “estreitar laços” entre as pátrias e facilitar as “relações de interesse econômico e cultural”.

Rio de Janeiro, Palácio do Catete, 12 de junho de 1940 – 22h00

Getúlio lia os telegramas de Washington com satisfação mal disfarçada. Osvaldo Aranha estava ao seu lado, ainda nervoso mas começando a entender o jogo.

– Funcionou – disse Aranha, quase incrédulo. – Realmente funcionou.

– Claro que funcionou – respondeu Getúlio. – O discurso provavelmente concorreu para modificar a posição norte-americana. Agora eles têm medo. E o medo, Osvaldo, é o melhor negociador.

Em agosto de 1940, enquanto prosseguiam em Washington as negociações da comissão brasileira referentes à concessão do empréstimo para a construção da usina siderúrgica de Barra Mansa, o governo norte-americano informou ao Estado-Maior do Exército brasileiro os itens que considerava importantes para a segurança intercontinental.

Rio de Janeiro, 14 de junho de 1940 – 10h00

Os jornais brasileiros publicaram nota do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda):

 

“O discurso pronunciado pelo presidente Getúlio Vargas, em 11 do corrente, não traz qualquer modificação à política internacional do Brasil. Teve por objetivo, tão somente, a vida interna de seu país e chamar a atenção dos brasileiros para as transformações que se estão operando no mundo, justificando, assim, a necessidade de se fortalecer o Estado, econômica e militarmente. A política externa do Brasil é de inteira solidariedade americana na defesa comum do continente contra qualquer ataque vindo de fora.”

 

Mas era tarde demais para acalmar os ânimos. O estrago estava feito. E o efeito, alcançado.

Washington D.C., Export-Import Bank, 26 de setembro de 1940

Os norte-americanos concordaram em conceder um empréstimo de 20 milhões de dólares, exigindo em troca que fosse criado um escritório executivo formado por engenheiros brasileiros e norte-americanos, que ficaria encarregado de coordenar todo o trabalho de cálculo final da usina e de escolha e compra do material.

Guilherme Guinle, Edmundo de Macedo Soares e Ari Torres – a comissão brasileira – assinaram o acordo. Warren Pierson, diretor do Eximbank, apertou suas mãos com sorriso forçado.

O Brasil tinha seu financiamento. Os Estados Unidos, sua garantia de alinhamento. E Getúlio Vargas, sua siderúrgica.

Rio de Janeiro, Palácio do Catete, 30 de setembro de 1940 – 23h00

Getúlio abriu seu diário, molhou a pena no tinteiro, escreveu:

“30 de setembro de 1940. Os americanos cederam. Vinte milhões de dólares para a Companhia Siderúrgica Nacional. A usina será construída. O Brasil terá seu aço. E eu terei meu legado.”

Ele fez uma pausa, releu, continuou:

“O discurso do Minas Gerais foi interpretado como flerte com o fascismo. Para o presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt, que temia um alinhamento do Brasil com a Alemanha, foi um aviso: o apoio brasileiro tinha um preço. E eles pagaram.”

Ele fechou o diário, guardou-o na gaveta, apagou as luzes.

Lá fora, a noite carioca pulsava. Mas dentro daquele gabinete, a história havia mudado de rumo. O Brasil, finalmente, teria seu aço. Tudo porque, em uma tarde de junho, a bordo de um encouraçado, um homem pronunciou as palavras certas no momento certo.

E o mundo tremeu.

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