Rio de Janeiro, Palácio do Catete, 15 de outubro de 1940 – 14h00
Getúlio Vargas assinava o decreto-lei que ampliava os poderes do DOPS – Departamento de Ordem Política e Social. Ao seu lado, Filinto Müller, chefe da Polícia do Distrito Federal desde 1933, observava com satisfação mal disfarçada. Tinha quarenta anos, descendente de alemães, germanófilo declarado, torturador conhecido e o homem mais perigoso do Brasil.
– O Serviço Secreto – disse Müller, tocando no documento recém-assinado – será operacional imediatamente. Ampliaremos capacidades de vigilância e repressão. Não apenas comunistas. Integralistas também, quando necessário. E principalmente: estrangeiros.
Getúlio acenou, sem tirar os olhos do próximo documento.
– A guerra na Europa complica tudo – continuou Müller. – Alemães, italianos, japoneses no Brasil. Potenciais espiões. Quinta-coluna. Precisamos saber quem são, onde estão, o que fazem.
– E os atestados ideológicos? – perguntou Getúlio.
– Fundamentais – respondeu Müller. – A partir de agora, para ser contratado pela futura Companhia Siderúrgica Nacional, o candidato precisará apresentar Atestado de Antecedentes Políticos e Sociais. Expedido pelo DOPS. Verificaremos ficha de todos. Comunistas, fascistas, subversivos – nenhum entrará na CSN.
Getúlio finalmente levantou os olhos.
– A siderúrgica é projeto estratégico nacional. Não pode ser infiltrada por agentes estrangeiros. Nem alemães, nem americanos. Brasileiros. Apenas brasileiros confiáveis.
– Exatamente – concordou Müller. – Por isso o Serviço Secreto é essencial. Vigiaremos fábricas, portos, ferrovias. Tudo relacionado à indústria de guerra.
Ele colocou envelope grosso sobre a mesa de Getúlio.
– Relatório preliminar. Suspeitos. Estrangeiros com atividades questionáveis. Começamos em São Paulo, onde concentração alemã é maior. Blumenau, Joinville, Novo Hamburgo. Mas também Santos, Rio, Recife.
Getúlio abriu, folheou rapidamente. Nomes. Fotografias. Endereços. Profissões.
– Quantos?
– Trezentos e quarenta suspeitos de espionagem. Alemães principalmente. Mas também italianos, japoneses. O DOPS de São Paulo identificou rede inteira. Engels, von Heyer, outros. Todos monitorados.
– Prisões?
– Ainda não. Vigilância. Melhor deixá-los soltos, monitorados. Descobrimos mais assim. Mas quando a guerra chegar ao Brasil – e chegará –, prenderemos todos. De uma vez.
Getúlio fechou o envelope.
– Faça o que deve ser feito. Mas discretamente. Ainda precisamos da Alemanha como contrapeso aos americanos. Não quero um incidente diplomático.
Müller fez continência.
– Compreendido, senhor presidente.
Quando saiu, já tinha plano completo na cabeça. O Serviço Secreto seria uma arma poderosa. E Filinto Müller sabia usar armas.
São Paulo, Sede do DOPS, Rua Brigadeiro Tobias, 5 de novembro de 1940 – 09h00
O delegado Venâncio Ayres estava sentado atrás de mesa atulhada de dossiês, fumando cigarro atrás de cigarro. Sala pequena, janelas com grades, cheiro de papel velho e café requentado. Três subordinados ao redor: investigadores, olhos cansados de quem trabalhava demais e dormia pouco.
– Oswaldo Richter – disse Ayres, abrindo dossiê. – Importador e exportador. Escritório em Santos. Brasileiro, nascido em Blumenau. Documentação impecável. Mas há inconsistências.
Ele empurrou dossiê para o centro da mesa. Os investigadores aproximaram-se.
– Ele viaja muito – continuou Ayres. – Visita fábricas. Metalúrgicas principalmente. Barbará, em Barra Mansa. Várias outras. Sempre com desculpa comercial. Mas frequência é suspeita.
– Espião? – perguntou um dos investigadores, Sebastião Prado, quarenta anos, bigode grisalho.
– Possível. Provável. Mas não temos provas concretas. Apenas… sensação.
– Sensação não prende ninguém – disse outro investigador, jovem, vinte e cinco anos, chamado Mário Bento.
– Mas justifica investigação mais profunda – retrucou Ayres. – Seguimos ele. Verificamos contatos. Interceptamos correspondências. E mais importante: investigamos passado.
Ele puxou segunda pasta, mais fina.
– Oswaldo Richter. Nascido 1905, Blumenau. Pais: Wilhelm e Greta Richter, imigrantes alemães. Mortos em 1928, acidente de carro. Filho único. Sem parentes próximos. Estudou em São Paulo, formou-se engenheiro. Trabalhou cinco anos em várias empresas. Em 1936 abriu escritório de importação em Santos.
Sebastião Prado assobiou baixinho.
– Documentação perfeita demais. Histórico limpo demais. Parece… construído.
– Exatamente – disse Ayres, apagando o cigarro e acendendo outro imediatamente. – Por isso investigamos mais fundo. E encontramos o problema.
Ele abriu a terceira pasta. Dentro fotografia amarelada de certidão de nascimento.
– Oswaldo Richter realmente existiu. Nasceu em 1905. Mas morreu em 1935. Acidente de carro. Sozinho. Sem testemunhas. Corpo cremado.
Silêncio pesado na sala.
– E um ano depois – continuou Ayres –, outro Oswaldo Richter surge. Documentos novos. Identidade ressuscitada. Conclusão?
– Falso – disse Sebastião. – Alguém assumiu identidade de morto.
– Correto. Mas quem? E por quê?
– Alemão – sugeriu Mário Bento. – Espião alemão que precisava de identidade brasileira. Oswaldo Richter era perfeito. Filho de alemães. Sem família. Morto e esquecido. Fácil de roubar.
Ayres acenou.
– Minha conclusão também. Mas precisamos de prova. Por isso vocês dois – apontou para Sebastião e Mário – vigiarão Richter. Vinte e quatro horas. Fotografarão contatos. Interceptarão correspondências. E reportarão tudo. Entendido?
Os dois assentiram.
– E se confirmarmos? – perguntou Sebastião. – Se provarmos que ele é espião?
– Aí – disse Ayres, sorrindo sem humor – Filinto Müller decide. Prisão. Tortura. Deportação. Ou morte. Depende do humor dele.
Santos, arredores do escritório de Oswaldo Richter, 20 de novembro de 1940 – 08h00
Sebastião Prado estava sentado em Ford preto estacionado em frente a restaurante alemão, fingindo ler jornal. Câmera Leica escondida no banco do passageiro. Mário Bento, no banco de trás, tomava notas em caderneta.
Às 08h15, Hans Albrecht Krueger – conhecido como Oswaldo Richter – saiu do prédio onde ficava seu escritório. Terno cinza, pasta de couro, expressão neutra. Caminhou até padaria, comprou pão, voltou.
Rotina. Normal. Entediante.
Durante três semanas, Sebastião e Mário vigiaram. Fotografaram. Anotaram. E descobriram: nada de extraordinário. Richter trabalhava. Visitava clientes. Jantava sozinho em restaurantes alemães. Voltava para o apartamento em que morava. Dormia.
Exceto por um detalhe.
Em 5 de dezembro, Richter recebeu visita. Homem de terno branco, chapéu panamá, óculos escuros. Ficou trinta minutos no escritório. Saiu sem ser identificado.
Sebastião fotografou. Revelou. Levou foto para Ayres.
– Reconhece? – perguntou ele.
Ayres estudou a fotografia. Depois abriu arquivo, procurou. Encontrou: Friedrich Adler, adido cultural da embaixada alemã.
– Merda – murmurou Ayres. – Confirmado. Richter é espião. E Adler é handler.
Ele pegou telefone, ligou para Rio de Janeiro. Filinto Müller atendeu após três toques.
– Delegado Müller, é Ayres, de São Paulo. Temos confirmação. Oswaldo Richter é identidade falsa. Ele se encontrou com Friedrich Adler, da embaixada alemã. Espião confirmado.
Do outro lado da linha, silêncio. Depois:
– Prendemos ele?
– Não – disse Müller, surpreendentemente. – Ainda não. Deixem solto. Mas vigiem. Quero saber tudo. Contatos. Correspondências. Movimentos. Tudo. E quando ordem vier – e virá –, prenderemos todos de uma vez. Richter, Adler, Engels, a rede inteira. Mas ainda não.
– Por quê?
– Porque – explicou Müller – Brasil ainda é neutro. Vargas ainda joga dos dois lados. Prender espiões alemães agora seria incidente diplomático. Mas quando a guerra chegar ao Brasil, aí sim. Até lá, vigia e reporta.
Ayres concordou, desligou.
Voltou para Sebastião e Mário:
– Continuem a vigilância. Mas discreta. Ele não pode saber que sabemos.
Rio de Janeiro, Embaixada Alemã, 18 de dezembro de 1940 – 22h00
Friedrich Adler estava em seu escritório no subsolo quando Klaus Schneider entrou, pálido.
– Problema – disse ele, sem preâmbulos. – Hans está sendo vigiado.
Adler ficou imóvel. Depois:
– Tem certeza?
– Absoluta. Engels notou. O DOPS de São Paulo colocou dois investigadores nele. Sebastião Prado e Mário Bento. Seguem Hans há três semanas. Fotografaram você saindo do escritório dele.
Adler praguejou em alemão.
– O disfarce de Richter está comprometido – continuou Klaus. – o DOPS descobriu inconsistências. Provavelmente investigaram o passado. Constataram que o verdadeiro Richter morreu em 1935. Conclusão: Hans é impostor.
– E não prenderam ainda por quê?
– Ordens de Filinto Müller. Manter vigilância. Esperar momento certo. Provavelmente quando o Brasil entrar na guerra.
Adler caminhou até mapa do Brasil na parede. Estudou. Calculou.
– Precisamos de uma nova identidade para Hans. Urgente. Se Richter está comprometido, ele precisa desaparecer antes de ser preso.
– E missão na CSN?
– Continua. Mas com novo nome. Nova história. Documentação completamente nova. Sem conexão com Richter.
– Quando?
– Janeiro de 1941. Quando a construção da CSN deve começar. Hans desaparecerá. Oswaldo Richter sumirá. E alguém novo surgirá. Engenheiro brasileiro. Documentação perfeita. História sólida. Sem ligação com Abwehr.
– Nome?
Adler pensou. Depois:
– Henrique Weissmann de Almeida. Catarinense. Engenheiro formado nos EUA. Especialização em Metalurgia na França. Trabalhou em várias obras. Sem família próxima. E…
Ele fez pausa.
– E o verdadeiro Weissmann será eliminado. Discretamente. Ninguém questionará quando Hans assumir lugar dele.
Klaus engoliu seco.
– Assassinato.
– Necessidade – corrigiu Adler. – Guerra não tem luxo de ética. Hans precisa dessa identidade. Weissmann morrerá para que missão continue. Simples.
– E se descobrirem?
– Não descobrirão. Porque desta vez, seremos mais cuidadosos. Sem visitas à embaixada. Sem contatos diretos. Hans ficará sozinho. Profundamente infiltrado. Comunicação apenas por dead drops. Sem rastros.
Klaus assentiu, mas sem convicção.
– Hans sabe?
– Ainda não. Mas diremos. Ele entenderá. Porque não tem escolha. Nunca teve.
Santos, apartamento de Hans, 20 de dezembro de 1940 – 23h00
Hans lia relatório que Adler enviara via correio clandestino. Duas páginas. Instruções claras:
Oswaldo Richter comprometido. Investigadores do DOPS vigiam você há semanas. Identidade deve ser abandonada. Nova identidade: Henrique Weissmann de Almeida. Documentação em produção. Verdadeiro Weissmann será eliminado em janeiro próximo. Você assumirá o lugar dele. Infiltração na CSN prossegue conforme planejado. Comunicação apenas por dead drops. Sem contato direto. Sozinho. Profundamente inserido.
Hans releu três vezes. Depois queimou o papel no cinzeiro, misturou cinzas. Olhou pela janela. Porto de Santos sob lua cheia. Navios ancorados. Silêncio.
Oswaldo Richter morreria em janeiro. Henrique Weissmann nasceria. E Hans… Hans continuaria sendo fantasma. Sempre fantasma. Sempre outra pessoa. Nunca si mesmo.
Ele serviu-se de schnapps. Bebeu. Queimou. Sempre queimava.
Pensou em Greta. Sempre pensava. A fotografia rasgada não apagara memória. Nada apagava. E pensou: Em um mês, serei outra pessoa. De novo. E talvez, desta vez, consiga esquecer quem realmente sou. Por que quem realmente sou? Hans Krueger, engenheiro de Munique? Oswaldo Richter, comerciante de Santos? Henrique Weissmann, engenheiro de Santa Catarina? Ninguém. Sou ninguém. Apenas um fantasma ocupando corpos vazios.
Ele bebeu mais schnapps. E esperou janeiro. E a morte. De Richter. De Weissmann. De si mesmo. Porque em espionagem, todos morrem eventualmente. A questão era apenas: quando. E para Hans, janeiro estava próximo.
