Francisco dos Reis acordava cedo porque os homens públicos precisam ser vistos acordando cedo.
Às sete da manhã sua voz já estava no ar. Não metaforicamente, mas de fato, pela Rádio Cultura de Ataxerxes, onde mantinha um quadro semanal chamado Conversa com o Povo que durava exatamente o tempo necessário para que quem ligasse o rádio no café da manhã ainda o ouvisse ao sair de casa. Francisco conhecia o ritmo da cidade como um músico conhece o compasso.
Naquela manhã de quinta-feira falara sobre educação.
Falara da mãe, Dona Conceição, professora primária, que havia ensinado durante trinta e dois anos na escola estadual do bairro da Várzea, que havia criado Francisco sozinha depois que o marido foi embora, que havia guardado dinheiro do salário de professora para comprar os livros do filho porque a biblioteca municipal não tinha o suficiente.
— Minha mãe me ensinou — disse Francisco ao microfone, com a pausa calculada de quem sabe onde fica o silêncio dramático — que educação não é gasto. É investimento. E é com esse espírito que esta prefeitura governa.
À tarde, em despacho ordinário, Francisco assinou o corte de trinta por cento nos recursos da merenda escolar.
Não era contradição. Era habilidade. A contradição precisa de testemunhas para existir, e Francisco havia aprendido cedo que manhã e tarde raramente conversam, desde que você cuide para que os ouvintes de uma não sejam os ouvintes da outra.
Ataxerxes era uma cidade pequena o suficiente para que todos se conhecessem e grande o suficiente para que ninguém soubesse tudo. Francisco governava nesse intervalo com a competência de quem foi feito para ele.
Aquele era um dia especial. Os alemães chegaram num carro alugado do aeroporto de Chapecó às quatro da tarde.
Eram três: Herr Brandt, o diretor de expansão, homem de sessenta anos com cabelo branco e a simpatia profissional de quem aprendeu a ser agradável em doze idiomas; Herr Müller, o advogado, que falava pouco e anotava muito; e uma mulher jovem cujo nome no cartão era Dra. Schneider, que Francisco assumiu ser secretária e que era, na verdade, a engenheira-chefe responsável pela avaliação técnica do terreno.
O terreno ficava a quatro quilômetros do centro, próximo ao rio, com acesso fácil à rodovia e distância suficiente das áreas residenciais para que as reclamações, quando viessem, chegassem atenuadas pela distância.
Herr Brandt olhou para o terreno com a satisfação discreta de quem já sabe o que vai decidir, mas precisa que o processo pareça rigoroso.
— Excelente localização — disse ele em português com sotaque.
— Nossa cidade tem muito a oferecer — disse Francisco, que havia ensaiado a frase.
O que Francisco não havia dito, nem naquele momento nem nos meses de negociação anteriores, era que as fábricas do grupo Brandt eram conhecidas em três continentes por uma característica específica: produziam mais resíduo por tonelada de produto do que qualquer empresa do setor. Não por negligência técnica, mas por escolha econômica. Os filtros custavam mais do que as multas, nos países onde havia multas. Nos países onde não havia, ou onde havia multas que custavam menos do que os filtros, a equação era simples.
A legislação ambiental europeia havia expulsado o grupo de território alemão em 2001. Desde então, Herr Brandt viajava.
Francisco sabia disso. Havia pesquisado. Havia pesado. Havia chegado à conclusão que costumava chegar: que o desenvolvimento tem um custo e que o custo, neste caso específico, seria pago por pessoas que não estavam na sala de negociação.
— Empregos — havia dito ao vice-prefeito, que havia levantado a questão ambiental numa reunião fechada. — A oposição que fale de poluição. Nós falamos de emprego.
A licença ambiental seria providenciada. Havia um homem no órgão estadual que entendia as coisas como Francisco entendia as coisas, e que aceitava que o entendimento tivesse um valor.
Do outro lado da cidade, o bairro do Barranco Vermelho acordava e dormia com o cheiro do rio.
Não era o cheiro ruim que chegaria depois. Era o cheiro antigo de água corrente e lama de margem, o cheiro que as crianças do bairro conheciam desde que aprenderam a cheirar, que os velhos associavam ao barulho das enchentes e ao silêncio dos verões secos. O rio era uma presença, não uma paisagem. As famílias do Barranco Vermelho viviam com ele da forma que se vive com um vizinho antigo, com a intimidade desconfiada de quem sabe que pode haver problemas, mas prefere não pensar.
A estação de tratamento de efluentes ficava na borda do bairro, entre o último quarteirão de casas e a margem do rio.
Francisco havia inaugurado a obra dez anos antes, num palanque com faixa azul e microfone, com o governador ao lado e fotógrafo na frente. Havia falado da dignidade dos moradores do Barranco Vermelho, do direito ao saneamento, do compromisso desta administração com os que mais precisam. A frase que saíra no jornal era: *Ataxerxes dá um passo civilizatório*.
A obra havia custado o dobro do que deveria custar.
O dobro havia sido possível porque o aço estrutural do projeto original havia sido substituído por especificação inferior. Não no papel, no papel estava tudo correto, mas no material entregue, que os fiscais que deveriam ter conferido não conferiram porque haviam sido escolhidos com o mesmo critério com que Francisco escolhia todas as pessoas que ocupavam posições onde a escolha importava.
A diferença entre o custo real e o custo declarado havia virado uma fazenda no município vizinho, registrada em nome de um primo de Francisco que gostava de cavalos e que Francisco visitava nos finais de semana prolongados.
Em dez anos, a estação não havia recebido manutenção preventiva. Havia recebido uma vistoria em 2018, cujo relatório havia concluído que a estrutura apresentava *desgaste compatível com o uso* e recomendava *atenção nos próximos ciclos de manutenção*. O relatório havia ido para uma pasta. A pasta havia ido para um arquivo. O arquivo havia ficado onde ficam as coisas que ninguém quer encontrar.
Naquela noite de outubro as chuvas da semana haviam enchido o reservatório além da capacidade. A pressão sobre as paredes já enfraquecidas pelo tempo e pela má construção havia chegado ao ponto que os engenheiros chamam de falha estrutural e que os moradores do Barranco Vermelho chamariam, nos dias seguintes, pelo nome que tinham para as coisas que destruíam casas sem avisar.
O salão do Clube Comercial de Ataxerxes havia sido decorado durante dois dias.
O tema era Noite Veneziana. Escolha de Marisa dos Reis, mulher de Francisco, que havia encontrado a ideia numa revista e que havia coordenado a decoração com o entusiasmo de quem tem bom gosto e acesso a orçamento público disfarçado de patrocínio privado. Havia velas em candelabros, havia arranjos de flores brancas e douradas, havia mesas com toalhas de linho que haviam vindo de São Paulo numa van especialmente contratada.
Os convidados chegaram fantasiados.
O Dr. Alcântara, presidente da câmara de vereadores, viera de Veneziano, com capa escarlate e máscara dourada. O vereador Pitanga, que havia votado a favor da isenção fiscal para a fábrica alemã depois de uma conversa privada com Francisco, viera de Arlequim. O juiz Menezes, cuja presença ali dizia algo sobre a cidade que ninguém dizia em voz alta, viera de magistrado medieval, o que arrancou risos que eram também um tipo de comunicação.
Herr Brandt e seus colegas haviam recebido máscaras venezianas na chegada ao hotel, cortesia da prefeitura.
Francisco viera de Conde Drácula.
Marisa havia sugerido outra fantasia. O Rei Leão, o Dom Quixote, alguma coisa mais festiva. Francisco havia insistido no Conde. Havia uma piada interna nisso que só Francisco e dois ou três outros entendiam, e o prazer da piada interna era parte do prazer do poder.
O jantar serviu seis pratos. Havia um sommelier contratado de Florianópolis. Havia um quarteto de cordas tocando ao fundo com o volume correto para não atrapalhar a conversa. Francisco circulava com o copo na mão, cumprimentando, sorrindo, traduzindo para o inglês limitado que havia aprendido em dois cursos de imersão pagos pela câmara municipal como *capacitação profissional do gestor público*.
Às vinte e duas horas, no momento que havia sido cuidadosamente escolhid, depois do quinto prato, antes da sobremesa, quando o vinho já havia feito seu trabalho, mas a noite ainda estava inteira, Francisco subiu nos dois degraus do pequeno palco e pediu atenção.
Ergueu o copo.
— Brindo aos nossos amigos alemães — disse ele, e Herr Brandt inclinou a cabeça com a modéstia treinada. — Ao excelentíssimo governador do estado, que nos honra com sua presença. — O governador, fantasiado de Napoleão, levantou o copo. — Aos nobres vereadores desta casa, guardiões da vontade do povo. — Os vereadores levantaram os copos. — À lei, à ordem e aos bons costumes que sempre imperaram em Ataxerxes.
Pausa. Francisco sabia usar a pausa.
— A Deus, à Pátria e à Família.
Os copos erguidos. O sommelier pronto com a garrafa. O quarteto de cordas suspendendo a música no momento exato.
Às vinte e duas horas e dezessete minutos a parede cedeu sem aviso.
Não houve o barulho cinematográfico de uma explosão. Foi um som mais baixo e mais longo, um gemido de estrutura que se rende, e depois a água.
Não era água.
Era tudo que a cidade descartava e não queria ver. Dez anos de efluentes concentrados, dez anos de matéria orgânica em decomposição, dez anos do que sobra quando a vida se vive dentro de casas com encanamento. A onda que saiu da estação rompida tinha uma cor que os moradores do Barranco Vermelho viram antes de conseguir fugir, e o cheiro chegou antes da cor, e o som chegou antes do cheiro.
As primeiras casas eram as mais velhas do bairro, encostadas na borda do terreno da estação. Sebastiana, setenta e um anos, que havia chegado ao Barranco Vermelho em 1987 com o marido e três filhos pequenos e que havia visto o bairro crescer ao seu redor como uma planta ao sol, estava deitada quando a parede do quarto cedeu. Seu filho mais velho, que morava três casas abaixo, encontrou-a de manhã.
O menino Paulo, oito anos, estava na casa dos fundos brincando com o cachorro quando a onda chegou pelo corredor. O cachorro sobreviveu.
Outros não tiveram a sorte de estar nos fundos ou no andar de cima ou na rua quando aconteceu. O número de mortos seria disputado nos dias seguintes. A prefeitura diria seis, a oposição contaria onze, as famílias saberiam que eram mais, porque algumas pessoas simplesmente não voltaram e o rio levou coisas que ninguém queria nomear.
O que não foi disputado foi o rio.
O rio recebeu tudo. E o rio abastecia Ataxerxes e os três municípios rio abaixo. A interdição viria na manhã seguinte, tarde demais para as torneiras que já haviam sido abertas, cedo demais para muita coisa que havia deixado de existir.
No Clube Comercial, Francisco bebeu o vinho e ouviu os aplausos.
A sobremesa foi servida. Herr Brandt disse a Francisco, em inglês, que Ataxerxes era uma cidade com futuro, e Francisco traduziu para si mesmo como confirmação do que já sabia. O quarteto tocou uma valsa. Algumas máscaras foram retiradas porque atrapalhavam o comer. Sem as máscaras, os rostos ficaram iguais ao que sempre foram, os mesmos rostos de sempre, nas mesmas cadeiras de sempre, na mesma conversa de sempre que não tinha nome porque não precisava de nome, porque todo mundo sabia o que era sem precisar chamá-la de coisa nenhuma.
O celular de Francisco vibrou às vinte e duas e quarenta.
Era o secretário de obras. Francisco leu a mensagem duas vezes, guardou o celular no bolso da fantasia de Conde Drácula, pegou o copo e bebeu. Ficou um momento parado com o copo vazio na mão, olhando para a sala sem ver a sala.
Depois foi até Herr Brandt e disse que havia um imprevisto administrativo de menor importância, que não comprometia em nada os planos, que a reunião de amanhã continuava confirmada.
Herr Brandt disse que entendia. Disse que era assim, a gestão pública tinha suas surpresas.
— Exatamente — disse Francisco. — Suas surpresas.
Saiu às vinte e três horas. O motorista o levou não para o Barranco Vermelho, mas para a prefeitura, onde havia ligações para fazer antes que a noite terminasse. O advogado, o assessor de imprensa, o vereador que presidia a comissão de obras e que precisava ser avisado antes de ser perguntado.
Lá no Barranco Vermelho, as famílias que haviam perdido as casas dormiam onde conseguiam. Os bombeiros chegaram às onze e meia. A Defesa Civil às meia-noite. As câmeras de televisão, vindas de Chapecó, às duas da manhã, a tempo de filmar o amanhecer sobre as ruas cobertas de lama escura.
O rio corria para o sul, escuro e cheio, levando consigo coisas que a cidade havia descartado e que a cidade de baixo encontraria no dia seguinte.
Na manhã seguinte, Francisco apareceu no Barranco Vermelho às oito horas.
Sem fantasia, desta vez. Terno cinza, gravata escura, expressão de homem que não dormiu porque estava trabalhando. Havia jornalistas. Francisco falou para os jornalistas com a voz dos dias difíceis, que era diferente da voz da rádio de manhã e diferente da voz do brinde de ontem à noite, mas pertencia à mesma família. A família das vozes que Francisco usava para ocupar o espaço antes que outro o ocupasse.
— É uma tragédia — disse ele. — Estamos mobilizando todos os recursos do município. As famílias afetadas terão todo o apoio desta prefeitura.
Um jornalista perguntou sobre a manutenção da estação.
— Isso será investigado — disse Francisco. — Não vou especular antes de ter os fatos.
Outro perguntou sobre o relatório de 2018.
Francisco não soube, por uma fração de segundo, que havia um relatório de 2018. Recuperou-se rápido. Vinte anos de vida pública ensinam a recuperação rápida.
— Todas as documentações serão disponibilizadas à comissão de inquérito.
Atrás dele, a uma distância respeitosa, o secretário de obras ouvia e anotava. O advogado da prefeitura havia chegado antes dos jornalistas. O vereador da comissão de obras havia ligado de manhã cedo para dizer que estava a postos.
A máquina funcionava. Era o que as máquinas fazem; funcionam.
Nas ruas de lama do Barranco Vermelho, uma mulher lavava o que restava de uma fotografia de casamento com água de garrafa, porque a água da torneira estava interditada. A fotografia estava danificada além de qualquer recuperação, mas ela continuava lavando.
Francisco não a viu. Ou viu e não registrou, que é uma forma diferente de não ver.
O rio não fez distinção. Levou o esgoto da estação rompida com a mesma indiferença com que levava as chuvas de julho e as folhas de outubro e a terra que a margem soltava nos anos de seca. O rio não sabia de Francisco dos Reis nem de Herr Brandt nem da licença ambiental que ainda seria assinada nem do jantar de máscaras nem do brinde à lei e à ordem e aos bons costumes.
O rio sabia correr para o sul, e correu.
Em Palmares do Rio, trinta e dois quilômetros abaixo, os técnicos da estação de captação notaram a alteração na água às seis da manhã de sexta-feira. Interditaram o fornecimento às sete. Às oito, o prefeito de Palmares do Rio telefonou para Francisco dos Reis.
Francisco não atendeu pessoalmente. O secretário disse que o prefeito estava em campo, coordenando os trabalhos, e que retornaria assim que possível.
Em Palmares do Rio, em São Benedito do Rio e em Itapira do Sul, as torneiras foram fechadas. As escolas suspenderam as aulas. Os hospitais acionaram os protocolos de contingência. Caminhões-pipa foram solicitados ao estado. O estado disse que providenciaria.
O rio continuou correndo para o sul. Ele não tinha pressa. Tinha destino.
A reunião com os alemães aconteceu na sexta-feira, como planejado. Herr Brandt demonstrou sensibilidade pela situação. Disse que tragédias assim lembravam a todos a importância do desenvolvimento responsável. Disse que o grupo estava comprometido com as melhores práticas de gestão ambiental. O que era tecnicamente verdade, porque as melhores práticas disponíveis nos países onde o grupo operava eram diferentes das melhores práticas disponíveis nos países onde o grupo tinha sede, e Herr Brandt nunca havia afirmado que eram as mesmas.
O contrato foi assinado no final da tarde. Francisco assinou com a caneta de prata que havia ganhado quando assumiu o primeiro mandato, a mesma com que havia assinado a ordem de inauguração da estação de tratamento de efluentes do Barranco Vermelho dez anos antes. Era uma boa caneta. Escrevia com precisão.
Naquela noite, pela primeira vez em muitos anos, Francisco dos Reis não dormiu bem. Não era remorso. Francisco havia há muito estabelecido um acordo interior com a palavra remorso que a mantinha a distância suficiente para não incomodar. Era outra coisa, mais parecida com o desconforto de quem calcula e descobre que esqueceu uma variável.
De madrugada ele foi até a janela do quarto. A cidade estava quieta. Lá longe, na direção do Barranco Vermelho, havia ainda algumas luzes dos caminhões da Defesa Civil. Mais longe, invisível, o rio corria no escuro em direção ao sul. Francisco ficou olhando para as luzes por um tempo. Depois voltou para a cama. Amanhã havia uma coletiva às nove.
