Skip to content Skip to footer

O Tempo que o Amor Recusa

Tinha pouco mais de dez anos na primeira vez que li um livro sobre viagem no tempo. Já não me lembro o título. Só me lembro que era da coleção Vagalume e que o mundo, naqueles anos, cheirava à trilha sonora de De Volta para o Futuro. A imaginação de um menino não tem muito trabalho a fazer diante dessa combinação.

Muitas vezes me peguei pensando no que faria se pudesse voltar. A imaginação sempre me levava ao mesmo lugar: minha avó, morta de câncer quando eu tinha dois anos, de quem meu pai falava como se ela fosse a melhor pessoa que ele conhecera. Voltaria a um tempo antes da doença. Alertaria sobre aquelas azias que ninguém levou a sério. Talvez ficasse apenas por perto, observando.

Mais velho, aprendi o princípio da causalidade e toda ilusão cinematográfica de alterar o passado se dissolveu. Mas a pergunta ficou. Transformada. Se não podemos mudar o que passou, o que fazemos com ele? O que fazemos com o tempo que já foi?

Agostinho, no quarto século, fez a pergunta com uma precisão que parou o pensamento ocidental por séculos: o que é o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei. Se quero explicar, já não sei. Einstein, quinze séculos depois, demonstraria matematicamente que o tempo não é absoluto. Que é uma dimensão do contínuo espaço-temporal, que se dobra sob a gravidade, que corre em ritmos diferentes dependendo de onde você está. A física confirmou o que a filosofia já desconfiava: o tempo não é o palco neutro em que vivemos. É parte do que somos.

Mas antes de qualquer equação, há uma experiência. Nós não observamos o tempo de fora. Nós o atravessamos e ele nos atravessa de volta. Vemos suas marcas na nossa própria pele, nos traços de quem amamos, na estranheza de olhar uma fotografia antiga e reconhecer alguém que já não existe exatamente assim. O tempo é sempre mais visível nos outros do que em nós mesmos. E quando finalmente nos vemos com olhos de estranheza, já passamos.

Já inventamos a máquina do tempo. Não a que muda o passado. A que nos permite habitá-lo.

A memória e a saudade nos permitem visitar e sentir o que já foi. A esperança e o medo nos permitem vislumbrar o que ainda não chegou. Somos a única criatura que vive conscientemente nos três tempos ao mesmo tempo e é justamente essa distância entre o que fomos e o que podemos ser que forma aquilo que somos. A identidade não é um ponto fixo. É um arco. É a tensão entre a memória e a esperança.

Meu pai nunca conheceu a mãe que eu teria conhecido se ela tivesse vivido. Conheceu a que a memória dele guardou e foi essa que ele me transmitiu. Cada gesto de amor dela permaneceu nele de tal forma que chegou a mim como se fosse parte dele, não dela. O amor viajou no tempo. Não porque burlou a física, mas porque a memória é uma forma de presença. O que amamos com profundidade suficiente não desaparece inteiramente quando passa. Fica depositado nas pessoas que tocou.

Amar alguém é desejar que o tempo falhe. É uma resistência contra a entropia. Aquela lei implacável que diz que tudo tende ao desaparecimento, que toda ordem se dissolve, que toda estrutura se desfaz. O amor não nega essa lei. Mas a recusa. E nessa recusa há algo que não é apenas sentimental. Há uma afirmação metafísica sobre o valor do que existe.

Nossa angústia com o tempo nasce precisamente dessa tensão: desejamos permanência num universo inteiramente estruturado para o desaparecimento. Queremos que o que amamos dure. Queremos que as pessoas que nos formaram não se dissolvam completamente no esquecimento. Queremos que o que fizemos signifique algo depois que não pudermos mais explicar o que significava. Esse desejo é tão universal, tão constante ao longo da história humana, que é difícil tratá-lo como ilusão. Parece mais um sinal.

O maior gesto de amor da história foi, também, uma resistência contra o tempo e contra a entropia. Deus entrou no tempo. Não para escapar dele, não para observá-lo de fora, mas para dizer, de dentro, que o tempo e a entropia não terão a última palavra.

A Encarnação é o acontecimento mais radical da cosmologia cristã precisamente por isso. Não é apenas que Deus amou o mundo. É que ele o fez de dentro. Tornou-se sujeito ao tempo. Nasceu, cresceu, envelheceu no rosto e morreu. E ao morrer e ressuscitar, não aboliu o tempo. Fez algo mais perturbador: mostrou que o tempo pode ser atravessado em sentido contrário. Que o que passou não está simplesmente perdido. Que há uma eternidade que não é a ausência do tempo, mas sua plenitude.

É isso que a Igreja diz quando celebra a Eucaristia. Não que o sacrifício de Cristo seja renovado a cada missa, como se precisasse ser repetido, como se não tivesse sido suficiente. Mas que nós, no presente, participamos daquele mesmo sacrifício único, ocorrido numa sexta-feira específica, em Jerusalém, há mais de dois mil anos. O tempo se dobra. O passado se torna acessível não pela memória, mas pela presença real.

É uma afirmação filosófica tão audaciosa quanto teológica: que há um evento no tempo que está fora do alcance da entropia. Que não se dissolve. Que permanece disponível. Que o pão e o vinho não representam aquele momento. São o portal para ele. Se isso é verdade, então a missa não é uma comemoração. É uma máquina do tempo. A única que funciona de fato.

Penso nisso quando penso na minha avó. Não a conheço. Mas sei de seus gestos porque meu pai os carregou. E sei que se há uma lógica na qual o amor não perece inteiramente, se há uma estrutura da realidade em que o que foi amado continua de alguma forma sendo, então aquela mulher que morreu antes que eu pudesse ter alcançado a consciência, não está simplesmente no passado. Está em algum lugar que a física ainda não mapeou e que a fé chama de eternidade.

O tempo é o limite que mais sentimos. E talvez por isso o amor, que é o que mais produz resistência a esse limite, seja também o argumento mais honesto para a existência de algo além dele.

O que foi verdadeiramente amado não pertence inteiramente ao passado.

Deixe um comentário