A Cama Quentinha no Inverno

Trazia o Cadu da escola na hora do almoço quando ele começou a reclamar. Por que a escola tinha que ser tão difícil. Por que tudo exigia tanto esforço.

Primeiro eu ri. Porque ele não faz ideia das dificuldades reais que o esperam quando a escola tiver ficado para trás. E porque eu também, em outros tempos, pensei exatamente a mesma coisa. Depois respondi:

— Porque é a vida, meu filho. Ela é difícil mesmo. E porque tudo o que vale a pena é difícil mesmo.

Fiquei pensando nas minhas próprias palavras pelo resto do caminho. Disse aquilo quase no automático, como pai diz tantas coisas. Mas era verdade, e a verdade me alcançou depois de eu mesmo tê-la dito.

As coisas mais valiosas da vida exigem desconforto. Estudar, educar filhos, manter um casamento, construir uma carreira, escrever um livro. Nada disso floresce na lógica da gratificação imediata. Tudo pede que se suporte algum incômodo presente em nome de um bem que ainda não existe.

Durante quase toda a história humana, aliás, o conforto foi escasso. As pessoas lutavam contra a natureza, contra as doenças, contra seus iguais. O esforço físico extenuante não era uma opção; era a condição da sobrevivência. Construímos então, ao longo de séculos, uma civilização inteira para reduzir esse sofrimento. É uma conquista extraordinária. O problema começa quando esquecemos que o conforto era um meio e passamos a tratá-lo como o bem supremo.

Conforto é o que restaura. Comodidade é o que evita aquilo que faria crescer. Uma cama quentinha no inverno é coisa boa. Nunca querer sair dela é outra história. Às vezes me pergunto se boa parte da angústia contemporânea não nasce exatamente aí. Na linha tênue, quase imperceptível, em que o que servia para nos proteger passa a servir para nos aprisionar.

Há um ensinamento escondido no próprio corpo. Quem treina com seriedade sabe que músculo não cresce no conforto; cresce quando submetido à sobrecarga controlada, ao esforço que o leva um pouco além do que já consegue. O caráter, ao que tudo indica, funciona de modo semelhante. Coragem, disciplina, perseverança e paciência não se desenvolvem em ambientes que eliminam todo atrito. Surgem justamente porque há algo difícil a enfrentar.

Vivemos, no entanto, uma época em que quase todo o esforço coletivo se concentra em eliminar qualquer desconforto. Não se trata de condenar o descanso ou o entretenimento. O problema é outro: é perder por completo a capacidade de tolerar os desconfortos normais da existência.

O maior risco da vida confortável não é a preguiça. É a fragilidade. Porque quem nunca enfrenta as pequenas dificuldades tende a ser esmagado pelas inevitáveis grandes. E elas sempre chegam: doença, perda, fracasso, envelhecimento, luto. Nenhuma vida escapa.

Existe ainda uma versão moderna desse problema: a obsessão por otimizar tudo. Aplicativos, automação, atalhos, produtividade: tudo para reduzir esforço. Mas algumas coisas não admitem atalho. Você pode acelerar uma viagem. Não pode acelerar a maturidade. Não pode terceirizar o caráter. Não pode automatizar a sabedoria. Elas são, por natureza, lentas e a lentidão faz parte do que as torna verdadeiras.

E aqui mora o paradoxo mais cruel. A pessoa acredita estar livre porque eliminou as dificuldades. Mas, sem perceber, passa a depender da ausência delas. Precisa do clima ideal, do humor ideal, da motivação ideal, da condição ideal para agir. E então perde a capacidade de fazer o que precisa quando as circunstâncias não colaboram. O conforto, que parecia liberdade, revela-se dependência.

Não disse nada disso ao Cadu naquele dia. Ele tem catorze anos e não precisava de uma aula. Precisava de um pai que confirmasse que sim, é difícil mesmo, e que tudo bem que seja. Eu não quero poupar meu filho de toda dificuldade. Quero que ele saiba carregá-la sem desmoronar. É coisa diferente.

Porque a pergunta verdadeira nunca foi se devemos eliminar o desconforto. Foi sempre outra, mais incômoda: o que sobra do caráter quando o desconforto desaparece por completo? E a resposta, ao que parece, é sempre a mesma: menos resiliência, menos disciplina, menos gratidão, menos capacidade de suportar a própria vida quando ela, inevitavelmente, exigir esforço.

Tudo o que vale a pena resiste a quem o quer. É nessa resistência que o caráter aprende a forma de uma pessoa.

Deixe um comentário