O Que a Familiaridade Apaga

Hoje pela manhã minha esposa me mandou uma mensagem sobre uma despesa alta e inesperada.

— Estou tendo um troço, Wallison.

— Calma. Vamos resolver.

Minutos depois, lembrei. Uns dez dias antes, eu havia conseguido encerrar um problema financeiro que drenava parte da nossa renda todo mês. Tinha planos para o dinheiro que sobraria. Planos que ainda não tinha colocado em prática. E a nova despesa, que se arrastaria por alguns meses, encaixava-se com precisão exata no espaço que havia acabado de abrir.

Meus planos serão adiados. Só isso.

Não tenho do que reclamar. E não digo isso de forma performática. Em nossa vida, as coisas quase sempre acontecem assim. A porta se fecha de um lado e, sem alarde, já havia se aberto do outro. Não tenho muito. Mas sou grato pelo que tenho.

Vivemos numa cultura construída sobre o desejo. E o desejo depende, por definição, da sensação contínua de falta. Sempre existe um salário maior a alcançar, uma casa melhor a construir, um carro mais novo a comprar, uma viagem mais bonita a fazer. Sobretudo, uma versão mais bem-sucedida de nós mesmos a perseguir.

A economia precisa disso. As redes sociais amplificam isso. E a consequência é previsível: aprendemos a desejar muito antes de aprender a agradecer. A falta vira o estado natural; a suficiência, uma exceção suspeita.

A gratidão não é um sentimento. É uma forma de enxergar.

Duas pessoas podem viver exatamente a mesma realidade. Uma vê o que falta; a outra vê o que existe. Ambas observam os mesmos fatos, mas habitam mundos emocionais completamente diferentes. Às vezes me pergunto se a diferença entre uma vida amarga e uma vida em paz não é outra coisa senão esta: para onde os olhos se voltam primeiro.

É preciso desfazer um mal-entendido. Gratidão não é conformismo. Muita gente as confunde, como se agradecer significasse dizer que está tudo ótimo como está. Não é. Uma pessoa pode querer crescer, melhorar e conquistar mais e ainda assim ser profundamente grata. A diferença é que ela não vive a partir da carência. Vive a partir da abundância que já existe.

Existe um fenômeno psicológico curioso: aquilo que um dia foi sonho rapidamente vira normalidade. A casa desejada. O carro desejado. O emprego, o casamento, o filho. Todos, um dia, objetos de desejo intenso. Pouco tempo depois de conquistados, desaparecem do campo da consciência e passam a ser tratados como dado adquirido. A gratidão interrompe esse processo. Devolve visibilidade ao que a rotina tornou invisível.

Há uma forma de ingratidão muito elegante. Ela não reclama; apenas ignora. Ignora os afetos, as oportunidades, os pequenos confortos, porque está permanentemente voltada para o próximo objetivo. É a pessoa que vive em estado de “quando eu alcançar aquilo, finalmente…” Mas o finalmente nunca chega, porque a linha de chegada não para de se mover.

Por isso o contrário da gratidão não é a reclamação. É o esquecimento. O esquecimento de tudo o que se alcançou e de tudo o que se deve a outros para tê-lo alcançado. Porque ninguém constrói a própria vida sozinho. Por trás de qualquer trajetória existem pais, professores, amigos, colegas, desconhecidos que contribuíram de algum modo. A gratidão combate, assim, uma das ilusões mais teimosas do nosso tempo: a fantasia da autossuficiência.

Vale uma ressalva, porque hoje existe até uma pressão para parecer grato. Mas gratidão verdadeira não é postagem, não é discurso, não é ritual obrigatório. Ela é silenciosa, muitas vezes invisível, e aparece mais em atitudes do que em declarações. Pessoas genuinamente gratas reclamam menos, exigem menos, invejam menos, consomem menos e ressentem-se menos, porque desenvolveram a capacidade de perceber valor no que já possuem.

Volto à despesa inesperada desta manhã. Eu poderia tê-la lido como mais uma falta. Mais um plano adiado, mais uma coisa que não tenho. Mas o dinheiro estava lá porque, dez dias antes, um peso havia saído das nossas costas. O que me parecia perda era, vista de outro ângulo, a prova de um alívio recente que eu já estava prestes a esquecer.

É isso que a gratidão faz. Não muda os fatos. Muda qual deles você vê primeiro. E talvez seja essa, hoje, uma das formas mais silenciosas de resistência. Recusar a lógica da insuficiência permanente, que nos quer sempre famintos, sempre adiando o instante em que finalmente seria possível dizer: basta, já é o suficiente.

A gratidão não cria o que falta. Reconhece o que a familiaridade havia apagado.

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