Outro dia vi um post curioso no Instagram. Pais de uma escola particular reuniram-se com a direção para reclamar: deveres demais, trabalhos demais, compromissos demais. Argumentavam que não tinham tempo para acompanhar tantas tarefas, afinal, ensinar era função dos professores, não deles. Queriam, em resumo, que a escola parasse de invadir suas casas com livros e cadernos.
A direção, com a solenidade de quem equilibra pratos de porcelana, escutou, anotou e convocou os professores. Depois, enviou aos pais um bilhete cortês: aceitariam não mandar atividades para casa, já que, como diziam, dever de casa é trabalho do professor, não dos pais.
Mas a réplica dos mestres foi memorável: aceitariam a trégua, contanto que os pais também não mandassem para a escola crianças rudes, agressivas e mal-educadas. Afinal, educar — no sentido de formar caráter, respeito e limites — era trabalho da família, não dos professores.
Divertido, sim. Reconfortante, talvez. Mas por trás da ironia, o episódio expõe um divórcio mal explicado: a crença de que ensinar e educar podem viver em casas separadas. Como se fosse possível ensinar álgebra sem transmitir disciplina, ou educar para a vida sem recorrer a algum saber do mundo.
Platão chamava isso de paideía e não via fronteiras entre o intelecto e a formação moral. Séculos depois, foi a modernidade — com seu racionalismo fabril e utilitarista — que instituiu a separação: à família, caberia educar; à escola, ensinar. Inventamos, assim, duas metades artificiais que nunca se encontram.
O problema é que as crianças continuam inteiras. Crescem entre pais que terceirizam ensino e professores que insistem que ética se aprende somente em casa, acreditando que a vida se divide em disciplinas: matemática de um lado, caráter do outro. Esquecem que todo ensino educa, e toda educação ensina.
A resposta dos professores soa como um meme bem construído. Mas, no fundo, denuncia nossa miopia coletiva. O que precisamos não é de acordos sobre quem faz o quê, mas de coragem para reconhecer que estamos no mesmo barco. E que barco frágil seria este, se cada um só remasse para um lado.
