“Cada povo tem o governo que merece.”
A frase do conde Joseph-Marie de Maistre soa cruel, sobretudo quando observamos o Brasil contemporâneo. No entanto, há nela uma verdade desconfortável: afinal, de onde vêm nossos governantes, senão do próprio povo?
É claro que, na prática, muitos deles não emergem das camadas mais humildes. Ainda assim, é curioso notar como alguns líderes que se apresentam como “filhos do povo” — orgulhosos de suas origens simples — acabam, tantas vezes, se aliando às mesmas elites corruptas que há séculos parasitam o país.
Mas esta não é uma reflexão sobre política partidária. É, antes, uma questão filosófica e ética. A pergunta central é:
É possível construir uma sociedade realmente justa e bem-sucedida sem indivíduos virtuosos?
Se a resposta é “não”, então acreditamos que a ética precede a lei — que o bem não nasce do medo da punição, mas do caráter. Nesse sentido, o verdadeiro desenvolvimento de uma nação está indissociavelmente ligado ao desenvolvimento moral de seus cidadãos.
Sem virtudes pessoais — como domínio de si, temperança, honestidade e prudência — qualquer estrutura social tende à ruína. Leis e instituições podem organizar, mas não redimir. Um povo sem virtude pode até eleger bons governantes, mas cedo ou tarde os corromperá; já um povo virtuoso, mesmo sob leis imperfeitas, encontrará caminhos para o bem comum.
Não sou ingênuo a ponto de crer que uma sociedade de homens virtuosos será livre do mal. Por isso, as leis continuam necessárias — não como substitutas da moral, mas como limites para os que não possuem freios éticos. Elas existem para conter a maldade daqueles cuja consciência não é capaz de fazê-lo.
Quando, porém, as leis deixam de coibir os maus e passam a servir-lhes de abrigo, abre-se o terreno para toda sorte de atrocidades. É então que a sentença de De Maistre volta a soar verdadeira:
Cada povo, em sua mediocridade ou grandeza moral, forja o governo que o representa.
