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O Tempo das Ideias

Outro dia, às sete em ponto, o alarme do meu celular gritou como se fosse o apito de uma fábrica imaginária. Não importava se eu já estava acordado, pensando no trabalho desde as quatro e meia; para o mundo oficial, meu expediente começaria só naquele instante.

O relógio de ponto é assim: só enxerga o tempo que cabe na sua moldura. É herdeiro de séculos de disciplina sobre o nosso dia — dos sinos medievais que chamavam os monges para oração aos apitos das fábricas que, na Revolução Industrial, ajustavam corpos ao ritmo das máquinas. Na Idade Média, esse controle ainda se misturava ao compasso da vida comunitária; no século XIX, virou uma contagem implacável, segundo a segundo.

E aqui estamos, no século XXI, ainda carregando esse artefato como se estivéssemos diante de um tear mecânico. A diferença é que, no meu caso — e no de tantos outros —, o tear é a própria mente. E a mente não trabalha no compasso do relógio: precisa de silêncio, pausas, distrações produtivas, cafés demorados e até de uma noite mal dormida para, no dia seguinte, fazer sentido.

O relógio de ponto não quer saber disso. Ele quer minutos, alinhados e justificados, como tijolos empilhados até completar a parede da jornada. E assim, muita gente passa a fingir presença: abre e fecha e-mails, produz planilhas que não vão a lugar nenhum, comparece a reuniões só para sinalizar que está “ali”.

Curioso é que hoje temos tecnologia para medir entregas, resultados e impacto real. Ainda assim, insistimos em medir a temperatura da cadeira. Talvez seja medo de perder o controle, talvez seja vício herdado do apito da fábrica. Só sei que, enquanto o tempo das ideias for tratado como tempo de máquina, continuaremos sacrificando saúde e criatividade para satisfazer um relógio que não sabe contar pensamentos.

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