A cena se repete em lares pelo mundo: um adolescente, caderno aberto, testa franzida, olha para o pai e dispara a pergunta que ecoa desde tempos imemoriais:
— Para que isso vai servir na minha vida?
No caso, a “isso” era a fórmula de Bháskara, mas poderia ser qualquer capítulo de química, regra gramatical ou evento obscuro da Idade Média.
Na maioria dos dias, a resposta paterna era curta, prática e irritante:
— Para a prova.
Mas houve um dia em que o humor estava favorável e a inspiração, à espreita. Então, a resposta veio carregada de sentido:
— É pra você ser uma pessoa melhor.
Vivemos uma época em que o conhecimento é julgado como mercadoria. Serve para quê? Gera lucro? Traz retorno rápido? Se a resposta for “não”, ele é descartado. É um pensamento recente, moderno até demais, e que talvez explique o empobrecimento cultural que nos cerca.
Imagine se os construtores das catedrais medievais pensassem apenas na função: erguer paredes e teto para proteger da chuva. Não teríamos Notre-Dame, nem Chartres, nem tantas obras que inspiram até hoje. Teríamos galpões, funcionais, baratos e sem alma.
A educação não é um manual de instruções para ganhar dinheiro. É, antes de tudo, o mecanismo que a humanidade encontrou para guardar e replicar seu conhecimento, espalhando cópias redundantes como um servidor que protege dados críticos. É o que nos permite revisitar erros, celebrar acertos e entender o que nos tornou — ou nos afastou de ser — humanos.
Estudar matemática não é decorar fórmulas: é treinar o raciocínio lógico. Gramática não é um castigo: é afiar a capacidade de comunicar e compreender. História não é um álbum de curiosidades: é um espelho onde se vê o passado e, com sorte, se evita repeti-lo.
O problema é que, nas últimas décadas, estudar deixou de ser visto como caminho para se tornar melhor. Passou a ser visto apenas como passaporte para um bom emprego. E, ironicamente, com as novas carreiras digitais — de influenciadores a operadores de dropshipping — até essa justificativa perdeu força.
Se estudar não dá dinheiro, muitos concluem que não vale a pena. E se não vale a pena, para que perder tempo? A lógica é implacável. O futuro, incerto.
Enquanto isso, a fórmula de Bháskara continua ali, no quadro da sala de aula, aguardando o próximo adolescente a perguntar:
— Para que isso vai servir?
