27 de julho de 2007. Um baile chamado Happy Days, a trilha sonora certa para o gesto certo: “Can’t Take My Eyes Off You” tocando enquanto eu pedia Luciane em namoro. Em algumas semanas completamos dezenove anos juntos. Quando olho para aquela cena hoje, ela parece distante. Quase pertencente a outras duas pessoas. E pertence,…
Todo domingo acordo antes dos outros. Há uma ordem nisso que ninguém estabeleceu em voz alta, mas que se fixou como lei: a semana é corrida, o sábado pertence às tarefas da casa, e o domingo de manhã é nosso. Acordo mais cedo, pego o pão de queijo que preparei antes, acendo o forno, passo…
Tinha pouco mais de dez anos na primeira vez que li um livro sobre viagem no tempo. Já não me lembro o título. Só me lembro que era da coleção Vagalume e que o mundo, naqueles anos, cheirava à trilha sonora de De Volta para o Futuro. A imaginação de um menino não tem muito…
Otávio ficou parado no vão da porta por um tempo que não soube medir. A secretaria estava vazia. Não apenas desocupada. Vazia de um modo mais fundo, como se o silêncio tivesse substância, como se pudesse ser tocado. As cadeiras no lugar. As prateleiras ainda com as pastas, finas demais para o que já foram.…
Não sou do tipo emotivo. Não tenho lembranças que chegam de súbito e me fazem parar no meio de uma calçada, com os olhos marejados e uma explicação impossível para dar a quem passa. Talvez até inveje quem seja assim. Só não sou.
Mas, de vez em quando, acordo pensando na minha avó.
Faz catorze…
Há uma pergunta que atravessa silenciosamente tanto a física quanto a teologia, ainda que raramente seja colocada com a devida crueza: se o tempo já existe como totalidade (se passado, presente e futuro coexistem numa única estrutura) o que exatamente significa ser livre?
Não cheguei a essa pergunta por um caminho acadêmico. Cheguei por uma…
Eu tinha quarenta anos quando isso aconteceu. Estava num açougue, numa daquelas conversas sem destino que se travam com o proprietário enquanto ele corta a carne. Um senhor que estava ali perto resolveu participar. Em algum momento soltei minha idade. O homem olhou para mim com espanto genuíno e disse: jurava que você tinha uns…
Sabe aquelas lembranças que o Google Fotos insiste em nos devolver como se dissesse: “Olhe o que você não viu passando”?
Outro dia apareceu um réveillon de 2022, em Búzios. Nem faz tanto tempo. Mas a fotografia denunciava outra cronologia. Meu filho tinha dez anos. Era nitidamente um menino. Mais baixo que a mãe. Rosto…
Outro dia, às sete em ponto, o alarme do meu celular gritou como se fosse o apito de uma fábrica imaginária. Não importava se eu já estava acordado, pensando no trabalho desde as quatro e meia; para o mundo oficial, meu expediente começaria só naquele instante.
O relógio de ponto é assim: só enxerga o…
