No último domingo, enquanto o Brasil se revestia de azul para celebrar Nossa Senhora da Conceição Aparecida, lá em Roma o Papa Leão XIV falava à multidão reunida na Praça de São Pedro. Era a Missa do Jubileu da Espiritualidade Mariana. E, como costuma acontecer com esse pontífice, suas palavras atravessaram o Atlântico e se alojaram fundo em meu pensamento.
Disse o Papa algo que me pareceu não apenas oportuno, mas urgente: a fé tem sido instrumentalizada. E o que ele quer dizer com isso? Que, muitas vezes, a religião — esse território que deveria ser de encontro, acolhimento e transformação — tem se tornado um instrumento de poder, uma ferramenta usada para construir muros, e não pontes.
O exemplo escolhido por ele é o do estrangeiro Naamã, o general sírio coberto de medalhas, mas ferido pela lepra. Um homem que trazia armaduras por fora e chagas por dentro. Naamã chega ao profeta Eliseu com ouro e prata, disposto a comprar a graça que, por definição, é gratuita. É um personagem que se parece demais com o nosso tempo: envolto em títulos, blindagens e certezas, mas profundamente necessitado de cura.
O Papa lembrou que Jesus, ao contrário de Naamã, não usa armaduras — nasce e morre desnudo. E é nesse despojamento que está o verdadeiro poder da fé. Quando a fé se reveste de metal, perde o calor humano; quando se torna instrumento, deixa de ser encontro.
Pensei então no Brasil. E percebi que essa instrumentalização da fé não é coisa nova entre nós. Desde os tempos coloniais, a religião serviu a projetos de poder — coroando monarcas, justificando conquistas, silenciando vozes. E se olharmos em volta, veremos que pouca coisa mudou. Ainda há quem use o nome de Deus como moeda de troca, quem transforme igrejas em currais eleitorais, quem negocie o sagrado em troca de favores, votos e aplausos. A fé, nesse caso, vira ferramenta — e como toda ferramenta, pode ferir quando mal usada.
Mas o que me espanta é algo mais sutil: ver católicos eruditos, formados na tradição da Igreja, defenderem teorias políticas e econômicas abertamente contrárias ao Evangelho, justificando-as com argumentos piedosos. É como se Naamã, mesmo curado, insistisse em vestir de novo sua armadura.
E então vem o antídoto que o Papa nos oferece: a espiritualidade mariana. Maria não usa couraças nem títulos. Ela se oferece, confia, serve e guarda silêncio. Sua fé não é instrumento; é entrega. Enquanto Naamã chega com ouro e prata para comprar a cura, Maria se entrega de graça — e é por meio dessa entrega que Deus age no mundo.
Há uma lição profunda aí: a verdadeira fé é desarmada, gratuita e confiante. Não precisa de palanque, nem de propaganda. Basta o “sim” de uma mulher que acredita que a misericórdia de Deus é maior do que qualquer império.
Talvez o caminho de cura para a nossa sociedade seja esse mesmo: despir-nos das armaduras ideológicas, devolver à fé sua gratuidade, reaprender com Maria o silêncio que escuta e o serviço que transforma. Porque quando a fé deixa de ser instrumento, ela volta a ser o que sempre deveria ter sido: um encontro com o Deus que habita no outro.
