Eu me chamo Hans Albrecht Krüger. Mas aqui, neste país de calor sufocante e olhares desconfiados, sou apenas Henrique Krüger de Almeida, engenheiro civil a serviço da Usina Getúlio Vargas, em Volta Redonda.
Faz dois anos que vivo nos alojamentos do distrito de Santo Antônio da Volta Redonda, uma fileira de casas simples para técnicos e engenheiros. O barulho das britadeiras, o chiar dos trilhos, o cheiro do pó de ferro impregnado na pele — tudo isso faz parte da minha rotina. Oficialmente, vim ajudar a erguer a primeira grande usina siderúrgica da América do Sul. Mas, na realidade, estou aqui para colher informações.
Anoto em cadernos cifrados a origem das máquinas, o ritmo da construção, as futuras rotas de transporte do carvão e do minério. Uma vez por mês, pego o trem para o Rio de Janeiro. Nos parques, disfarçados entre famílias e casais de domingo, encontro os contatos que transmitem as mensagens codificadas para Berlim.
Nos fins de semana, quando não viajo, vou até Barra Mansa para misturar-me aos locais. Aprendi que, no jogo da invisibilidade, é melhor não parecer solitário. No Cine Teatro Éden, assisto aos filmes americanos que exaltam os heróis da guerra. Engulo o riso amargo e aplaudo com os outros, como se fosse um deles.
Foi lá que conheci Isabel Azevedo. Cabelos escuros, olhar vivo, sorriso que desarma qualquer máscara. Mora na Rua Eduardo Junqueira, filha de um comerciante respeitado. Aproximou-se de mim por acaso, numa tarde em que a projeção atrasou. Falamos de cinema, de música, de livros. E, sem perceber, comecei a falar menos de aço e mais de sonhos.
Com Isabel, descubro o que significa viver no fio da navalha. Cada encontro é um perigo, mas também um alívio. Ela me arranca da sombra em que me escondo. Por vezes, penso em confessar-lhe quem sou, mas recuo. Como dizer a uma brasileira que seu amante serve à máquina de guerra que afunda navios de seu país?
O DOPS começou a me seguir. Sinto os passos atrás de mim quando caminho até a estação. Vejo homens de chapéu parado nas esquinas, fingindo ler jornais. Sei reconhecer o caçador pelo silêncio. Mas mantenho o disfarce.
No último domingo, Isabel me acompanhou até a Estação de Barra Mansa. O trem apitava ao longe, anunciando a viagem ao Rio. Eu carregava comigo as anotações sobre a capacidade da usina, um relatório valioso. Isabel, alheia ao peso do que eu trazia no bolso, segurava minha mão.
— Volte logo — disse ela, sorrindo.
Foi quando vi dois homens se aproximando, passo firme, olhar fixo. O DOPS.
Meu coração disparou. Apertei a mão de Isabel e corri. Ouvi seu grito atrás de mim, mas já não havia volta. Avancei em direção ao Parque Centenário, tentando despistá-los. Vi a linha do trem à frente, pensei em cruzar antes que a locomotiva chegasse.
Corri. Corri como se a vida dependesse daquilo — e dependia.
Mas calculei mal.
O ferro rugiu, o apito cortou o ar, e o mundo tornou-se apenas luz, barulho e dor.
Nos últimos segundos, antes do impacto, vi o rosto de Isabel entre a multidão da estação. Os olhos arregalados, a mão estendida, o grito sufocado.
Pensei que morreria como Henrique, o engenheiro brasileiro. Mas não. No fundo, morri como Hans Krüger, o espião que nunca deixou de ser estrangeiro nesta terra.
A guerra não perdoa amores impossíveis.
