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O Peso Invisível das Palavras

Escrever, para mim, nunca foi um fardo. É quase um gesto natural, como respirar fundo diante de uma lembrança ou deixar escapar um suspiro depois de um sonho. Palavras me servem de espelho e também de remédio: nelas, reconcilio-me com o passado e risco, à mão livre, esboços do futuro. A escrita é o lugar onde as dores se ajeitam e encontram repouso.

Mas há sempre um fantasma à espreita — a dúvida. Não sobre o ato de escrever, mas sobre o valor daquilo que escrevo. O perfeccionismo tem esse dom cruel: transforma a satisfação em obsessão. O romance que escrevo exige de mim não apenas horas, mas certezas que nem sempre possuo. Foram quinhentas horas, calculadas e registradas como se eu pudesse, com números, medir a grandeza ou a fragilidade de uma obra.

E, no entanto, mesmo diante das leituras, das pesquisas, das viagens aos lugares sobre os quais escrevi, a pergunta insiste em retornar: será que minha história e meus personagens tem a coesão e a coerência que merece? Há dias em que sinto que minhas antigas professoras de redação me aplaudiriam de pé; noutros, penso em apagar tudo e recomeçar do zero, como quem desmancha um bordado para tentar refazer o desenho.

A insegurança, percebo, não é apenas companheira do escritor; é, em certo sentido, o que o mantém desperto. É ela que nos obriga a revisar, a duvidar, a procurar no olhar do outro a confirmação de que o que criamos não nasceu apenas para nós. A opinião da esposa, doce e sincera, é vital, mas tem o afeto de mãe — e o amor, por mais profundo, às vezes nos cega. Preciso da distância, do julgamento frio e técnico de quem não me deve nada além da verdade.

Talvez haja razão nas palavras de Pierre Bourdieu: a consagração só acontece quando atravessa distâncias, quando a obra alcança o outro lado, onde não há vínculos afetivos, mas apenas a força da obra em si. Talvez por isso eu escreva: para que minhas palavras caminhem sozinhas, sem a mão que as escreveu, e descubram por si mesmas se têm fôlego para permanecer.

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