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Cuidado e Preconceito

A vida de diretor escolar tem seus momentos interessantes — e às vezes surpreendentes — para além dos papéis e reuniões. Um desses momentos foi quando eu e a orientadora recebemos a visita da mãe de uma excelente aluna do terceiro ano.

A menina, de uma família protestante bem estruturada, era disciplinada, estudiosa e gentil. Embora tímida, mostrava-se sociável e bastante inteligente. Por isso, fiquei intrigado com o motivo da visita.

A mãe, visivelmente constrangida, trouxe uma reclamação que me deixou desconcertado. Contou que a colega de turma da filha, com quem ela sentava na sala, tinha conversas “muito pesadas para a idade”. Preocupado, perguntei que tipo de conversas. A mãe, quase horrorizada, respondeu que a menina dizia ser lésbica — e pedia que eu as separasse.

Procurei acalmá-la, dizendo que faríamos o possível para preservar o bem-estar da filha. E, como pai, compreendi sua apreensão. Longe de criticá-la, a situação me provocou uma reflexão sobre a gênese da intolerância dentro das famílias.

É legítimo que os pais se preocupem com quem seus filhos convivem — ainda mais na infância. Mas, às vezes, percebo que há um medo irracional, quase místico, de que pessoas homossexuais emitam uma espécie de “radiação gay”, capaz de influenciar os outros à sua volta. Como se a simples convivência pudesse “contaminar” alguém. Entendo o medo, mas sei que ele não tem base alguma na realidade.

No caso daquela menina, provavelmente ela nem compreendia plenamente o que significava ser lésbica. Talvez admirasse alguém de sua convivência — uma parente, uma figura pública — e, por afinidade, quisesse se identificar com ela.

Expliquei à mãe que, embora pudesse atender ao pedido de separá-las, não poderia intervir na convivência sob esse pretexto. Isso dizia respeito à educação familiar, não à disciplina escolar.

E então, buscando um caminho de diálogo, lancei-lhe um desafio na linguagem dela:
— “Ora, sua filha é muito bem educada. A senhora deve confiar na educação que deu. Quem sabe a convivência com a colega não a influencie… a um bom comportamento?”

Foi minha forma de tentar lançar luz sobre a situação — de mostrar que o contato com o diferente é, muitas vezes, o que ensina o verdadeiro sentido do respeito.

Não sei se a semente germinou. Semanas depois, soube que a colega havia pedido transferência.

Fiquei com a sensação amarga de que, às vezes, mesmo quando a escola abre uma janela para o diálogo, o medo ainda insiste em fechar as cortinas.

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