Há algo de doce e silencioso no final de ano de uma escola. Mesmo quando alguns alunos não alcançam os objetivos e a retenção pesa como um suspiro inevitável, essa estação sempre parece coroar o que foi feito — o possível, o imperfeito, o humano. É como se, no fim, o trabalho insistisse em florescer apesar das condições que tentam contê-lo.
Em mais de vinte anos dedicados à educação, passei apenas cinco mergulhado no coração vivo da escola. O último ciclo — de 2021 a 2024 — continua reverberando em mim mesmo depois de encerrado, talvez porque ali eu tenha sido diretor, primeiro adjunto, depois geral, mas sobretudo aprendiz.
2021 foi um ano de desassossego. Minha ida para a escola acontecera como quem muda de caminho numa curva inesperada — após dezesseis anos na SME, senti que aquela escolha, embora minha, me chegava quase como uma convocação silenciosa. Carregava parte da carga horária ainda na Secretaria; por isso, a escola parecia provisória, uma casa de passagem. Só depois descobri que, embora parecesse temporária, ela me escolhera para ficar o tempo suficiente.
Assumi ao lado de um amigo que se tornara diretor geral. No início, fiz o que precisava ser feito, mais por obrigação do que por desejo. Mas a história tem o delicado hábito de surpreender: aos poucos, a escola me conquistou — primeiro pelos professores, depois pelas rotinas, e por fim, de forma definitiva, pelas crianças.
E eu sei exatamente quando a mudança se operou. Sei o instante em que me apaixonei por estar ali, quando deixei de ser apenas diretor e passei a ser alguém feliz naquele lugar. Foi, como não poderia deixar de ser, no fechar de um ano. Um daqueles momentos que mexem nas placas tectônicas da alma, rompendo certezas que julgávamos inabaláveis.
Aconteceu durante a Cantata de Natal — que mais tarde se tornaria tradição, tecida pelas mãos generosas de duas professoras e pela música de um colega que depois seria meu adjunto. Foram elas que me jogaram o desafio: vestir-me de Papai Noel. Não por meu porte, que à época era até mais modesto, mas porque a fantasia só cabia em mim. Aceitei com certa vergonha, como quem se vê voluntário de um rito que não sabe interpretar.
Eu, tão pouco teatral, tão pouco dado às formas clássicas de ternura, especialmente com crianças. Sempre fiz mais o tipo austero — o pai de um único filho para quem me derretia sem pudor. Mas ali, chamado pelas duas professoras, vesti o traje rubro e deixei o racional de lado, quase como se abrisse mão de uma armadura.
E foi então que a magia aconteceu.
Quando entrei no palco, o afeto das crianças — não por mim, mas pelo mito que eu encarnava — encontrou algo em mim que eu desconhecia. Algo que talvez estivesse adormecido há anos, esperando um gesto simples para despertar. Nesse instante, compreendi o que nunca haviam me dito com clareza: educar é também deixar-se tocar, é permitir que a emoção componha o que a razão sozinha não sustenta.
Aquele momento me ganhou sem aviso. Descobri uma parte de mim que eu não sabia possuir — e da qual, desde então, nunca mais quis me afastar.
