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O Palpite e o Silêncio

Chegará o dia em que será considerado falta de educação — talvez até um sinal de ignorância — dar palpite em assunto que não se entende. Nesse futuro, não muito distante (ou talvez distante demais), as pessoas pensarão duas vezes antes de abrir a boca — ou o teclado. Não por medo de errar, mas por respeito ao silêncio e à inteligência alheia.

Mas, por enquanto, estamos presos à era do palpite. A época dourada dos especialistas de tudo e doutores de nada. O sujeito assiste a um vídeo de trinta segundos e se sente pronto para discutir física quântica, teologia medieval e política internacional — tudo no mesmo parágrafo, com a mesma segurança de quem fala sobre o tempo.

As redes sociais viraram uma grande feira de opiniões, onde cada um expõe o que tem de mais valioso: a própria certeza. E, como em toda feira, o barulho é tanto que ninguém escuta ninguém. Só se fala, se responde, se rebate. A conversa virou um campo de batalha onde vence quem grita mais alto ou ironiza melhor.

O curioso é que nunca tivemos tanto acesso à informação, e nunca fomos tão superficiais. É como se a abundância tivesse nos deixado famintos — de sentido, de prudência, de humildade. Falta-nos o gesto simples de admitir: não sei. Essa frase, que deveria ser o início da sabedoria, hoje soa como vergonha.

Há quem diga que isso é o preço da liberdade: todos podem falar, logo todos falam. Talvez. Mas liberdade sem discernimento é apenas ruído — e o ruído é o contrário do diálogo.

Sonho com o dia em que o silêncio voltará a ser sinal de inteligência. Quando não saber será mais honesto do que fingir saber. Quando as palavras recuperarão o peso que perderam na enxurrada das opiniões instantâneas.

Até lá, seguimos suportando — e tentando, com alguma paciência, separar as vozes que pensam dos ecos que apenas repetem.

E quem sabe, um dia, antes de postar, alguém pergunte a si mesmo:
“Entendo mesmo do que estou falando — ou só quero ser ouvido?”

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