Se há algo que me incomoda profundamente é ver uma pessoa ser desqualificada por suas ideias. Não me refiro àquelas ideias que revelam crueldade ou desonestidade — essas se condenam por si mesmas. Falo daquelas que apenas discordam do pensamento dominante, das opiniões que ousam seguir outro caminho, das vozes que não ecoam com o coro.
Outro dia, rolando o feed do Instagram, encontrei um vídeo de “react”. O rapaz, que costumo acompanhar, dizia com convicção: “Vou te provar que o pensador fulano de tal não é sério.”
E lá foi ele, linha por linha, desmontando os argumentos do outro — não para debatê-los, mas para anular o homem por trás deles. Curioso é que, no fim, percebi que eu mesmo discordava de muitas ideias do tal pensador. Mas nunca me passou pela cabeça chamá-lo de “não sério”. Ele apenas pensa diferente — e pensar diferente não é crime, é condição de existência.
Acho que o grande problema é essa ânsia moderna de vencer o outro, e não de compreendê-lo. As redes sociais, com seus palcos e plateias invisíveis, transformaram o diálogo em duelo. Já não se conversa: se performa. Cada um busca aplauso, não entendimento.
Sinto falta do tempo em que uma divergência terminava com um “interessante o seu ponto de vista” e não com um “você está cancelado”. Hoje, parece que a empatia foi substituída por curtidas, e a sabedoria, por certezas gritadas.
Há momentos em que penso que abrimos uma caixa de Pandora digital. Dela saíram os piores demônios da convivência: o narcisismo, a vaidade travestida de virtude, o prazer de destruir reputações. E mesmo que ainda reste a esperança — como no mito —, ela parece cada vez mais escondida entre os destroços do algoritmo.
Mesmo assim, eu quero acreditar que pensar ainda vale a pena. Que o contraditório ainda tem seu lugar. Que podemos discordar sem nos desumanizar. Talvez o mundo nunca mais volte a ser o mesmo, e talvez seja melhor assim — quem sabe o caos que vivemos hoje seja apenas o parto doloroso de uma nova forma de convivência, menos vaidosa, mais real.
E, enquanto isso não chega, sigo aqui: ouvindo, discordando, e — acima de tudo — tentando não desqualificar ninguém por pensar diferente. Porque é do contraste das ideias que nasce a luz.
