Como já é sabido de alguns, meu romance Rios de Sangue e Ouro está em uma fase importante: a leitura crítica. É o momento de lapidar o texto, de aparar as arestas e fazer com que cada palavra cumpra seu papel. O objetivo é simples e ambicioso ao mesmo tempo — entregar ao leitor a melhor versão possível daquilo que nasceu entre sonho e exaustão.
O que nem todos sabem é que escrevi Rios de Sangue e Ouro de trás pra frente. Comecei pelas histórias posteriores ao drama e às aventuras de Joaquim Gonçalves de Toledo, e acabei me perdendo — ou me encontrando — em quase duas mil páginas de uma saga familiar. Não sei se tudo isso um dia virá a ser publicado, mas cada linha pertence ao mundo que criei para Joaquim. Um mundo que, de algum modo, continua a pulsar mesmo quando não escrevo.
Foi enquanto habitava esse universo que uma ideia inconveniente começou a rondar meus pensamentos: uma história de espionagem ambientada no Estado Novo. Um mundo completamente diferente, com outros sons, cheiros e silêncios. Mas não podia simplesmente abandonar Joaquim para seguir esse novo chamado. Então escrevi um conto — O Último Trem — apenas para apaziguar aquela voz que insistia em nascer no meio da escrita de Rios de Sangue e Ouro. Irritante, sim, mas necessária. E funcionou. Por um tempo.
Agora, com Rios de Sangue e Ouro entregue à leitura crítica, abriu-se em mim um vácuo criativo. E, como era de se esperar, as vozes do mundo de Hans Krueger voltaram a sussurrar. Foi assim que comecei a escrever o romance O Último Trem. Escrevo por puro prazer, sem o peso da pesquisa exaustiva nem da responsabilidade de criar um universo inteiro. É uma história menor em ambição, mas talvez mais livre em respiração.
Os personagens secundários, confesso, não têm o mesmo esmero de Joaquim e sua descendência. O mundo de O Último Trem é mais contido, mais direto, menos barroco. E, ainda assim, vivo. Quem sabe — se os leitores gostarem — esse seja o próximo romance em que eu decida colocar não só meu cérebro, mas também o coração em máxima rotação.
Entre um universo e outro, tenho aprendido algo precioso: que sinto um prazer imenso em criar histórias, em dar forma a vidas e mortes que só existem porque ouso imaginá-las. Não é difícil para mim inventá-las — difícil é calá-las. Desde criança, essas vozes me acompanham. Eu só não sabia que, para compreender o propósito delas, precisaria escrevê-las.
Talvez seja esse o verdadeiro sentido de escrever: dar nome aos mundos que nos habitam, até que finalmente entendamos o que nos move.
