Relutei muito antes de escrever esta história. Não apenas porque se trata de um episódio real, repetido inúmeras vezes por minha mãe ao longo da minha infância, mas porque, já adulto, ouvi o mesmo relato da boca de alguém completamente alheio à minha história familiar, ainda que ligado à Igreja Matriz de São Sebastião, em Barra Mansa. Naquele momento, calei. Talvez por vergonha. Talvez porque o ocorrido envolvesse alguém com quem, mesmo sem laços de sangue, eu convivi de maneira tangencial durante os anos de formação.
Desde criança, aquele rapaz sempre me causara estranhamento. Para os padrões das décadas de 1980 e 1990, ele destoava: havia algo de excêntrico em seus modos, algo que eu, ainda menino, não sabia nomear, mas sentia. O fato de minha mãe insistir em me contar aquela história apenas reforçava a sensação de desconforto. Hoje, à distância, reconheço que há nela um elemento quase cômico. Ainda assim, não se pode ignorar a gravidade do gesto, sobretudo se considerado o contexto moral e religioso de uma cidade do interior brasileiro, profundamente marcada por uma religiosidade tradicional.
Não utilizarei nomes. Não por artifício literário, mas por respeito. Também me permitirei alguns pequenos floreios narrativos, não para alterar a essência dos fatos, mas para torná-los mais legíveis e menos cruéis do que a memória, às vezes, costuma ser.
O episódio se deu em meados da década de 1970. O rapaz em questão havia “saído do armário” havia pouco tempo, expressão que, à época, ainda circulava mais como sussurro do que como linguagem assumida. Sua condição, somada ao seu comportamento considerado estranho, já o colocava em posição desconfortável diante da moral provinciana da cidade.
Os frequentadores antigos da Matriz de São Sebastião sabem bem que há três imagens sacras centrais às celebrações da Semana Santa: o Senhor dos Passos e Nossa Senhora das Dores, utilizados na Procissão do Encontro, e a imagem do Senhor Morto, venerada na Sexta-feira da Paixão. São imagens de madeira, à maneira das antigas igrejas mineiras, vestidas com trajes ricamente confeccionados e adornadas com cabelos naturais; doações feitas, ainda nos anos 1960, pelas filhas de uma família respeitada e profundamente católica da cidade.
A imagem do Senhor Morto repousa em um esquife, à esquerda da entrada da nave, protegida por uma espessa vidraça. Naquela sexta-feira que antecedia o Carnaval (já às vésperas da Quaresma), é provável que funcionários da igreja estivessem limpando a imagem ou preparando-a para o período litúrgico que se aproximava. Como, exatamente, o rapaz conseguiu entrar na matriz e retirar a peruca da imagem sem ser visto, ninguém jamais soube explicar com precisão.
O fato é que a peruca do Senhor Morto desapareceu.
Naquela mesma noite, era sexta-feira de Carnaval. O rapaz utilizou os longos cabelos naturais para compor sua fantasia e saiu a desfilar pelos bailes da cidade, misturando-se aos foliões sob o riso, a música e a licença própria do tempo carnavalesco.
Enquanto isso, na igreja, o espanto se transformava em desespero. Fiéis alarmados comentavam o sumiço. O pároco, temendo escândalo maior, mandou recolher a imagem. O silêncio constrangido passou a ocupar o lugar da devoção.
O Carnaval terminou. E, ao chegar em casa ainda com o adereço, o rapaz foi imediatamente confrontado pela mãe, que já ouvira os rumores pela vizinhança. Reconheceu a peruca sem dificuldade. Não houve discussão prolongada. Ela tomou o objeto, segurou o filho pelo braço e, juntos, dirigiram-se à matriz para devolver o que não lhes pertencia e pedir desculpas.
Não sei exatamente o que foi dito naquele encontro. Sei apenas que a peruca retornou ao lugar que lhe era destinado e que o episódio, com o tempo, foi sendo absorvido pelo murmúrio coletivo da cidade, transformando-se em anedota sussurrada, dessas que todos conhecem, mas poucos admitem conhecer bem.
Hoje, percebo que esta é uma daquelas histórias que sobrevivem menos pelos fatos do que pelo desconforto que provocam. Muitos a reconhecerão de imediato. Alguns até sorrirão, lembrando-se vagamente dos detalhes. Nenhum, contudo, saberá (nem precisa saber) qual é, afinal, a ligação entre o rapaz daquela sexta-feira de Carnaval e a pessoa que agora escreve.
