Skip to content Skip to footer

Capítulo 5 – O Mestre das Sombras

Porto de Santos, 15 de março de 1935 – 08h00

O transatlântico Hamburg atracou sob céu cinza e chuvoso. Entre os passageiros da primeira classe que desciam pela prancha, Friedrich Adler – agora com passaporte diplomático alemão como adido cultural da embaixada – observava o cais com olhos experientes.

Tinha quarenta e dois anos, estatura mediana, aparência anônima – exatamente o que um espião precisava. Cabelos castanhos penteados para trás, bigode fino, terno discreto, mas bem-cortado. Podia passar por alemão, austríaco, suíço ou brasileiro de ascendência europeia. E essa era sua maior arma: ser esquecível.

Enquanto aguardava a liberação alfandegária – mera formalidade para diplomatas –, Adler permitiu-se lembrar sua primeira missão no Brasil, de 1928 a 1931.

Chegara jovem, idealista, apaixonado pela pátria, mas ainda não contaminado pelo fanatismo nazista que viria depois. Assumira a identidade de Gabriel Mendes, empresário gaúcho da região de São Leopoldo. A cidade, no Vale do Rio dos Sinos, fora o primeiro núcleo de imigração alemã no Brasil, fundada em 1824. Até meados do século XIX haviam chegado mais de oito mil alemães. Gabriel Mendes seria filho de imigrantes, nascido no Brasil, bilíngue, com negócios no Rio de Janeiro. Verossímil. Invisível.

Durante três anos, infiltrado na colônia alemã carioca, coletara informações sobre portos, ferrovias, capacidade industrial, movimentos políticos. Reportava diretamente a Berlim via códigos telegráficos e correspondência disfarçada.

Mas a Revolução de 1930 mudara tudo.

Adler retirou do bolso interno do paletó um pequeno caderno de couro – seu diário da primeira missão. Folheou as páginas amareladas, relendo anotações que o haviam acompanhado por sete anos:

26.07.30 – João Pessoa morto. Dantas cúmplice ou peão? Cartas eram isca ou acidente? Quem lucra? A guerra começa. Meu trabalho também.

18.08.30 – Funeral de João Pessoa. 300 mil nas ruas. Getúlio Vargas presente, rosto composto em luto. Oswaldo Aranha também. Ambos vestidos de preto impecável. Ambos fingindo não conspirar. Mas conspiram. Observação: vi três homens – paletó cinza, chapéus Panamá idênticos – distribuindo panfletos pró-AL entre os populares. Mesmos homens ontem distribuíram na Central do Brasil. Quem financia? Resposta óbvia. A comoção é genuína. A manipulação também.

16.09.30 – José Duarte Dantas morto (assassinado) na prisão. Disseram suicídio. Fotografias de Louis Piereck mostraram o contrário. Revolução precisa de vilão morto. Mártir precisa de vingança. Tudo se encaixa. Pergunta: quem ordenou? Vargas? Távora? Outra pessoa?

01.10.30 – Revolução confirmada para 03.10, 17h30. Washington Luís decretará estado de sítio, mas será inútil. País dividido. Exército dividido. Fim da República do Café com Leite em três semanas. Mas há algo mais. Algo sob a superfície. Movimentações de capital. Ouro sendo transferido. Documentos desaparecendo do Itamaraty. Alguém prepara fuga. Mas quem? E para onde? Esta revolução não é só sobre poder. É sobre dinheiro. Muito dinheiro. E onde há dinheiro, há segredos. E onde há segredos, há meu trabalho.

31.10.30 – Vargas chega ao Rio. Multidão histérica. Junta Militar entrega poder sem resistência. Promessa cumprida: Brasil mudou. Mas para melhor? Tempo dirá. Observação: vi os mesmos três homens – paletós cinza, chapéus Panamá – distribuindo bandeiras da Aliança Liberal. Mesmos que distribuíram panfletos pró-Vargas em agosto. Quem são? Quem financia? Preciso investigar.

03.11.30 – Vargas toma posse. Discurso brilhante. Promessas grandiosas. Multidão extasiada. Mas sob as promessas, há silêncios. Sob a revolução, há negócios. Sob o heroísmo, há ouro. Minha investigação começa aqui. Porque revoluções não são feitas de ideais. São feitas de dinheiro. E alguém financiou esta. Preciso descobrir quem. E por quê. Porque quando souber, saberei também: qual é o verdadeiro preço deste novo Brasil?

Adler fechou o diário, guardou-o no bolso. Aquela primeira missão fora interrompida em 1931. Hitler assumira o poder em 1933, e a Abwehr convocara seus agentes de volta. Reorganização. Expansão. Militarização. Adler retornara à Alemanha, deixando Gabriel Mendes morrer silenciosamente no Rio de Janeiro.

E agora, em 1935, Friedrich Adler voltava. Não mais como espião disfarçado, mas como adido cultural da embaixada alemã. Posição oficial. Imunidade diplomática. Cobertura perfeita.

– Senhor Adler – chamou o oficial alfandegário, conferindo o passaporte. – Bem-vindo ao Brasil.

Adler sorriu. Friedrich Adler. Não mais Gabriel Mendes. Nova missão, novo nome, mesma guerra.

Rio de Janeiro, Embaixada Alemã, 20 de março de 1935 – 10h00

A Abwehr, organização de inteligência militar alemã que existira desde 1920, havia evoluído consideravelmente após a ascensão dos nazistas ao poder em 1933. Sob a direção do vice-almirante Wilhelm Franz Canaris, a Abwehr tornou-se vasta organização que incluía grande rede de espionagem em numerosos países estrangeiros, utilizando extensamente as missões diplomáticas alemãs.

E Friedrich Adler era um de seus melhores operadores.

A embaixada alemã na Avenida Presidente Wilson era edifício imponente de estilo neoclássico. Bandeiras com a suástica tremulavam ao vento. Dentro, diplomatas, funcionários e – disfarçados entre eles – agentes da Abwehr.

O embaixador Karl Ritter recebeu Adler em seu gabinete privado. Homem de sessenta anos, carreira diplomática impecável, olhos frios de quem servia ao Reich sem questionamentos.

– Herr Adler – disse Ritter, em alemão. – Bem-vindo de volta ao Brasil.

– Obrigado, senhor embaixador.

Ritter serviu schnapps alemão em dois copos de cristal.

– Sua missão é clara. Estabelecer células de espionagem em solo brasileiro. Recrutar agentes. Coletar informações sobre portos, ferrovias, capacidade industrial, movimentação política. A guerra está próxima. O Führer precisa saber tudo sobre o Brasil.

– E os recursos?

– Ilimitados. A Abwehr liberou orçamento especial. Você terá acesso a fundos diplomáticos, contas bancárias disfarçadas, contatos comerciais. Com colaboração de importantes membros da colônia alemã que têm cargos-chave em fortes empresas comerciais no país, começará a recrutar alemães natos ou nascidos no Brasil.

Adler bebeu o schnapps. Queimou a garganta, aqueceu o estômago.

– Perfil dos agentes?

– Variado. Haverá espiões ligados a organização com estrutura financiada pela Abwehr, mas também pessoas comuns que atuarão de forma amadora e independente, querendo ajudar a pátria distante. Alemães natos radicados no Brasil. Descendentes. Simpatizantes nazistas. Integralistas brasileiros. Qualquer um útil.

Ritter abriu a pasta, deslizou fotografias sobre a mesa.

– Este é Albrecht Gustav Engels, engenheiro que vive no Brasil desde 1923, trabalha na Siemens e na AEG. Perfeito para espionagem industrial. Ele será seu braço direito.

Outra fotografia.

– Herbert von Heyer, Recife. Alemão naturalizado brasileiro, 37 anos, gerente e sócio da tradicional firma Herm Stoltz & Cia. Controlará rede no Nordeste.

Mais fotografias. Nomes. Endereços. Perfis.

– E integralistas? – perguntou Adler.

– Há uma extensa rede de espionagem criada por um antigo membro da Ação Integralista Brasileira. Será liderada por Túlio Regis do Nascimento, capitão do exército que militou no movimento. Mas, cuidado. Integralistas são fanáticos. Úteis, mas imprevisíveis.

Adler estudou as fotografias. Rostos anônimos. Vidas normais. Futuros traidores.

– Quando começo?

– Já começou.

São Paulo, maio de 1935

Adler encontrou-se com Gustav Engels em restaurante alemão no bairro da Liberdade. Engels trabalhou na Siemens e depois foi gerente da Cia. Sulamericana de Eletricidade S/A em Joinville, sucursal da AEG.

– O Brasil cresce – disse Engels, bebendo cerveja alemã importada. – Mas ainda depende de tecnologia alemã. Motores elétricos. Turbinas. Equipamentos industriais.

– E isso interessa ao Reich – respondeu Adler, calmamente.

Engels estudou o homem à sua frente. Entendeu sem palavras.

– O que precisam saber?

– Tudo. Capacidade industrial. Contratos governamentais. Projetos de infraestrutura. Dados sobre trânsito de aviões, capacidade de depósitos de combustíveis nos portos, comprimento de pistas de aeroportos.

Engels hesitou. Depois assentiu.

– Pela Alemanha.

Recife, agosto de 1935

Herbert von Heyer era alemão naturalizado brasileiro, casado com alemã Wilma Korr, membro destacado da tradicional comunidade germânica em Recife. Adler o encontrou em sua residência elegante no bairro de Boa Viagem.

Von Heyer viajara a Natal e se encontrara com alemães Ernest Walter Luck, seu cunhado Hans Werbling e Richard Burgers, todos radicados há vários anos na capital potiguar, partidários e propagandistas de primeira linha da causa nazista.

– Natal é estratégico – explicou von Heyer. – Base aérea. Porto. Rota para Europa e África. O Führer precisa controlar informações daquela região.

– Então controle – disse Adler.

Rio de Janeiro, novembro de 1935

Túlio Regis do Nascimento, capitão do exército e ex-integralista, liderava rede própria. Passava informações sobre movimentação de navios. Fazia parte do grupo muitos civis seduzidos por promessas de dinheiro.

Adler o encontrou em café discreto na Lapa.

– Integralistas e nazistas não são iguais – disse Túlio, cauteloso.

– Mas compartilham inimigos – respondeu Adler. – Comunistas. Liberais. Judeus.

Túlio sorriu.

– Então temos um acordo.

Rio de Janeiro, Embaixada Alemã, dezembro de 1936 – 22h00

Adler estava em seu escritório no subsolo da embaixada – sala sem janelas, porta trancada, cofre embutido na parede. Sobre a mesa um mapa do Brasil coberto de alfinetes coloridos.

Vermelho: agentes ativos. Azul: contatos secundários. Verde: alvos potenciais.

A organização buscava informações variadas sobre o país, incluindo aspectos da política interna, pontos estratégicos, geografia litorânea e movimentação dos transportes.

Santos: cinco agentes monitorando porto e movimentação de navios.

Recife: von Heyer e rede no Nordeste.

Natal: células conectadas a cônsul alemão Ernest Walter Luck.

Rio de Janeiro: Engels e rede industrial.

São Paulo: contatos em fábricas alemãs.

Joinville: Engels como gerente da AEG, coletando dados econômicos.

E mais. Muito mais. Apesar de problemas devido ao amadorismo de vários espiões e informantes, graças às comunicações, relatórios obtidos pelos agentes nazistas na Argentina, Estados Unidos, México, Equador e Chile foram enviados para Alemanha através de estações de rádio clandestinas brasileiras.

Adler acendeu um cigarro, estudou o mapa. Em menos de dois anos, construíra uma rede que cobria o país inteiro. Dezenas de agentes. Centenas de informantes. Milhares de relatórios enviados a Berlim.

Usavam tinta invisível, pseudônimos, símbolos nos passaportes, códigos telegráficos, correspondência para endereços disfarçados e microfotografias.

Bateram à porta. Três vezes. Pausa. Duas vezes. Código.

– Entre.

Era um jovem oficial da embaixada. Klaus Schneider, vinte e oito anos, recém-chegado de Berlim.

– Mensagem de Canaris – disse ele, entregando envelope lacrado.

Adler abriu, leu. Seu rosto não demonstrou emoção.

“Operação bem-sucedida. Continue expansão. Prioridade: informações sobre futura siderúrgica brasileira. Localização. Capacidade. Fornecedores. Engenheiros. Tudo.”

Adler queimou a mensagem no cinzeiro.

– Algo mais? – perguntou Klaus.

– Sim. Precisamos de um agente para infiltração profunda. Engenheiro. Alguém que possa trabalhar dentro da siderúrgica quando for construída.

– Conheço candidato.

– Quem?

– Hans Albrecht Krueger. Trinta e dois anos. Engenheiro metalúrgico formado em Munique. Fala alemão, português, inglês. Experiência em construção de usinas industriais.

Adler estudou o dossiê que Klaus entregara.

– Quando pode começar?

– Já está a caminho. Chega em janeiro de 1937.

Adler sorriu. A rede estava completa. Agora, começaria a fase mais perigosa.

A Infiltração.

Rio de Janeiro, apartamento de Adler em Botafogo, 31 de dezembro de 1936 – 23h00

Véspera de Ano Novo. Fogos de artifício explodiam sobre a Baía de Guanabara. A cidade celebrava. Adler estava sozinho, relendo seu diário da primeira missão.

Gabriel Mendes. Essa identidade morrera em 1931, quando ele retornara à Alemanha. Mas as informações que coletara entre 1928 e 1931 – sobre a Revolução de 1930, sobre Getúlio Vargas, sobre os fluxos de dinheiro e poder – ainda eram valiosas.

Ele abriu o diário na última página, pegou a caneta, escreveu uma nova entrada:

31.12.36 – Cinco anos depois do retorno à Alemanha, estou de volta ao Brasil. Não mais como Gabriel Mendes, comerciante invisível. Como Friedrich Adler, adido cultural. A mudança é simbólica. Gabriel Mendes observava nas sombras. Friedrich Adler comanda das sombras.

A rede está montada. Engels controla a espionagem industrial. Von Heyer, o Nordeste. Túlio Regis, os militares. E em breve, Hans Krueger infiltrará a futura siderúrgica brasileira.

Vargas joga com alemães e americanos, e nesse jogo, todos perdem. Exceto ele.

A guerra está próxima. Talvez dois anos. Talvez três. E quando começar, o Brasil terá que escolher. E nós, alemães, garantiremos que escolham certo. Ou pagaremos para que escolham errado.

Gabriel Mendes morreu em 1931. Mas seu trabalho continua. Porque espionagem não é sobre nomes. É sobre informação. E informação é poder.

Adler fechou o diário, guardou-o no cofre embutido na parede. Lá fora, os fogos continuavam. A cidade celebrava um novo ano. Mas Friedrich Adler sabia: 1937 seria o ano decisivo.

Tudo se encaixava. Como sempre.

Deixe um comentário