Santos, 20 julho de 1939 – 22h00
Durante dois anos, Hans manteve disfarce impecável. Oswaldo Richter, importador respeitável. Visitava fábricas. Negociava contratos. Enviava relatórios disfarçados como cartas comerciais. A rede de Adler funcionava perfeitamente.
Mas Hans sentia-se vazio. O trabalho era mecânico. A vida, solitária. Santos era cidade portuária, suja, barulhenta. Ele morava em apartamento pequeno perto do porto, comia sozinho em restaurantes alemães, bebia schnapps sozinho à noite.
Greta ainda o assombrava. Não a fotografia – essa ele jogara no oceano. Mas a memória. Sempre a memória.
Às vezes, caminhando pelas ruas de Santos, via mulheres loiras, e seu coração acelerava. Mas quando se aproximava, não era Greta. Nunca era. Porque Greta estava na América, com Samuel, feliz, esquecida de Hans. E Hans percebia: não fugira de Munique. Trouxera Munique consigo.
Rio de Janeiro, Embaixada Alemã, 10 de agosto de 1939 – 21h00
Adler convocara Hans para reunião urgente. No subsolo da embaixada – sala sem janelas, porta trancada, cofre na parede. O embaixador Kurt Prüfer estava presente. Presença incomum. Sinal de que algo importante aconteceria.
Prüfer tinha sessenta e dois anos, diplomata experiente, olhos frios de quem servira três regimes alemães (Império, Weimar, Reich) sem piscar. Fumava charuto cubano, de pé, estudando mapa do Brasil na parede.
– Senhores – disse ele, em alemão. – A guerra está próxima. Semanas. Talvez dias.
Hans e Adler trocaram olhares. Sabiam. Todos sabiam. Hitler exigia Danzig. Polônia recusava. Inglaterra e França prometiam defender Polônia. Era inevitável.
– Quando começar – continuou Prüfer –, o Brasil terá que escolher. Eixo ou Aliados. E sabemos como Vargas escolhe.
– Quem der o que ele quer – disse Adler.
– Exatamente. E o que ele quer?
– A siderúrgica – respondeu Hans.
Prüfer acenou, satisfeito.
– Correto. E nós oferecemos financiamento total. Tecnologia Krupp. Engenheiros alemães. Equipamentos de primeira linha. Em troca de quê?
– Minério de ferro – disse Adler. – E alinhamento político.
– Precisamente. Mas há um problema. Os americanos sabem disso. E também estão fazendo ofertas. Mais hesitantes, mais cautelosas, mas ofertas.
Prüfer caminhou até o mapa, apontou para Barra Mansa.
– Sabemos onde Vargas quer construir. Região de Barra Mansa. Terras planas às margens do Paraíba do Sul. Localização perfeita.
– Os americanos também sabem? – perguntou Hans.
– Sabem. Mas não querem que o Brasil diminua dependência deles. Preferem um Brasil comprador de aço americano. Não produtor de aço brasileiro.
– E a Alemanha?
Prüfer sorriu, mas era sorriso de predador.
– A Alemanha quer aliados. E aliados com recursos naturais são valiosos. O minério brasileiro alimentaria fornos alemães por décadas. Vale o investimento.
Ele apagou o charuto, voltou para a mesa.
– Quando a guerra começar – e começará em semanas –, todos os agentes entram em prontidão máxima. Hans, você se preparará para infiltração mais profunda. Não apenas observação. Infiltração real. Dentro da futura usina.
– Como?
– Ainda não sabemos. Mas quando soubermos, você estará pronto. Correto?
Hans hesitou apenas um segundo. Depois assentiu.
– Pronto.
Rio de Janeiro, Embaixada Alemã, 30 de agosto de 1939 – 23h00
Telegrama cifrado de Berlim chegara às 22h00. Adler decodificara pessoalmente. Três palavras: Fall Weiss. Morgen. Caso Branco. Amanhã.
A invasão da Polônia começaria em 1º de setembro, às 04h45, horário de Berlim.
Adler convocou reunião emergencial. Todos os agentes que estavam no Rio de Janeiro em prontidão. Engels. Von Heyer. Túlio Regis. E Hans.
– A guerra começa amanhã – disse Adler, sem preâmbulos. – Todos os contatos devem ser suspensos por duas semanas. Deixem a poeira assentar. Depois, retomamos operações normais. Hans, você volta para Santos. Mantém disfarce. Espera ordens.
Hans assentiu.
Quando a reunião terminou, já passava da meia-noite. Hans saiu da embaixada, caminhou pelas ruas vazias do Rio até seu hotel. Lá em cima, no quarto alugado sob nome de Oswaldo Richter, abriu a janela, olhou para a Baía de Guanabara sob lua cheia.
Em algum lugar da Europa, tanques alemães se posicionavam na fronteira polonesa. Aviões Stuka aguardavam ordem de ataque. Soldados verificavam equipamentos pela última vez.
E Hans pensou: A guerra que fugi em 1918 quando tinha dezessete anos, agora me alcançou aqui, do outro lado do Atlântico.
Não havia como escapar. Nunca houvera.
Ele fechou a janela, deitou-se na cama, mas não dormiu. Porque em poucas horas, o mundo mudaria.
