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Custo da Educação Pública e Privada

Outro dia, rolando o feed do Instagram como quem folheia uma revista de aeroporto, deparei-me com um vídeo sobre custo da educação pública e privada, apresentado por uma economista que falava com a frieza de quem só enxerga números. Ela apresentava, com a segurança típica dos gráficos bem coloridos, uma comparação entre o custo por aluno da escola pública e da particular no Brasil.


Segundo ela, enquanto um estudante da rede privada custaria algo em torno de 1.475 reais, um aluno da escola pública chegaria a 1.650 reais por mês. E o pior: “na escola pública eles nem aprendem”, dizia ela, informando que 80% dos alunos chegariam ao segundo ano sem estarem alfabetizados. A filha dela, claro, já lia na pré-escola.

Desliguei o celular antes de terminar o vídeo — não por falta de argumentos, mas por excesso de irritação. Depois, quando decidi responder, o vídeo já tinha sido engolido pelo oceano infinito de sugestões que o Instagram nos oferece uma única vez e nunca mais.

Sem vídeo, sobrou-me o impulso de escrever aqui, neste espaço mais estável, para organizar o pensamento sobre o custo da educação pública e privada e suas ilusões comparativas. Dou-me esse direito porque trabalho com estatísticas e pesquisas em educação, porque já acreditei nas promessas de eficiência do setor privado e porque meu filho também estuda em escola particular desde os dois anos. Ou seja: conheço a cena tanto de dentro quanto de fora.

Primeiro argumento: é óbvio que o setor privado parece mais eficiente.
Não é nenhum mistério. A lógica empresarial exige fazer o máximo com o mínimo. Há metas, pressões, indicadores e, claro, lucro. Já no setor público, convivem leis, direitos, desigualdades sociais e amarras históricas. Não é que o público não possa ser eficiente — pode, e muitas vezes é —, mas há forças que puxam em outras direções que não cabem em planilhas.

Segundo argumento: o custo da escola particular é um espelho mal posicionado.
A mensalidade não conta a alimentação, o material escolar, os livros didáticos e paradidáticos, o uniforme, o transporte (conta o combustível e a depreciação do carro que leva e traz a criança todo dia), os eventos, as atividades extras… Somados ao longo do ano, esses gastos ultrapassam, com folga, o custo final do aluno da escola pública — onde tudo isso já está dentro daqueles 1.650 reais. Educação de qualidade é cara, e não há truque que disfarce isso.

Terceiro argumento: sobre alfabetização, números e expectativas.
Não posso afirmar que 80% das crianças chegam ao segundo ano sem serem alfabetizadas. Pode ser verdade em determinados recortes. Minha experiência diz que muitas chegam, sim, longe do ideal. Mas reduzir isso a “culpa da escola pública” é uma leitura preguiçosa.

Há professores que falham? Há, como em qualquer profissão. Alguns se escondem atrás de direitos sem entregar deveres. Mas são minoria. A maioria é comprometida, cansada, pressionada e frequentemente soterrada por condições de trabalho indignas. E isso nos leva ao próximo ponto.

Quarto argumento: a infraestrutura importa.
Escolas sucateadas, falta de materiais, salas superlotadas, políticas educacionais que mudam ao sabor do vento político. Quando a gestão pública não prioriza o essencial, não há milagre pedagógico que resista.

Quinto e principal argumento: o público atendido faz toda a diferença.
Nos primeiros anos, a escola não caminha sozinha. A família é o motor silencioso da aprendizagem. Onde há acompanhamento, há avanço. Onde não há, o ritmo é desigual. Nas escolas particulares, esse acompanhamento é quase regra; nas públicas, infelizmente, é exceção.
E isso não por falta de amor, mas por falta de tempo, de recursos, de letramento, de condições mínimas para sentar ao lado de uma criança e abrir um livro.

Por fim, voltemos à menina alfabetizada na pré-escola. Se isso é apresentado como vantagem, desconfio da proposta pedagógica. Alfabetizar cedo pode parecer mérito, mas muitas vezes é apenas ansiedade institucional: provar desempenho para os pais, antes de garantir maturidade para a criança. Aprender não é corrida. É percurso.

Fecho o texto como desliguei o vídeo: com a sensação de que certas comparações são fáceis demais para serem verdadeiras. A educação não cabe no preço da mensalidade, nem nos metros quadrados da sala de aula, nem no contador do gasto por aluno. Ela cabe — inteira — no lugar mais difícil de medir: o encontro entre escola, família e sociedade.

E isso, até hoje, ninguém conseguiu transformar em gráfico.

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