Já contei em outras crônicas sobre minha disciplina quase militar nas manhãs. Preso às engrenagens do relógio, cada gesto meu parece cronometrado, como se a mínima alteração nesse ritual pudesse desencadear uma avalanche de pequenos desastres domésticos — e, curiosamente, ela desencadeia. Não sei explicar o motivo, mas qualquer ruptura na rotina aciona em mim um turbilhão de ansiedade, como se o mundo estivesse sempre à beira de um atraso irreversível.
Talvez minha obsessão pela pontualidade seja apenas uma tentativa infantil de manter a ilusão de controle sobre minha vida. Talvez não. O fato é que, todos os dias, depois de cumprir cada passo descrito lá em O Beijo Antes do Café, eu saio de casa, tiro o carro da garagem e vou até a padaria comprar pão.
A padaria fica de frente para minha casa. Não haveria razão alguma para eu buscar outra. Conheço o dono, conversamos com simpatia de vizinhança, e o lugar abre pontualmente às 6h — ou quase. Porque há uma funcionária que, infelizmente, não compartilha da mesma devoção ao horário. Quando é ela quem abre, as portas só se levantam lá pelas 6h10.
Dez minutos. Para muitos, isso é quase nada. Para o padrão brasileiro, é um atraso que mal merece ser mencionado. Para mim, porém, é o colapso de um delicado ecossistema matinal. São dez minutos roubados do tempo de qualidade em que converso com minha esposa e meu filho sobre o dia que começa. Dez minutos em que posso me lembrar de algo importante a fazer. Dez minutos que determinam se sairei de casa serenamente ou se terei de correr com o carro para não atrasar meu filho na escola — e, por consequência, a mim mesmo no trabalho.
Se eu soubesse exatamente quando é o turno dela, acordaria mais cedo e iria a outra padaria. Mas não sei. E é nesse desconhecimento que minha ansiedade se abriga.
Entendo que atrasos acontecem. Somos humanos, afinal. O problema começa quando a falta de pontualidade deixa de ser exceção e vira hábito. Aí já não se trata mais apenas de uma questão pessoal: torna-se uma questão ética. Porque, quando alguém ignora que sua pequena escolha impacta o dia de outras pessoas, está, ainda que sem intenção, escolhendo olhar apenas para si.
Sei que a impontualidade é quase um traço cultural nosso. Mas também acredito que, se queremos reconstruir o país — e a reconstrução da ética é um passo essencial —, precisamos começar pelos pequenos gestos que praticamos antes mesmo do café da manhã. Às vezes, transformar o mundo é só abrir a padaria na hora certa.
