No final de 2006, quando o ano já caminhava lento e cansado para o seu desfecho, uma colega de trabalho — que antes já havia sido minha professora, nesse labirinto de papéis trocados que só a educação é capaz de produzir — apresentou-me um poema como quem oferece água a um viajante exausto.
O poema era “O Tempo”, de Drummond.
Desde então, ele me acompanha como uma espécie de rumor antigo, uma música subterrânea que desperta precisamente quando dezembro se abre diante de mim. Há algo naquele texto que não envelhece, como se Drummond tivesse tocado numa madeira primordial e arrancado dela a mesma nota que ecoa dentro de nós quando sentimos que o ano está prestes a virar.
O que me impressionou, naquela primeira leitura, foi a maneira como ele falava da virada do ano: não como um evento grandioso, mas como uma mudança microscópica, quase imperceptível — o deslocamento de um número no calendário, e tudo o que esse gesto ínfimo é capaz de rearrumar dentro da alma humana.
É curioso: o mundo permanece no seu eixo, as mesmas coisas continuam ao nosso redor, mas nós nos inclinamos levemente para outro lado, como quem muda o peso do corpo para reiniciar a caminhada. E é nesse pequeno gesto, tão íntimo e tão silencioso, que reside a esperança.
A esperança, percebo hoje, não é fogos de artifício nem promessa de grandes revoluções.
É um modo de olhar. Um modo de tocar as mesmas superfícies gastas com uma delicadeza nova. Ela age em nós como uma sutura invisível, reunindo pedaços que o ano foi dispersando.
Talvez por isso dezembro sempre tenha esse ar de sala iluminada à meia-luz, onde entramos devagar, respirando fundo, recolhendo memórias espalhadas como cartas deixadas sobre uma mesa. O fim do ano é esse convite para sentar e examinar — sem pressa, sem pressões — tudo o que fomos, tudo o que não conseguimos ser, tudo o que ainda desejamos.
E, ainda assim, é um convite que nos oferece continuidade. Dezembro não termina nada: apenas nos prepara para renascer.
O novo ano não começa quando a meia-noite dispara seus relógios, mas quando nós decidimos mover um pouco a alma para o lado do possível. A mudança não vem do calendário. Vem do que deixamos despertar em nós.
Que este novo ano que se aproxima encontre em nós essa ligeira inclinação para a luz;
essa fé doméstica que reacende sem estardalhaço; esse olhar que vasculha os mesmos cenários, mas agora reconhece neles o rumor de algo que pode florescer.
Que sejamos capazes de atravessar a porta de janeiro com a mesma coragem suave com que Drummond escutava o tempo: sabendo que ele passa, sim, mas sabendo também que, ao passar, ele nos oferece a chance — pequena e imensa — de passar com ele.
O Tempo
Carlos Drummond de Andrade
“Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um individuo genial.Industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar
e entregar os pontos.Aí entra o milagre da renovação
e tudo começa outra vez, com outro número
e outra vontade de acreditar
que daqui para diante tudo vai ser diferente.Para você, desejo o sonho realizado,
o amor esperado,
a esperança renovada.Para você, desejo todas as cores desta vida,
todas as alegrias que puder sorrir,
todas as músicas que puder emocionar.Para você, neste novo ano,
desejo que os amigos sejam mais cúmplices,
que sua família seja mais unida,
que sua vida seja mais bem vivida.Gostaria de lhe desejar tantas coisas…
Mas nada seria suficiente…Então desejo apenas que você tenha muitos desejos,
desejos grandes.E que eles possam mover você a cada minuto
ao rumo da sua felicidade.”
