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O Que Resiste ao Esquecimento

Não sou do tipo emotivo. Não tenho lembranças que chegam de súbito e me fazem parar no meio de uma calçada, com os olhos marejados e uma explicação impossível para dar a quem passa. Talvez até inveje quem seja assim. Só não sou.

Mas, de vez em quando, acordo pensando na minha avó.

Faz catorze anos que ela se foi. E há algo estranho nesse número: ele não diminui a presença dela. O tempo não apaga tudo. Às vezes ele depura. Remove o ruído, deixa o essencial. E o que permanece se torna mais nítido, como quando os olhos se ajustam ao escuro e começam a enxergar o que sempre esteve lá.

Quando quero matar a saudade dela, olho para minha mãe.

Não que seja cópia da minha avó. Seria injusto dizer isso. Minha mãe é inteiramente ela mesma, com seus próprios ângulos, seus silêncios, seu modo particular de ocupar o mundo. Mas há momentos em que um gesto atravessa a casa e me detém, porque aquilo não veio de agora. A mesma bondade com um tiquinho de malícia. Exatamente essa combinação, essa proporção que nunca encontrei em mais ninguém.

O sorriso da minha avó nenhum dos filhos herdou. É uma pena. Às vezes penso nisso com uma espécie de luto menor, discreto. Aquele sorriso agora mora só na memória; na minha, na de quem ainda a conheceu. Quando a última pessoa que o viu partir deste mundo, ele desaparece para sempre. Não haverá registro, fotografia ou descrição capaz de ressuscitá-lo por inteiro.

É nesse risco de extinção que começo a entender o que é a saudade.

A saudade não é nostalgia. A nostalgia olha para o passado com uma melancolia doce, mas essencialmente passiva. É o lamento do que não volta. A saudade é outra coisa. Ela é ativa. Age sobre o presente. Sente a falta não como ausência definitiva, mas como presença incompleta. Alguém que saiu da sala, mas ainda deixa calor na cadeira.

Saudade é a forma que o amor encontra para continuar funcionando quando o seu objeto já não está mais aqui para recebê-lo.

Se isso é verdade, então lembrar não é passividade sentimental. Lembrar é um ato. É manter alguém existindo dentro de uma dimensão que a morte não alcança; pelo menos não imediatamente, não enquanto houver quem guarde. Lembrar é, em certo sentido, resistir à entropia do universo: à tendência silenciosa de tudo se dispersar, se apagar.

O que sobrou da minha bisavó viveu na minha avó.

Ela incorporou isso de tal forma que já nem distinguia o que era dela por origem e o que havia herdado. Aquela bondade específica, aquela faísca de malícia no sorriso; de onde vieram exatamente? Da bisavó? De alguém antes dela? De uma avó cujo nome sequer chegou até mim?

Há uma herança afetiva que circula pelas gerações sem testamento, sem anúncio, sem registro formal. Ela passa de gesto em gesto, de tom de voz em tom de voz, de maneira de olhar em maneira de olhar. Minha avó a recebeu sem saber. Passou à minha mãe sem perceber. Chegou a mim misturada a memórias que nem são todas minhas. E eu a passo ao meu filho, que a passará ao filho dele. Transformada, diluída, mas ainda ali, ainda viva, ainda operando.

Somos, cada um de nós, o ponto mais recente de uma corrente muito mais longa do que imaginamos. E carregamos, sem saber exatamente o peso, aquilo que os mortos deixaram de mais essencial nos vivos.

Santo Agostinho, que entendia de tempo e de saudade como poucos, dizia que a memória é o lugar onde reencontramos aquilo que amamos. Não como uma cópia empobrecida, mas como uma presença real. Diferente da presença física, mas verdadeira à sua maneira. A memória, para ele, não é um arquivo morto. É um espaço vivo onde o passado continua a agir sobre o presente, onde os ausentes ainda nos falam, ainda nos corrigem, ainda nos consolam.

Os primeiros cristãos tinham uma palavra para isso: anamnese. Não apenas recordar, mas tornar presente. Não uma lembrança distante, mas uma realidade que atravessa o tempo. Na liturgia, não se revive simbolicamente um evento passado; ele se torna presente.

Guardadas as proporções entre o divino e o humano, há algo desse mesmo movimento no modo como carregamos os nossos mortos. Quando lembro da minha avó com amor, não estou apenas preservando uma imagem. Estou afirmando, de algum modo, que ela ainda pertence ao real. Que o amor que existiu entre nós não foi cancelado pela morte. Que há uma continuidade que a ciência não mede, mas que a experiência humana reconhece como verdadeira.

Talvez a morte não seja exatamente o fim que parece quando vista de dentro do tempo.

Ela acontece, claro. Dói. Deixa ausências que não se preenchem completamente. Mas talvez não encerre tudo o que toca. Talvez seja apenas uma transição dentro de algo maior. E talvez o amor, justamente por ser o que é, não se submeta inteiramente às suas regras.

A fé cristã afirma isso com clareza: os mortos não estão extintos, mas transformados. A comunhão dos santos não é metáfora, mas realidade. Há continuidade, há presença, há relação. Ainda que em outra ordem.

E, mesmo antes da fé, há a experiência. A de acordar, catorze anos depois, pensando em alguém que não está mais aqui e perceber que, de algum modo, ainda está.

Penso então no que significa ter passado por este mundo de forma memorável.

Não no sentido espetacular: grandes feitos, monumentos, nomes gravados em pedra. A maioria das pessoas que realmente nos formou não deixou nada disso. Minha avó não deixou. E, ainda assim, permanece.

Ser memorável, no sentido que importa, é outra coisa. É ter amado de tal forma que deixou marcas reais em quem ficou. É ter sido bom com aquela consistência discreta que não precisa de testemunha. É ter transmitido, sem discurso, algo que vale a pena ser transmitido. Uma forma de estar no mundo que não se esgota em quem a viveu.

Há quem diga que o ideal seria partir deixando até os adversários em silêncio respeitoso. Talvez.

Mas suspeito que a ambição verdadeira seja mais simples e mais difícil: ser amado de tal modo que alguém, catorze anos depois, ainda acorde pensando em você.

Com saudade. Com gratidão. Com a sensação, estranha e boa, de que você ainda não desapareceu completamente.

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