Outro dia, enquanto eu vagueava pelas minhas próprias nuvens — esse território nebuloso que alguns apelidam de “meu maravilhoso mundo de Bob” — minhas colegas de trabalho conversavam animadamente sobre a mais recente polêmica envolvendo um jogador de futebol e sua namorada, uma influencer de holofotes sempre acesos. Diziam que ele havia feito uma declaração deselegante, talvez machista, talvez apenas típica de quem não sabe costurar palavras antes de soltá-las ao vento.
Eu não fazia ideia do assunto quando uma delas me puxou de volta ao mundo comum:
— Wallison, o que você acha disso?
Tirei os fones:
— Disso o quê?
E então veio a história inteira, desfiada como quem desenrola um novelo cheio de indignação.
Comecei o meu “bom…” quando, antes mesmo de abrir caminho para a frase, ouvi o veredito antecipado:
— Vai defender ele, quer ver?
Ri. E respondi com a simplicidade que a situação parecia pedir:
— Mas o que ela poderia esperar dele? O que ele disse foi apenas a verdade dele.
Silêncio.
Há algo curioso na expectativa humana: a insistência em acreditar que o outro será aquilo que sonhamos — não aquilo que ele é. Talvez falte às pessoas o aviso explícito que as fábulas nunca deram: às vezes o sapo é realmente só um sapo. E, para ser justo, muita “princesa” por aí também não é exatamente princesa coisa nenhuma.
Não falo de nível social, tampouco financeiro. Falo de valores internos, de estrutura ética, de aquilo que permanece quando as máscaras se cansam. Relações não fracassam porque um é pobre e o outro rico; fracassam porque um é abismo e o outro espera encontrar ali um jardim.
Mas há mulheres — e homens também — que acreditam na velha magia da transformação: basta amar para que o outro se converta subitamente em príncipe. O problema é que a fábula original nunca prometeu isso. O sapo só virou príncipe porque antes já o era. A feiura era mero encantamento; o coração, não.
No mundo real, príncipes são príncipes e sapos são sapos. E você pode amar um sapo, claro — mas o deve amar como sapo, não como príncipe em potencial. A dor nasce quando tentamos reformar o outro segundo a nossa fantasia. E talvez todos nós, homens, carreguemos dentro de nós um príncipe hesitante e um sapo teimoso, disputando espaço, pedindo luz em horas diferentes.
Dias depois descobri que o vídeo da tal declaração era obra de inteligência artificial. Ironia dos novos tempos: discutimos a ética de um sapo digital enquanto ignoramos os encantamentos mais profundos da condição humana.
E então surge a pergunta inevitável: e os homens? Acaso também idealizam? Há príncipes beijando pererecas na esperança de transformá-las em princesas?
Eu diria que não do mesmo modo. O homem, em geral, idealiza menos e fantasia mais. Quando um príncipe beija uma perereca, quase sempre deseja apenas o que o gesto sugere. Se é que entendem.
Talvez seja essa a grande diferença entre os papéis que nos ensinaram a representar: uns acreditam demais, outros acreditam de menos. E, no meio disso, o amor — esse velho encantamento — tenta sobreviver às versões falsas, aos vídeos fabricados e às ilusões que insistimos em projetar sobre a pele dos outros.
