Já reparou como a “instagramização” do mundo foi se infiltrando em nossas vidas como uma névoa silenciosa, dessas que não percebemos avançar até que já tenha tomado tudo?
De repente, viver ficou mais difícil — e, curiosamente, mais caro.
Começou pelos corpos.
Havia um tempo, não tão remoto assim, em que a beleza era apenas um capricho do acaso: um sorriso luminoso surgia entre afazeres, um rosto se revelava ao sol sem a preocupação com ângulos, e o corpo, esse velho companheiro, continuava sendo o que era — humano, transitório, limitado.
Mas então vieram elas: figuras etéreas de academia e bisturi, criaturas moldadas por cirurgiões, luzes de estúdio, filtros que ajustam até o que não existe. Mulheres de porcelana, homens de mármore, todos movidos por uma engrenagem invisível que sussurra: seja mais do que é.
E nós, espectadores, acostumados a nossas manhãs apressadas e nossas rotinas desarrumadas, começamos a nos perguntar se alguém, no mundo real, consegue mesmo viver assim — horas de treino, tardes de estética, noites de conteúdo impecável — enquanto trabalha, cozinha, ama, educa crianças e paga boletos. Claro que não. São vidas fabricadas, artesanatos de desejo, vitrines de algo que nunca se toca.
Com o tempo, percebemos que aquilo não se limitava aos corpos. Havia um desígnio mais profundo: vender possibilidades. E as marcas, sempre atentas ao ruído do futuro, perceberam que ali estava a mina de ouro — não de autenticidade, mas de estética.
Hoje, o Instagram vende tudo sem vender nada. O mundo inteiro parece ter vestido sua melhor fantasia para caber no formato de uma tela.
Viajar deixou de ser ir; agora é postar.
Comer deixou de ser saborear; agora é registrar.
Os lugares passaram a existir não por sua beleza, mas pela capacidade de serem “instagramáveis”.
Monte Verde, por exemplo. Eu a desejava há anos, como quem deseja um livro elogiado por todos ou um vinho que dizem inesquecível. Cheguei lá no último inverno e encontrei uma coleção de cenários artificiais, montagens de madeira, luzes e letras douradas que pediam, quase suplicavam: fotografe-me.
Não havia alma.
Só vitrines.
A vida, então, ficou mais pesada. Porque não se trata mais de desejar o inalcançável, agora precisamos também consumir experiências embaladas para foto.
O restaurante já não serve comida: oferece atmosfera, ângulo, narrativa. O drink não é bebida: é composição. O encontro não é encontro: é conteúdo.
E, veja bem, eu mesmo, que escrevo tudo isso, gosto de fotografar minhas viagens, meus lugares, meus espantos.
Gosto da estética, da luz, da memória que congela instantes.
Mas às vezes me pergunto se não estou, também eu, prestes a ser capturado por essa armadilha invisível, onde qualquer beleza pode ser confundida com futilidade, e qualquer partilha vira espetáculo.
Talvez eu precise de cuidado. Ou talvez todos nós precisemos reaprender a olhar para o mundo sem perguntar, antes de tudo: isso fica bom no Instagram?
