“Se o maior pecador que você conhece não é você, você precisa se conhecer.”
A frase atribuída a C.S. Lewis sempre me pareceu ao mesmo tempo inquietante e reconfortante. Inquietante porque nos obriga a olhar para dentro sem disfarces; reconfortante porque revela algo simples: a distância que exagera os defeitos dos outros desaparece completamente quando se trata de nós mesmos. E, quando a distância é zero, a nitidez pode ser perturbadora. Se não sentimos esse incômodo, talvez ainda não estejamos realmente olhando. Talvez ainda sejamos cegos para aquilo que somos. Uma espécie de miopia da imaturidade.
De certo modo, o ofício de escrever passa pela mesma experiência. O maior crítico do meu trabalho sou eu mesmo. Expor meus textos, essa intimidade de pensamento e linguagem, nunca me foi natural. Só consegui fazê-lo recentemente, mais por necessidade que por coragem. Afinal, como alguém saberia que escrevo se eu não me dispusesse a mostrar o que escrevo?
É curioso, porque essa percepção não veio por iluminação própria. Eu teria facilmente recorrido a um pseudônimo. Mas uma mentora me disse, com firmeza: você precisa se apresentar como escritor. E essa frase me atingiu como um dever simples e inevitável. Assumi-o. E assumi, junto dele, o risco de ser lido, julgado, interpretado, literária e talvez filosoficamente.
Até agora, não recebi críticas negativas. Apenas as correções impessoais da inteligência artificial, sempre apontando um deslize, uma ortografia distraída, uma frase que poderia respirar melhor. Críticas respeitosas serão sempre bem-vindas, mesmo quando difíceis de engolir.
O estranho é que, embora eu fique feliz com os elogios que recebo, também fico desconfortável. Quando vêm de amigos, sinto certa hesitação; quando vêm de desconhecidos, o desconforto cresce na mesma medida em que cresce a alegria. Existe sempre um espanto: alguém leu e gostou. Parece simples, mas não é.
E, por mais que eu deseje continuar agradando, confesso que a cada novo texto imagino a presença silenciosa de haters à espreita, como sombras esperando a minha próxima frase para julgá-la. Talvez seja apenas um resquício de insegurança. Talvez seja o preço natural de se expor. Talvez seja mais um convite ao autoconhecimento.
Porque, no fim das contas, escrever também é isso: um modo de me olhar. Um modo de descobrir se já comecei, de fato, a me conhecer.
