Como velhas teorias reaparecem para absolver o colonialismo e naturalizar a desigualdade global
Velhas ideias raramente desaparecem. Elas apenas se reinventam, adotando a linguagem do presente para manter intacta sua função original. O determinismo geográfico, formulado no início do século XX e amplamente contestado pela historiografia contemporânea, ressurge hoje como explicação “racional” para a desigualdade entre países ricos e pobres, convenientemente esvaziada de história, poder e responsabilidade.
Segundo essa visão, a prosperidade das nações estaria diretamente relacionada à sua posição no globo. Regiões de clima temperado, sobretudo no hemisfério norte, teriam produzido sociedades disciplinadas, inclinadas à poupança e ao planejamento de longo prazo. Já as áreas intertropicais, marcadas pelo calor e pela abundância natural, teriam gerado populações menos propensas ao acúmulo de excedentes e à racionalização dos recursos. Uma explicação simples, elegante e profundamente enganosa.
A própria história europeia desmente essa narrativa. Portugal, situado integralmente no hemisfério norte, foi durante séculos um país estruturalmente pobre, apesar de não ter sofrido a devastação material das grandes guerras que marcaram outras economias europeias no século XX. Sua posição no sistema mundial esteve longe de ser a de um centro industrial dinâmico; ao contrário, ocupou um papel periférico-intermediário, sustentado pela exploração colonial.
O enriquecimento português na Idade Moderna não foi fruto de uma suposta ética do trabalho moldada pelo clima, mas da pilhagem e exploração sistemática de territórios coloniais, especialmente do Brasil. Quantidades imensas de ouro atravessaram o Atlântico não para promover um desenvolvimento autônomo em Portugal, mas para alimentar o sistema financeiro inglês, contribuindo decisivamente para a acumulação de capital que sustentou a Revolução Industrial na Inglaterra.
Ao deslocar a explicação da desigualdade para fatores geográficos, o determinismo cumpre uma função ideológica clara: absolve o colonialismo e o imperialismo de suas responsabilidades históricas. Trata-se de uma operação de apagamento que oferece conforto moral às sociedades que se beneficiaram (e ainda se beneficiam) de uma ordem internacional fundada na expropriação, na dependência econômica e na transferência sistemática de riqueza das periferias para os centros do capitalismo.
Não é possível compreender a pobreza do Sul global ignorando mais de cinco séculos de exploração colonial europeia e, posteriormente, a hegemonia econômica e política exercida pelos Estados Unidos. Tampouco se pode fingir que essa desigualdade pertence apenas ao passado: ela se reproduz nas relações comerciais assimétricas, na financeirização da economia mundial e na subordinação tecnológica imposta às economias periféricas.
Atribuir o fracasso econômico dessas regiões a um suposto destino geográfico é uma operação intelectualmente confortável e profundamente desonesta. Para sustentá-la, é preciso ignorar a existência de grandes impérios e complexas formações políticas nas Américas, na África e na Ásia muito antes da consolidação dos Estados nacionais modernos na Europa. É preciso, sobretudo, esquecer que o subdesenvolvimento não é uma condição natural, mas uma construção histórica. E toda construção histórica tem responsáveis.
