A Palavra Bonita

Estava de cabeça baixa, escrevendo. Na mesa ao lado, um promotor de editora conversava com um colega. Assunto de que não participei, provavelmente relacionado ao PNLD. Mas uma palavra cruzou o ar com a leveza de quem sabe o peso que carrega: intencionalidade. Ergui os olhos sem erguer a cabeça. Reconheci naquele instante algo que vai muito além de uma escolha vocabular.

Intencionalidade é uma palavra bonita. Soa erudita, quase fenomenológica e poderia ser substituída, sem qualquer perda de sentido, por intenção, propósito ou objetivo. Mas não foi substituída. Foi escolhida. E a escolha não foi inocente.

Conheço o fenômeno. Há anos que o observo proliferar nos corredores corporativos, nas apresentações de gestão, nos relatórios pedagógicos. Palavras que soam densas e, no entanto, não dizem nada de preciso. Protagonismo. Ressignificação. Cocriação. Cada uma carrega a mesma promessa implícita: quem as usa sabe de algo que você ainda não sabe. É a performance da competência antes da competência em si.

Mas o problema não é a palavra. O problema é o que a palavra revela.

A erudição de vitrine não é invenção do nosso tempo. O que é novo (e inquietante) é a escala. A proliferação do vocabulário performático em ambiente corporativo e educacional é sintoma de algo mais profundo: a erosão da autoridade legítima.

Durante séculos, a autoridade assentou sobre um tripé sólido: tradição, experiência e conhecimento. As instituições (a Igreja, o Estado, a Escola) transmitiam valores e verdades de geração em geração. Os mais velhos carregavam o peso acumulado da experiência vivida. Os especialistas detinham saberes que exigiam anos de formação disciplinada para ser alcançados. Não era um sistema perfeito. Era, porém, um sistema.

Na modernidade tardia, esse tripé ruiu. Em seu lugar ergueu-se outro, mais instável: popularidade, performance e confiança tribal. A autoridade migrou das figuras legítimas para aqueles que acumulam seguidores, falam bem e dizem o que o público quer ouvir. A influência substituiu a competência. O alcance substituiu o rigor. E o viés de confirmação tornou-se o principal critério epistemológico de uma geração inteira.

No novo normal, a autoridade se constrói pela aparência, não pela substância. Falar como intelectual passou a valer mais do que pensar como intelectual.

Daí o promotor de editora e sua intencionalidade. Não o acuso de má-fé. Ele pode sequer perceber o que faz. Mas a palavra cumpre uma função precisa no novo ecossistema da autoridade: sinalizar pertencimento a uma casta letrada sem precisar demonstrá-lo pelo argumento. É o brasão verbal de quem quer parecer antes de ser.

Mas por que chegamos aqui? As instituições têm responsabilidade óbvia. Décadas de escândalos, contradições e abusos ensinaram à minha geração que confiar nas estruturas tradicionais é ingenuidade quando não é cumplicidade. A desconfiança, neste ponto, tem razões legítimas.

Há, porém, algo mais sutil e mais grave. A confusão entre opinião e conhecimento. Quando os dois se equivalem (e a cultura contemporânea faz questão de tratá-los como equivalentes), a palavra do especialista se torna apenas mais uma voz no coro. Ouvimos pessoas aleatórias sobre cirurgia cardíaca, sobre geopolítica, sobre vacinas. Ouvimos porque dizem o que queremos ouvir, e isso basta. O critério da verdade tornou-se o critério do conforto.

Some-se a isso a aceleração do mundo. A velocidade das transformações criou a ilusão de que qualquer conhecimento acumulado está automaticamente obsoleto. Se tudo muda tão rapidamente, para que estudar o que existia antes? O saber histórico perde autoridade não porque foi refutado, mas porque parece lento demais para um mundo que se reinventa a cada trimestre.

Quando não há autoridade reconhecida, a verdade vira disputa narrativa. E quando a verdade vira disputa narrativa, a educação, como a concebemos, simplesmente deixa de existir.

Não é uma metáfora. É o que vemos. Alunos que questionam professores sem qualquer base, convictos de que opinião e saber são moedas de mesmo valor. Influencers que superam especialistas em alcance e em crédito. Estudos validados preteridos por postagens virais. Uma onda antivacinal robusta no século XXI, como se a ciência fosse apenas uma narrativa entre outras, escolhida por preferência, como se escolhe um partido.

Tudo isso não é estupidez coletiva. É a consequência lógica de um mundo que destruiu os critérios de autoridade sem construir outros em seu lugar. Sem critérios para reconhecer autoridade legítima, a liberdade se converte em desorientação. E a desorientação, em tempo suficiente, se converte em caos.

A palavra intencionalidade continuou cruzando o ar enquanto voltei à minha escrita. Pensei que o verdadeiro problema não é a palavra vazia; é o silêncio que ela preenche. O silêncio das instituições que não souberam se reformar sem se dissolver. O silêncio dos adultos que abdicaram de transmitir o que sabiam, com medo de parecer autoritários. O silêncio das escolas que confundiram protagonismo com ausência de direção.

Palavras bonitas proliferam onde o pensamento recua. Não são a causa do problema. São o aviso.

Quando a aparência substitui a substância, não é a palavra que empobrece; é o mundo que a palavra deveria nomear.

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